Culturas

João Tordo: "Eu tenho a certeza que a inteligência das mulheres é superior."

Ao seu décimo segundo livro, o escritor João Tordo rendeu-se. Assim nasceu 'A mulher que correu atrás do vento', um romance escrito no feminino que aborda o poder do amor e o vazio da perda. João Tordo não só conhece as mulheres, como as sente. E não tem medo de mostrar.
Por Pureza Fleming, 21.05.2019

Planeámos encontrar-nos dois dias antes do Dia Internacional da Mulher e tal combinação foi mera coincidência. Tal como foi o facto de João Tordo (Lisboa, 1975) ter iniciado a escrita do seu décimo segundo romance, A Mulher que Correu Atrás do Vento (Companhia das Letras, 2019), há dois anos. O mesmo ano em que estoirava a saga #MeToo. O mesmo ano em que o feminismo voltaria a levantar a sua voz ? de forma pujante e quase ameaçadora ? pela incessante busca de igualdade de direitos. "Começar a escrever este livro, nesta altura específica, não foi propositado, ainda que possa ter tido alguma influência. Havia uma energia feminina no ar muito forte." Ah, o feminismo! Impossível falar com o premiado escritor português acerca do seu mais recente livro, sem trazer à superfície este tema. Primeiro porque esta é uma história sobre mulheres. Depois porque esta é uma história sobre mulheres com feitios de mulheres, emoções de mulheres, problemas de mulheres e… resoluções de mulheres.

"Os meus livros são todos muito masculinos. São quase todos narrados por vozes masculinas, todas muito próximas de mim ou parecidas comigo. Naquela altura apetecia-me fazer uma coisa diferente que fosse um desafio à minha capacidade de me colocar não só na pele do outro, mas na pele de um outro que fosse de um sexo diferente." João Tordo dá-nos a conhecer Lia, Lisbeth, Beatriz e Graça. "Quatro mulheres. Três cidades. Um século. E uma poderosa história de amor e de perda a uni-las", pode-se ler na sinopse. Lia, a primeira personagem por quem o autor confessa nutrir um carinho especial, foi a grande propulsora da história: "Conheci, em 2017, uma rapariga sem-abrigo, com 16 ou 17 anos, que tinha uma história estranha de vida. Foi ela que inspirou a personagem principal, a Lia. Pode-se dizer que o livro começou aí, com esta rapariga sem-abrigo que eu conheci… A segunda personagem, Lisbeth, pertence a uma história que eu já tinha escrito há uns tempos, mas que tinha guardado. Passa-se no final do século XIX, numa pequena cidade alemã, e conta a história de uma professora de piano que se apaixona por um dos seus alunos, um rapaz de 13 anos que é autista. E que é também um génio musical. Esta é uma história de envolvimento proibido, mas também de plágio. Lisbeth está a escrever uma sinfonia que não consegue acabar e o miúdo acaba-a por ela. O que Lisbeth faz ao miúdo para ficar com a obra dele é terrível", deslinda o autor.

A carga emocional que carregam estas mulheres sente-se a cada linha. Tordo confirma a sensação: "Não é fácil falar neste livro de forma linear porque ele não é linear." Não o é. Até porque, se por um lado as mulheres, no geral, não são (nada) lineares, por outro lado, para se conseguir sentir verdadeiramente o que envolve a arte de se ser mulher é preciso, antes de mais, que se seja mulher. "Eu já vinha a pensar em escrever uma história sobre mulheres há quatro, cinco anos. E questionava: ‘Como é que eu abordo isto? Escrevo na terceira pessoa? Na primeira?’ Acontece que nos últimos anos eu tenho-me reaproximado, no sentido emocional, das mulheres que estavam na minha infância. E eram muitas: a minha irmã gémea Joana (a quem Tordo dedica este livro), a minha mãe, a minha avó, as minhas tias-avós… Quando eu tenho essa memória, lembro-me: ‘Eu cresci com mulheres! Poucos homens e muitas mulheres.’ Então foi como se tivesse regressado a esse lugar." Da infância pulamos até à juventude do autor com a personagem Beatriz. Uma estudante universitária, de 21 anos, a residir em Lisboa e a estudar na mesma Faculdade que o autor frequentou nos idos dos anos 90. "[A Beatriz] não é a personagem principal, mas é a pessoa que escreve a história. A voz dela acabou por ser muito importante porque eu sabia que, enquanto estava a escrever o livro, não era eu que o estava a fazer. Todos os dias, durante um ano, eu levantava-me da cama e eu era a Beatriz. Isso levou-me a conhecer lados meus que eu desconhecia." Pergunto-lhe como foi meter-se nos sapatos ? altos, rasos, bicudos e tantas vezes tão incómodos ? não de uma, mas de quatro complexas mulheres. "Ganhar empatia foi muito difícil e eu acho que o é para ambos os sexos. Mas o livro ajudou-me muito nesse sentido. [Antes de o escrever] eu, se calhar, escutava e até podia tentar entender a maneira de como uma mulher se sentia em dada situação, mas não sabia o que era passar por isso sendo mulher. Eu não posso dizer que agora o saiba, no sentido literal, mas sei-o metaforicamente."

