Culturas

Inês Laginha: “Este disco é uma janela para perceber aquilo que seria o Bernardo [Sassetti] em casa a tocar”

Uma das curadoras do disco Solo, o primeiro álbum póstumo de Bernardo Sassetti, Inês Laginha fala sobre o disco e sobre a Casa Bernardo Sassetti, mas também sobre o seu percurso, a ligação à música erudita e o futuro.
Por Rita Silva Avelar, 26.09.2019

A artista e professora de piano Inês Laginha é o nome à frente da direção artística da Casa Bernardo Sassetti desde julho de 2018. Formada pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde também fez o mestrado em Pedagogia da Música, Inês divide o seu tempo profissional entre aulas de piano privadas e o cargo que ocupa na Casa Bernardo Sassetti. "Não fosse o facto de precisar de trabalhar para viver, poderia fazer isto sem receber porque me dá muito gozo contribuir para este projeto, é tudo muito próximo. É um trabalho que gosto genuinamente de fazer" conta, ao longo desta entrevista. Juntamente com o pai, Mário Laginha, Nelson Carvalho e Daniel Bernardes, Inês Laginha chegou aos temas inéditos que compõe o recém-lançado álbum póstumo Solo (o pianista prodígio faleceu em maio de 2012, aos 41 anos). Disco este composto por temas registados em três dias nos Açores, em 2005, no Teatro Micaelense. A par desta novidade, no próximo sábado, dia 28 de setembro, Bruno Pernadas Ensemble reinterpreta a música de Bernardo Sassetti, num concerto a ter lugar no Pequeno Auditório do CCB às 21h.

Inês, pode contar um pouco sobre a sua trajectória? Pode dizer-se que a música sempre foi um bocadinho a sua casa?

A minha mãe é professora de piano clássico, e o meu pai é pianista de jazz e eu cresci entre as duas músicas, estudei ambas, e dou aulas das duas também. Eu costumava dizer que uma das mágoas do Roberto Leal é que as pessoas diziam que no Brasil era português, e em Portugal era brasileiro e eu sinto um bocadinho isso em relação ao jazz e ao clássico, sinto que dentro do meio do jazz eu sou aquela que toca clássico, e que no meio do clássico sou aquela que toca jazz. Não me sinto alien em relação a nenhum, sinto que pertenço aos dois.

Quais são as primeiras memórias musicais?

Sendo que cresci numa família em que toda a gente toca… é muito difícil. Posso dizer que cresci a ouvir o meu pai a estudar na sala e foi a minha mãe que me deu os primeiros contactos com o piano porque ela era professora. Eu sempre tive essa curiosidade também. Eu lembro-me mais da minha mãe me cantar músicas para eu dormir do que contar-me histórias. Ou seja, eu cresci a ser embalada com a minha mãe a cantar coisas e a tocar na guitarra.

É atualmente professora de piano. Qual é o aspecto mais desafiante dessa experiência?

É variável o quão determinados os alunos vêm em querer uma coisa completa. E eu prefiro geralmente que fique nas minhas mãos decidir qual o caminho adequado ao aluno. Como cresci entre os dois meios e sinto os benefícios de ambas as abordagens, acabo com todos a fazer um pouco dos dois. Mesmo tocando jazz faço-o de uma maneira mais clássica, para lhes dar o outro lado. E o mesmo acontece com os que toquem música clássica, mesmo com os mais pequeninos trabalho improvisação desde o início aplicado ao tipo de música que conhecem. Acabo a fazer um pouco dos dois, e isso ajuda os meus alunos a ganhar gosto por música de forma mais alargada.

Como surgiu o convite para ser diretora artística da Casa Bernardo Sassetti?

Desde que a casa foi criada, de forma voluntária mostrei-me disponível para ajudar a inventariar, porque sabia música, e porque sabia que havia muitas partituras do Bernardo e conhecia as pessoas, como a Beatriz, que tinham acesso às folhas propriamente ditas. Pode dizer-se que desde o início que sou associada da Casa Bernardo Sassetti. Em 2016 ou 2017 começou a ser discutido o cargo, e perguntaram-me se podia pegar na causa de forma um bocadinho mais ativa. Como a casa é uma estrutura ainda muito pequena, eu sou a única pessoa contratada na casa, e além das decisões artísticas mais relevantes acabo por fazer outras coisas.

Solo é o primeiro álbum póstumo de Bernardo Sassetti, que inclui gravações feitas pelo pianista português em 2005 e nunca disponibilizadas ao público. Pode contar um pouco da história por detrás deste álbum?

