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Joana Espadinha: "Precisamos de mais artistas femininas"

De raízes alentejanas e vivências lisboetas, Joana Espadinha confessa-se, com orgulho, cantautora. Conversámos com a artista, num rooftop em Lisboa. Veja o vídeo e leia a entrevista.
Por Rita Silva Avelar, 05.11.2018

Uma das vozes emergentes do panorama da música nacional, Joana não tem medo de aventuras – saltou, afinal, do jazz para a pop à procura da sua essência (um processo que começou no primeiro álbum, Avesso, de 2014). Ainda entrou em Direito, mas acabou por estudar jazz no Hot Clube e, mais tarde, no Conservatório de Amesterdão. Escreveu o novo disco O Material Tem Sempre Razão duas vezes. Encontramo-la com um ar feliz e tranquilo, como quem guarda por muito tempo um segredo e agora se prepara para o contar ao mundo.

De que forma é que a música entrou na sua vida?

A música sempre fez parte da minha vida. Venho de uma família alentejana e, no Alentejo, há muito a tradição de cantar as modas, e em criança já as trauteava a todas. Aquilo que me é mais natural desde pequena é a parte criativa, escrevia poemas, adorava escrever. Mas nunca pensei que viesse a ser essa a minha profissão, eu queria ser jornalista, e acabei a estudar Direito. Só a meio do curso percebi que a música viria a ser uma coisa mais séria na minha vida e fui estudar jazz para o Hot Clube. Fui atrás das minhas canções e de lá fui para Amesterdão, para o Conservatório.

Como nascem as letras das suas músicas?

Quando estava no liceu tive a típica banda de garagem, tocava uns acordes na guitarra e fiz uma ou outra música. Mais tarde, quando comecei a estudar jazz, tentei escrever música, mas não gostava daquilo que escrevia. Um pianista grego que trabalhava comigo disse-me algo que nunca mais esqueci. Perguntou-me: “Como é que escreves?” E eu respondi que me sentava ao piano e tentava escrever. E então ele disse: “Mas tu não és pianista, tu tens de escrever aquilo que estás a imaginar na tua cabeça.” Foi aí que comecei a entender que a minha imaginação não tinha limites (…) e que a música já estava dentro de mim.

O que a fez dar o salto do jazz para a pop?

O primeiro disco, o Avesso, é um disco de transição, a influência do jazz está lá. Apesar de ter um carinho grande pelo primeiro disco, a música era mais dispersa, não tão focada como esta. E quando digo focada falo de canções sem pontas soltas, que foram reduzidas àquilo que precisam para ser canções que as pessoas gostem de cantar. Esse processo de composição foi longo, durou quase quatro anos, o período de transição de um álbum para o outro.

O que é que se passou nesse período?

Passei de uma fase pós-primeiro disco a fazer coisas completamente diferentes, depois percebi que essas canções super pop e catchy não tinham tanto a ver comigo. Depois passei para a fase de escrever em inglês e fazer coisas folk. Nessa fase, contacto o Benjamim [Luís Nunes] para produzir o meu disco. Convidei-o para um concerto, depois para um café, e ele aconselhou-me a escrever em português. Recomecei do zero, voltei a chamá-lo, ouviu e disse: “Boa, fizeste o que eu disse, vamos trabalhar!”

E assim nasce O Material Tem Sempre Razão. Como foi esse processo de produção?

Eu não consigo escrever e fazer música com a qual não me identifico. E este disco é um retrato fiel de quem eu sou. O nome é quase uma sátira ao facto de, como artista, ter querido, um dia, agradar a toda a gente, e ter percebido que, quando tentamos ser quem não somos, “o material tem sempre razão”. Há um curto-circuito.

As mulheres têm hoje mais voz e palco que nunca ou ainda há um longo caminho pela frente?

Já senti alguma desconfiança em relação à minha pessoa por cantar e também escrever. É preciso que exista a consciência de que as coisas ainda não estão equilibradas. Pelo peso que tem a imagem numa compositora mulher, pelo tipo de pressões que sofremos, por exemplo, em relação à maternidade. As coisas estão a mudar, mas é preciso que, por exemplo, nas programações, existam mais artistas femininas, de compositoras a instrumentistas. Há muitas mulheres a dar cartas na música.

Agradecimentos/vídeo: Upon Lisbon Prime Residences

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