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Filomena Cautela sem reticências

Com 33 anos e várias provas de talento dadas, já é um dos rostos mais visíveis da RTP. Ainda assim, a apresentadora diz-se um alien no meio televisivo. Fomos saber porquê.
Por Rita Lúcio Martins, 30.07.2018

"A Mena vem já ter consigo", dizem-me, enquanto pedem que eu aguarde num dos átrios atípicos da RTP. Suspiro. A verdade é que não foi fácil agendar a entrevista, mas depois de algumas tentativas e de várias remarcações, ali estava Filomena Cautela, educadamente sorridente e vestida de escuro. Calças cinzentas largas, camisola de malha preta e sapatos de ténis cinzentos. Nem um vislumbre de acessórios, de qualquer tipo de ornamento ou de cor. Num instante, todas as atenções centram-se, inevitavelmente, naqueles gigantes olhos azuis. "No dia a dia não me maquilho", desculpa-se Filomena, como se adivinhasse o meu pensamento. "Mas esta manhã estive a gravar", justifica, referindo-se ao 5 Para a Meia-Noite, programa transmitido pela televisão pública e por ela apresentado. Ela, Filomena Cautela. Faladora apaixonada, curiosa nata, observadora atenta. A mulher de resposta na ponta da língua, reflexo de uma sinceridade quase incorrigível: "Gosto dos teus ténis", diz-me, enquanto se debruça para me atar o atacador e, assim, desatar aquele início de conversa.

Nasceste em Lisboa. Qual é a primeira memória que guardas da infância?

Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, como grande parte dos "Alfacinhas". A minha mãe veio de Castelo Branco e o meu pai de Ferreira do Alentejo. Lembro-me, antes de qualquer outra coisa, de ser muito curiosa. Quando era bebé tinha os olhos muito grandes… Desproporcionalmente grandes. Dizem-me que os tinha sempre muito abertos e que falava com quem se cruzasse comigo na rua. Na infância e na adolescência, tornei-me mais introvertida… Refugiava-me muito nos livros e não era muito desenvolta, até verbalmente. Por outro lado, era muito observadora, escrevia muito e não me encaixava em nenhum grupo em particular. Dava-me com toda a gente. No meu núcleo chegado cabiam amigos muito diferentes, desde os "betos" aos "dreads".

Onde é que estudaste?

Primeiro estudei no Externato do Parque e depois no Externato Marista de Lisboa. Fui sempre muito ativa e participativa nas atividades extracurriculares. Fazia parte da Associação de Estudantes e do grupo de Teatro… Eu não era propriamente popular, mas todos sabiam bem quem eu era, até porque os meus irmãos [tem um irmão e uma irmã mais velhos e um irmão mais novo] já tinham frequentado a escola e, além de o apelido Cautela não passar despercebido, eles também têm personalidades fortes…

Já querias ser atriz, na altura?

Eu já sabia que queria ir para o Conservatório. Naquela altura, eu teria os meus 16 ou 17 anos e ainda não tinha havido o boom dos atores jovens e o respeito que se tinha pela profissão era muito diferente. Ser ator não era visto da mesma forma que é hoje. Sei que pareço velha quando falo desta forma, mas é a verdade. Houve uma mudança grande. Ser ator era uma profissão mal vista, precária e pouco respeitada. Por isso, quando decidi ser atriz, os meus pais não acharam muita graça…

Lembras-te desse momento?

Perfeitamente! Tivemos uma longa conversa. Na altura havia um curso pós-laboral na Casa do Artista com quase todos os professores do Conservatório. Mas era caro. Então o meu pai propôs-me: "Vais para a Faculdade de Direito (que era algo de que eu também gostava) e eu pago-te o curso de Teatro. Depois verás o que queres fazer." Só que, quando terminei esse curso de atores, um dos professores convidou-me para fazer um casting e eu acabei por ir fazer uma série chamada Ana e Os Sete. Foi o meu primeiro projeto em televisão. A partir de então, as coisas começaram a desenrolar-se e eu acabei por ter de tomar uma decisão em relação ao curso de Direito. E saí [dele].

Os teus pais aceitaram a decisão?

