Culturas

LisbonWeek invade o bairro da Ajuda!

A quinta edição da LisbonWeek arranca este fim de semana no bairro da Ajuda. Falámos com a fundadora, Xana Nunes, para saber como funciona este projeto e o que esperar das iniciativas culturais deste ano, entre os dias 26 de outubro e 3 de novembro.
Por Carolina Carvalho, 25.10.2019

A LisbonWeek é um projeto que anda, desde 2012, a dinamizar Lisboa com iniciativas culturais. A primeira edição (em 2012) consistiu em sete rotas com diferentes temas pela cidade, no ano seguinte o espaço de ação foi Do Marquês de Pombal ao Rio Tejo (2013) e desde então cada edição centra-se num único bairro, Alvalade (2015) e Lumiar (2017). Em 2019 o local escolhido foi o bairro da Ajuda, para o qual a LisbonWeek desenhou uma preenchida, diversificada e curiosa agenda cultural entre os dias 26 de outubro e 3 de novembro. O Palácio da Ajuda e o Jardim Botânico são dois dos protagonistas do programa. Há muitas visitas culturais com guias que se revelam oportunidades únicas de conhecer em formato de passeio este bairro, assim como exposições, conferências e worshops pensados e criados para este evento cultural que se caracteriza por explorar espaços da capital habitualmente fechados ao público ou simplesmente escondidos e desconhecidos. Para perceber como se monta um projeto desta dimensão e o que é absolutamente imperdível durante a próxima semana, entrevistámos Xana Nunes, a fundadora do projeto.

Saiba mais sobre a LisbonWeek aqui e veja o programa na íntegra aqui.

Relembre-nos as primeiras ideias que deram início ao projeto LisbonWeek em 2012?

Ao longo de mais de uma década tive o privilégio de organizar os mais extraordinários eventos, quando as marcas de luxo começaram a chegar a Portugal. O objetivo dessas marcas era criar eventos maravilhosos dentro do património nacional e, nesse sentido, sempre procurei lugares nunca antes abertos, como palácios privados que não se encontravam abertos ao público. Comecei a sentir uma grande pena desses mesmos eventos se direcionarem sempre para o mesmo público, para os mesmos líderes de opinião que têm acesso às marcas de luxo. Tinha pena que a população em geral não pudesse ter acesso a esse conhecimento, à nossa riqueza nacional. Foi então que fui à Câmara Municipal de Lisboa (CML) e lhes apresentei a LisbonWeek, cujo objetivo seria que todos pudessem ter acesso às histórias magníficas e aos segredos mais escondidos da cidade. A CML adorou a ideia e é, desde 2012, o nosso co-produtor. Na altura o objetivo era atrair não só o público nacional, mas também o internacional.

Porquê o Bairro da Ajuda para a edição deste ano?

A escolha de um bairro é sempre um desafio. Eu costumo responder "porque não a Ajuda?" ou "porque não o bairro de Alvalade?", como foi o primeiro. Acho que a Ajuda é um bairro riquíssimo – que se veste ainda de Lisboa antiga, embora já esteja a dar os primeiros passos na modernização, mas mantendo a traça original. Com um Palácio que irá, em breve, acolher um magnífico Museu das Jóias da Coroa. Achei que estava na altura de chamar a atenção para este bairro, que não tem muitos habitantes – são cerca de 19000 –, mas com histórias riquíssimas para contar e que está paredes meias com Belém e com Alcântara. Decidi assim que este seria um bairro que merecia a nossa atenção, também pelos seus autores e as histórias que têm para contar.

Quais os seus destaques da edição deste ano?

Os destaques são as nossas visitas culturais. Como já é habitual, o nosso historiador desenhou visitas únicas… Além disso, desafiámos o Palácio Nacional da Ajuda e o Jardim Botânico, entre outros, a organizarem, ao longo destes dez dias, visitas ainda mais especiais. Por exemplo, o Palácio Desconhecido é uma visita em que vamos aos bastidores do Palácio, portanto uma visita que vai além daquilo que normalmente é aberto ao público. No Jardim Botânico vai ser possível fazer uma visita com a diretora do Jardim… Em suma, nós conseguimos ter acesso a locais únicos e desbloqueamos burocracias, de forma a que as pessoas tenham uma experiência singular.

Além disso, convidámos alguns artistas a reinterpretarem o nosso património. Convidámos Gonçalo Santana que nos apresenta uma exposição de inteligência artificial, sendo uma homenagem a Alexandre Herculano, bibliotecário que tanto contribuiu para a riqueza desta biblioteca [biblioteca Real do Palácio Nacional da Ajuda] e que vai estar instalada além da LisbonWeek. A Mariana Santos Lima, que é uma artista com uma grande devoção à Nossa Senhora, vai fazer uma instalação com o seu trabalho na Igreja da Memória, onde encontrámos um padre com ideias modernas e que acolheu este nosso desafio. Além de um concerto de música de cinema dentro da Igreja da Boa Hora… Entre outras atividades e projetos ligados à arte que nós fizemos com moradores, destaco ainda uma exposição ("estendal fotográfico") feita com fotografias dos moradores para ver no Pátio do Bonfim, ao lado da Junta da Freguesia da Ajuda (onde morou o Marquês de Pombal), uma homenagem aos estendais de Lisboa.

Por último, e não menos importante, conseguimos juntar o bairro. Com o apoio da Gebalis [Gestão do Arrendamento da habitação Municipal de Lisboa], conseguimos juntar cerca de 250 moradores da Ajuda, desde os que vivem na Boa-Hora aos do 2 de Maio, passando pelos moradores do Casalinho, e criámos, com o projeto Inside Out e o artista JR, três novas fachadas com estes rostos, que bem retratam os moradores deste bairro.