Na altura, foi muito falado entre a comunidade de pianistas que o piano que estava no Teatro Micaelense, nos Açores, era muito especial, com uma mecânica muito fácil e um som muito bonito. Toda a gente que lá ia tocar saia de lá a dizer que o piano era incrível. É uma questão com a qual me identifico. Às vezes temos sorte, outras azar, aquele era uma sorte apanhar. Tendo isso chegado ao Bernardo, descobriu uns dias que tinha livres e contactou com um técnico de som e um afinador de pianos, pediu ao diretor do teatro e foi para lá passar uns dias. Não tinha um projeto definido, foi tocar música que andava a explorar na altura. Cada tema que o Bernardo fez, fez mais do que um take. E escolheu um de cada. Ou seja, quando tudo me chegou eu só tinha um take de cada música, tinha cerca 90 minutos de música. Um álbum tem, na teoria, cerca de metade. Falei com o Nelson Carvalho, o técnico de som que acompanhou o Bernardo na altura, falei com o Mário Laginha e com o Daniel Bernardes, que estava na altura a trabalhar comigo porque ia escrever as transcrições do segundo livro de partituras que editamos (estamos a editar um por ano). Havia temas mais longos, e depois havia canções – temas curtos – e todos concordamos que num álbum de abertura como este seria mais interessante [privilegiar] as canções.

Do ponto de vista mais pessoal, o que é que este álbum revela do próprio Bernardo Sassetti?

Aquilo que eu sinto é que a música está absolutamente ao nível dos melhores momentos do Bernardo. É uma oportunidade de ouvir o Bernardo num registo que se ouviu pouco, que é a solo. Há um álbum, que é o Indigo [2004], a solo, e pronto. É uma janela para perceber aquilo que seria o Bernardo em casa a tocar. Para todos os efeitos há assim uma janela para ver um Bernardo sem a pressão de um projeto ou um concerto concreto. É revelador da fase em que ele estava em 2005. Enquanto pianista, se não tivesse nada a ver com o processo, seria certamente um álbum que eu iria ouvir obsessivamente durante umas semanas. 

E há ainda iniciativa anual da Casa Bernardo Sassetti convidar um músico nacional. Porquê Bruno Pernadas para o concerto deste ano no próximo dia 28 de setembro?

No ano passado foi o quarteto do Ricardo Toscano, foi interessante por ser uma geração nova, por ser uma linguagem diferente no jazz, e porque seria interessante ver o que é que o quarteto do Ricardo Toscano faria à música do Bernardo, e ao mesmo tempo o que é que a música do Bernardo faria ao quarteto. Este ano tenho a mesma sensação mas o Bruno Pernadas é um músico muito diferente de tudo, tem uma linguagem muito particular sendo que é um profundo conhecedor de jazz e do Bernardo, é um trabalhador obsessivo. Começou a trabalhar nos arranjos em janeiro, e sei que não tem piano. Está a pegar na música de um pianista e a assumir a transformação. Eu adoro a ideia de poder perceber como é que a música continuará a ganhar uma vida própria. Vai ter harpa, vibrafone, guitarra – que são três instrumentos harmónicos – contrabaixo e bateria, quarteto de cordas e um instrumentista de sopro que toca saxofone, clarinete e flauta. E vai fazer diferentes combinações dessas diferentes experimentações. Vai ser um concerto muito interessante, estou a conter-me para não ir aos ensaios.

Que projetos estão para breve no alinhamento da Casa Bernardo Sassetti?

A curto prazo inclui-se mais uma edição de um disco, que será o Menina do Mar, quisemos tentar fazer em 2019 por ser o ano do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner. É uma gravação de um espectáculo que o Bernardo fez com a Beatriz Batarda, em que ela narrou o livro e ele tocou e estamos a tentar perceber se conseguimos ainda editar este ano. Temos ainda uma exposição de fotografia que irá estar nos Açores entre novembro e dezembro no Teatro Micaelense. Para 2020 e 2021, gostávamos de lançar o quarto e último livro de partituras do Bernardo Sassetti, que se vai lançar no próximo ano, que curiosamente assinala os 50 anos do nascimento do Bernardo. Será lançado em Belgais, um sítio onde o Bernardo gravou dois dos discos mais importantes, o Nocturno [2002] e o Indigo. Há uma urgência em disponibilizar todo o espólio, mas gostávamos que a Casa se viesse a tornar numa casa como a Fernando Pessoa ou Fundação José Saramago, que agisse em representação dos valores que o Bernardo defendia, ou seja que contribua para o ensino do jazz e para a comunidade do jazz e da música erudita em Lisboa e em Portugal.

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