Há outros fatores impossíveis de ficar de fora quando o tema são as emoções à flor da pele que tão bem caracterizam o sexo feminino ? e que Tordo não descura, nem um bocadinho. "Eu tenho em mim montes de coisas que são consideradas essencialmente femininas ? hipersensibilidade, muita empatia, no sentido positivo e negativo da palavra, que são qualidades humanas a que apelidam como sendo femininas. Eu acho isso estúpido", manifesta. "Acho sempre um bocado estranho quando dizem que temos um lado masculino e um lado feminino. Eu não acho que haja esses lados, mas que somos as duas coisas." Porém, adianto eu, nem só de hipersensibilidade e de empatia se faz uma mulher. E questiono Lisbeth, a personagem que se envolve com o aluno de 13 anos para se apropriar da sua genialidade. Atribuo-lhe a característica de malévola. O escritor ri-se: "Essa palavra é interessante… Malévola… Mas não. Segundo os padrões de hoje, sim, seria uma personagem má. Nos tempos que correm vimos muito isso. Agora em 1872… Um homem de 30 anos casar-se com uma mulher de 13 não iria ser chocante. Era uma coisa habitual, aliás. Mas eu quis, de certo modo, reverter a situação. Hoje em dia são sobretudo as mulheres que têm razão de queixa. E eu acho mesmo que a têm e que ainda vai levar algum tempo até a coisa ficar equilibrada. Com a personagem da Lisbeth quis olhar um pouco para o outro lado: ‘Mas então se hoje é assim, como seria no final do século XIX se a situação fosse invertida? Em que um miúdo autista está à mercê de uma tutora que se aproveita da sua circunstância?’ Por outro lado, esta personagem [Lisbeth] está relacionada com Graça, a quarta e última personagem, a mãe de Lia, já que ambas contam histórias de abuso. E, portanto, a Lisbeth e a Graça são um bocado o espelho uma da outra. Apenas existem em épocas totalmente diferentes." Hoje, é certo que tanto a Graça como a Lisbeth seriam chacinadas na praça pública, ou, diríamos antes, em meios digitais públicos.

"É, de novo, a questão das redes sociais", confirma o autor. "A forma de como se democratizam as opiniões e de como estas se tornam vazias." A este propósito, volto a colocar em cima da mesa a questão do feminismo e da forma de como este se está a propagar: tudo o que é demasiado é erro? O histerismo em torno do feminismo é um bem necessário? "A palavra feminismo tem um grande problema que é, precisamente, ser a palavra oposta ao termo machismo, que tem uma conotação profundamente negativa. Se não houver cuidado com o que se diz e com a maneira como se age, o termo feminismo, que até agora tinha uma conotação relativamente positiva, pode passar a ter uma conotação negativa. E se, por um lado, há coisas que valem muito a pena serem discutidas, como é o caso de as mulheres ganharem menos, por exemplo, há outras que não podem ser equiparadas, como, por exemplo, a constituição fisiológica de um sexo e de outro. Não se pode esperar que uma equipa de futebol feminina jogue da mesma maneira que uma equipa de futebol masculina. Por questões físicas é impossível."

Em todo o caso, este não é um livro sobre o abuso, nem sobre as diferenças entre homens e mulheres. É um livro sobre perda ? a Lia que perde a mãe muito nova, a Lisbeth que precisa de perder o miúdo autista para que a sua composição seja feita, a Beatriz que perde a sua juventude… Este é um livro sobre mulheres a serem mulheres em todos os seus sentidos ? , ou seja, para o bem e para o mal: "Eu tenho a certeza que a inteligência das mulheres é superior porque é muito mais elaborada. Têm mais paciência até alcançarem certo objetivo. Os homens querem tudo para já. Se querem vingança fazem-na no mesmo dia. Se têm um plano maquiavélico este acaba por se desconstruir porque os homens, simplesmente, não têm jeito para esquemas… As mulheres podem ser muito emocionais, mas são também esquemáticas. Eu acho isso fascinante." E essa é uma característica que vemos nas suas personagens. Não só com Lisbeth, mas também com a doce e sofrida Lia que depois de fazer a sua purga emocional com uma terapeuta, de forma a resolver as questões de abandono da mãe, acaba por mostrar que aquela purga tem todo um esquema de vingança por detrás. "Um homem não faria a coisa assim. Não teria a paciência, a tolerância ou a empatia, nem se daria a si próprio o tempo para chegar ao clímax da história ? que é bastante poderoso", avança o escritor.

Assevera-me que de todos os livros que escreveu este é, talvez, o mais desafiante: "Eu queria contar estas histórias de forma coerente, mas que, ao mesmo tempo, funcionassem como um puzzle. Que fossem histórias sensíveis, mas que não se deixassem cair no sentimentalismo. Que fossem histórias de mulheres, sem descurar o facto de que os homens também estavam lá. Portanto, o jogo não foi fácil." E deixa uma palavra à sua editora, Clara Capitão, garantindo que sem o seu apoio (e a ajuda da sua voz feminina), não teria sido a mesma coisa, já que se tratava de um livro "mesmo muito complicado de reescrever e de editar". Da experiência, João Tordo leva, além de um conhecimento (ainda) maior em torno do sexo feminino, uma nova forma de escrever: "Normalmente eu tendia a escrever os livros virado para uma parede e sem qualquer contemplação do que está à minha volta. Com este livro eu senti a necessidade de escrever fora de casa. Ter um lugar que fosse público, onde eu pudesse estar a olhar, de preferência para coisas belas: um lago com patos, uma rua bonita com pessoas a passar." O efeito feminino a dar de si.

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