As pessoas que aderem às atividades da LisbonWeek vêm de variados locais ou, principalmente, do bairro em questão?

É um público muito equilibrado. Nas outras edições tivemos uma percentagem média de 15% de [visitantes] internacionais para um restante público nacional. Há uns fiéis seguidores que nos seguem há 5 edições para todos os bairros e, claro, há uma percentagem muito forte dos moradores dos bairros. Acreditamos que nesta edição o público internacional aumente, em proporção ao que está a acontecer à cidade de Lisboa.

E quem são as pessoas que conduzem as atividades, nomeadamente os passeios e workshops?

Convidámos a diretora do Jardim Botânico, ou a curadora da Biblioteca [Nacional da Ajuda]. São pessoas que, normalmente, não têm disponibilidade para estar todos os dias a fazer estas visitas. E também, relativamente aos nossos historiadores, começámos com o grande olisipógrafo José Sarmento Matos, que já nos deixou, mas continuamos a trabalhar com os seus discípulos, neste caso com o Pedro Sequeira que é um guia historiador fantástico que nos acompanha desde a primeira edição.

Como fundadora da Lisbon Week explique-nos o objetivo deste projeto.

Costumo dizer que a LisbonWeek é um cocktail de vitaminas… Os presidentes das juntas de freguesia têm tarefas muito difíceis no dia-a-dia e, por vezes, não têm tempo de olhar de fora para todas as riquezas que têm à sua mão. O que é normal, já que a preocupação é a população… E quando nós chegamos, somos uns provocadores que fazemos acontecer. A LisbonWeek é uma plataforma de comunicação que disponibiliza dez dias onde as pessoas podem realmente fazer uma experiência mais imersiva, mas ao longo de seis meses damos a conhecer as freguesias através das plataformas de comunicação. O apoio da imprensa é vital e acredito que nós somos um projeto que põe nos olhos e nos ouvidos de muita gente os bairros em questão. Acho que, tanto Alvalade como o Lumiar, tiveram diferenças depois de nós por lá termos passado e, sinceramente, acredito que temos feito uma homenagem a Lisboa e aos seus autores.

Depois de quatro edições, qual o balanço do impacto da LisbonWeek nos bairros por onde já passou?

É um balanço super positivo. Milhares de pessoas ficaram a conhecer o património de Lisboa até lá desconhecido. Abrimos as portas de centenas de sítios que normalmente são de difícil acesso. Levámos a cabo várias exposições originais e deixámos obras de arte pela cidade, nomeadamente a empena cromática de Felipe Pantone, no Lumiar. Fizemos levantamento histórico feito por historiadores, bem como levantamento fotográfico de espaços que estavam esquecidos. Acredito que esta parceria da LisbonWeek com a Câmara Municipal de Lisboa em muito tem contribuído para a descoberta do património da cidade. Ressalto ainda as várias centenas de trabalhos jornalísticos feitos sobre cada um dos sítios, desde a edição de 2012 até agora. A imprensa portuguesa tem sido incansável na partilha com os seus leitores destas histórias nunca antes ouvidas da cidade, que a LisbonWeek tem trazido a público.

Quanto tempo e quantas pessoas são necessários para tornar possível uma edição da Lisbon Week?

Estas edições são feitas em várias fases. Primeiro há toda a parte de pesquisa e de levantamento histórico de cada um dos bairros; depois é a fase de curadoria, que consiste em tentar perceber que sinergias é que podemos criar entre os artistas e o património. Desde Delfim Sardo, com a exposição I'll be your mirror, que atravessou Lisboa e onde convidámos uma série de artistas plásticos com projetos em espelho para todos nós nos vermos refletidos, significando que todos fazemos parte do património de Lisboa…passando pela fachada do artista Pantone, uma mira técnica mesmo em frente ao berço da televisão portuguesas na Tobis… Depois chegamos à fase da comunicação, seis meses onde comunicamos o bairro e os segredos do mesmo. Até chegarmos à fase final da produção do evento e mais dois meses após o evento, com exposições que ficam além dos dez dias.

Somos poucos, gostaríamos de ser mais. Deveríamos ser o dobro… Como se sabe, em Portugal, arranjar dinheiro para financiar projetos culturais é muito difícil. Agradecemos à Câmara Municipal de Lisboa e às juntas de freguesia por nos darem este apoio, mas precisávamos de uma equipa muito maior para deixar a nossa marca na cidade. Em todo o caso, somos apaixonados por este projeto e isso move montanhas.

Numa cidade pequena como Lisboa, como vê o futuro da LisbonWeek?

Dependerá muito de mecenas que encontremos para dar continuidade a este projeto. Se não fosse a Câmara Municipal de Lisboa e as juntas de freguesias dos bairros era impossível. É vital que durante os próximos meses este projeto encontre mecenas da cultura, tanto nas empresas como no sector público, para ele continuar a crescer na dimensão que deveria crescer. O nosso sonho era mesmo conseguir deixar equipas com a nossa visão em cada junta da freguesia quando por lá passássemos. E ainda que Lisboa seja pequena, há imensos bairros para explorar e imensas ideias para aplicar… Lisboa tem um mundo por desbravar.

 

Tags: lisbonweek lisboa xana nunes cultura exposições conferências workshops ajuda palácio jardim botânico igreja entrevista 2019
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