Culturas

Helena Sacadura Cabral: "não sou uma mulher virada para o passado"

Foi a primeira mulher a ser admitida nos quadros do Banco de Portugal. Foi, também, a primeira cronista da Máxima, onde, durante vários anos, assinou a página Olhar de Mulher. Helena Sacadura Cabral revela-nos agora um pouco mais das características e das rotinas que desenham o seu universo e a sua singularidade.
Por Rita Lúcio Martins, 01.07.2019

A minha Lisboa
Na Lisboa que eu amo, aquilo que mais gosto é de me passear pelos seus jardins. Mas, mesmo nestes, tenho cantos preferidos, como o Jardim do Príncipe Real, o Jardim da Estrela – onde todos os dias caminho 45 minutos –, o Jardim da Gulbenkian ou a beira-rio que vai do Terreiro do Paço até Belém. Antes da invasão turística gostava muito de passear no Chiado, atravessar o Bairro Alto ou comer nas tasquinhas da Mouraria. Mas essa Lisboa já não existe, as pessoas que ainda lá habitam transformaram as casas em Alojamentos Locais e vão desaparecendo de lá... Lembro-me de que, quando vinda de viagens longas, aterrar em Lisboa era uma emoção. A cidade estava limpa, os taxistas eram educados e tinha-se a noção de entrar numa espécie de paraíso.
Lisboa é hoje uma cidade suja, com ruas esburacadas e a língua que mais se ouve não é o português. Os turistas, arrastando as suas malas de rodas, estragaram muito da calçada portuguesa que já não estava no seu melhor. Mas... deixam cá dinheiro para equilibrar as contas. Tudo se paga!

A minha cozinha
Desde muito pequena, a minha avó materna destinava um dia de cozinha a cada uma das suas netas. E eu gostava muito de a ajudar e de aprender porque sentia que aquela jornada era um dos elos que me prendia à minha avó Joana, uma das melhores pessoas que conheci.
Depois, na Faculdade, a então Gás Cidla, como forma de promoção, montou uma verdadeira cozinha industrial e ofereceu cursos a quem quisesse fazê-los. Fui das primeiras a inscrever-me. Em boa hora o fiz. Aprendi tudo o que precisaria para fazer da gastronomia - se quisesse ou precisasse - uma profissão, no caso de falhar como economista... Felizmente pude manter os meus dois amores e, dos 30 livros que hoje tenho publicados, cinco são de culinária. Antes, quando escrevi o primeiro, as minhas colegas acharam estranho que uma mulher com uma profissão como a minha decidisse escrever sobre tal tema. Hoje não há quem o não faça ou até empreste o seu nome para um livro de receitas.

O meu passado
Não sou uma mulher muito virada para o passado. Ele só me interessa na medida em que me faz perceber melhor o presente e não me inibe de sonhar o futuro. De resto, o que passou, passou. Não lastimo nada do que ficou para trás, porque foi esse caminho vivido que me fez a mulher que sou hoje. E eu gosto, passe a imodéstia, de quem sou e da mulher em que me transformei. Ninguém pode amar o seu semelhante se não souber gostar de si!
Tive dores, tive alegrias, ri e chorei. Mas nunca deixei de relativizar esses sentimentos e de reconhecer que havia vidas muito mais duras que a minha. Aliás, algumas lágrimas que chorei, vejo agora, foram de uma inutilidade total. Mas ensinaram-me a não as voltar a gastar com aquilo que as não merece. Já foi um ganho.

Eu e a economia
A economia continua a ser a minha ferramenta de trabalho, aquela visão que enquadra o meu olhar sobre a sociedade que me rodeia, a que me projecta o mundo de determinada forma. Sou directora financeira de uma empresa e continuo a actualizar os meus conhecimentos nesta matéria. Não seria quem sou se não fosse também economista. Só tenho pena que ela esteja hoje, sobretudo, ao serviço da política...

As viagens da minha vida
Viajei muito nos dez anos em que trabalhei na Aviação Civil. Conheço quase toda a Europa, uma boa parte da América e algumas terras de África. No Banco de Portugal continuei a viajar, embora no circuito mais fechado da Europa.
Hoje gosto da neve e, sempre que posso, tento passar uns dias com o meu filho mais novo numa estância que nos agrade. Vamos muito a Courchevel, mas as estâncias austríacas e americanas também são muito boas. A de Aspen, nos Estados Unidos, é muito diferente das europeias. Quando o Miguel estava vivo também nos fazia companhia. Recentemente descobri que a Itália tem verdadeiros tesouros nesta área e vou tentar descobri-los. Mas, para dizer a verdade, a Suíça e a França ainda estão na lista das minhas preferências.

A minha família
A minha família de sangue já está reduzida, infelizmente. Por isso, aumentou a família do coração que, essa, não pára de crescer, já que gosto de conhecer pessoas e felizmente não tenho tido desilusões. Quando os anos passam, levam consigo muitos daqueles que amamos.
E devemos tentar estar preparados para enfrentar essas perdas. Não é fácil para ninguém, mas as crianças deviam ser educadas a pensar que a morte faz parte da vida. E não são. Pelo contrário, são afastadas da ideia da morte, que mais tarde as irá marcar...

O dia e a noite
Não sou muito rotineira. A rotina é necessária para que o dia-a-dia funcione, mas hoje, com a minha idade, a única rotina que tenho é escrever. E, mesmo esta, está longe de corresponder a uma prisão.
Gosto de me deitar sem saber o que vou fazer no dia seguinte e gosto de surpresas. Fazer uma mala e ir a Madrid ou Paris. Meter-me no carro e ir a Fátima rezar. Tomar o comboio e sair no Porto, sem saber se fico por lá ou continuo viagem... Este lado inesperado da vida sempre me agradou e agora posso explorá-lo muito melhor!

A minha fé
Esta é a pergunta mais difícil. Eu não nasci com fé e os meus pais nunca me impuseram qualquer prática religiosa. Mas sempre me senti atraída por uma certa forma de espiritualidade, algo que me fizesse compreender o incompreensível.
Na Universidade, conheci o fundador da Sociologia, o Prof. Sedas Nunes, a Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo e a Dr.ª Manuela Silva. Estas três pessoas, indirectamente, acabaram por encaminhar-me para Deus.
Aos 20 anos baptizei-me e, desde então, tive sempre como directores espirituais pessoas de alta craveira intelectual. O último, o Arcebispo Tolentino Mendonça, que foi para Roma, faz-me muita falta. Desde o baptismo, nunca mais deixei de estar comprometida com a minha religião. E sei que ela é um dos meus grandes suportes face às fragilidades da vida.

O meu mais recente livro
É uma peregrinação pelos meus contos. Uns reais, outros ficção, outros ainda memórias que vivi. Sempre gostei de contar histórias e, quando estava na vossa revista, era uma das áreas na qual me sentia mais à vontade.
Ao longo da vida fui escrevendo pequenas "estórias", sabendo que um dia as iria publicar. Trata-se de uma perspectiva curiosa porque O Sal da Vida (Clube do Autor), este último livro, reúne muito do que escrevi ao longo destes 15 últimos anos e não publiquei. Chegou agora a altura. E ele está aí para minha satisfação e, espero, para alegria dos leitores!

Tags: helena sacadura cabral livros lisboa europa economia negócios e finanças questões sociais política
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