Culturas

Jessica Pratt: "Eu componho sempre sozinha"

A voz melódica e doce de Jessica Pratt soa exatamente assim, tal como esperámos, ao telefone desde Los Angeles. Misteriosa, a cantora e compositora americana não é apenas uma das artistas que fizeram parte da génese do movimento freak-folk.
Por Rita Silva Avelar, 01.03.2019

A voz melódica e doce de Jessica Pratt soa exatamente assim, tal como esperámos, ao telefone desde Los Angeles. Misteriosa, a cantora e compositora americana não é apenas uma das artistas que fizeram parte da génese do movimento freak-folk. Com três discos publicados, é impossível atribuir-lhe um único género musical. Do folk dos anos 60 ao rock clássico californiano e, sim, ao freak-folk (registo associado a artistas como Devendra Banhart, Animal Collective, CocoRosie ou Joanna Newsom), Jessica Pratt é uma autêntica caixa de surpresas. E uma verdadeira mestre na arte de se sonhar acordado. Em última análise é esse feito que deixa em nós, pelo menos com o single This Time Around, o primeiro revelado do disco Quiet Signs, que acaba de ser publicado pela editora Mexican Summer.


Jessica, quais são as suas primeiras memórias referentes à música?

Eu cresci numa casa onde se tocava música a todo o momento e, por isso, lembro-me de ouvir vários géneros de música, à medida que fui crescendo. Talvez esta não seja a minha primeira memória em relação à música, mas tínhamos um carro com um leitor de cassetes e lembro-me de ouvirmos e de cantarmos sempre o [álbum] Music of My Mind, de Stevie Wonder.

Quem foram as suas maiores referências musicais à medida que foi crescendo?

Quando eu era criança ouvia muito os Cruisin’ Classics [compilações clássicas, em cassete, de músicas de diferentes artistas e de décadas várias]. Tínhamos várias coleções referentes a décadas como o início dos anos 50, o fim dos anos 60… Eu ouvi muitos artistas da Motown [editora discográfica pertencente à Universal Music Group] desde os The Beach Boys (no início) ao The Big Bopper, ao Buddy Holly. Adorava as The Shirelles, andava sempre com auscultadores a ouvir música, assim como as músicas das Ladysmith Black Mambazo.

Foram essas influências que moldaram, de certa forma, a sua identidade como artista?

Sim. Eu acredito que tudo o que ouvimos à medida que crescemos tem um grande impacto na nossa vida, mais tarde. As primeiras bandas que eu ouvi eram muitos fortes em harmonias, em melodias catchy e um pouco melancólicas também. Isso teve um efeito em mim.

Enquanto While On Your Own Love Again é um álbum mais frenético, neste novo álbum nota-se uma serenidade diferente. É verdade?

Gravar num estúdio privado foi uma experiência nova. Eu não tinha ideia do que se ia passar… É por isso que o álbum reflete tranquilidade. [Este álbum] é uma reflexão sobre o sítio onde estive enquanto compunha estas músicas… Foi um período de autoanálise e também de sossego porque eu estive em digressão durante muito tempo.

Costuma isolar-se para compor?

Eu componho sempre sozinha… É estranho ter mais pessoas por perto no processo de escrita, a não ser que se tenha uma banda.

O clássico filme de John Cassavetes, Noite de Estreia, foi o clique para começar o disco Quiet Signs. E o que mais a inspirou?

Eu fui ver o filme e fiquei a pensar nele nos primeiros meses em que comecei a escrever as letras do álbum. À parte dessa inspiração, não há nada sólido, nenhum conceito ou quadro lírico que explique o que me inspirou [para o álbum]. Nunca comecei a compor a partir de algum conceito específico.

Considera-se uma sonhadora nata?

Sim, completamente!

Se pudesse escolher uma década para viver, qual seria e porquê?

Eu escolheria viver na atualidade porque as pessoas estão a evoluir. Temos mais liberdade que nunca, embora de uma maneira estranha. Eu sinto que posso fazer as minhas escolhas sem sentir que tenho de agradar a alguém. É claro que se pode fantasiar com os anos 90, altura em que se fazia muito dinheiro [com a música] e era fácil assinar contratos de discos. As coisas estão muito acessíveis e livres, hoje, apesar de continuar a ser difícil viver da música suportando o mundo criativo em que queremos viver.

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