Levou-lhes algum tempo a aceitar e a reconhecerem: "Ah, ela conseguiu!" Mas acho que isso faz parte da preocupação natural dos pais e ainda bem que é assim. Tem a ver com o desejo que eles têm que os filhos tenham uma vida boa.

Foram sempre muito presentes na tua vida?

Muito. Sobretudo a minha mãe [recentemente falecida]. Deram-me os instrumentos e a liberdade necessária para eu me saber desenvencilhar. Acho que tive muita sorte com os pais que tive. Sempre com um acompanhamento muito próximo, com alguma precaução e muitos avisos. E quando falhei, num período em que estive desempregada muito tempo, foram eles que me disseram: "Tem calma. Nós estamos aqui!" Foi por isso que não desisti. Isso foi muito importante. E há muita gente que não tem essa base de sustentabilidade. Tenho muitos amigos atores que não a têm, que não têm pais com a base financeira para os ajudar e que nunca sabem se, no mês seguinte, vão ter dinheiro para pagar a renda [de casa]. Para mim, os verdadeiros artistas são esses. Aqueles que, mesmo assim, não vergam perante o seu ofício artístico e não se comercializam. Eu mantenho a minha luta. Mas sei que artisticamente verguei algumas das minhas convicções.

Mas continuas a definir-te como atriz?

Hoje em dia já não consigo. Esse longo período em que estive desempregada causou-me uma angústia muito grande porque pensava que, se um dia a minha mãe precisasse de mim, eu não iria ter dinheiro para a ajudar. É uma questão muito importante para mim. Acho que devia haver uma altura na vida das pessoas em que elas passariam a depender dos filhos e os filhos tinham essa responsabilidade de dar aos pais a melhor vida possível. Devia ser este o ciclo da vida. Foi quando comecei a pensar mais seriamente nisto que apareceu a possibilidade de ser apresentadora de televisão.

Através de um casting para a MTV…

Sim e que foi puramente acidental. Fui sair com amigos, à antiga Kapital, e estava lá a Patrícia Vasconcelos [a maior diretora de castings do país] e o Diogo Dias que era VJ da MTV e meu amigo. O Diogo convidou-me para participar e fizemos ali uma brincadeira e passei à próxima fase. Acabei por ficar. Foi uma das alturas mais loucas da minha vida! A MTV fazia a atualidade musical e cobria os festivais de verão e tivemos o maior evento de sempre [até à transmissão do Festival da Eurovisão, em maio último] com o MTV Music Awards, com a presença da Madonna, do Robbie Williams e do Borat. E eu estava lá. Foi uma loucura! Nessa altura, eu ainda fazia alguns trabalhos como atriz. Essa faceta e a [faceta] de apresentadora eram complementares. Hoje já não é assim… Hoje eu sou apresentadora de televisão e é disso que vivo e vou tendo alguns projetos de teatro muito específicos [prepara-se para trabalhar em Limbo, um projeto de Sara Carinhas sobre a crise dos refugiados]. É esta a minha liberdade. Mas demorou muito, muito tempo até descobrir o prazer que é apresentar um programa de televisão. Na verdade, isso só aconteceu há pouco tempo. Eu ficava muito nervosa, ansiosa e não dormia.

O que é que te pesava tanto?

A responsabilidade. Quando se está em palco tem-se o texto de um grande autor, a visão de um encenador e há coisas pertinentes para partilhar. O que me angustia em televisão é a importância do que eu tenho para partilhar e para ter o direito de entrar em casa das pessoas. Preocupa-me o público e as pessoas que apostaram em mim. Se olharmos para o panorama televisivo, percebemos que não sou o estereótipo da apresentadora ou da atriz: não sou alta, nem "boazona", nem giríssima. Nunca "andei" com ninguém. Não tenho alguém da família no meio. Eu sou um bocadinho um alien cá dentro [da Televisão]. Por isso, eu sinto uma grande responsabilidade perante as pessoas que apostaram em mim. Por um lado, eu sinto que não posso defraudar essas pessoas e, por outro, que tenho de ter algo interessante e pertinente para partilhar.

O que é que muda quando o programa deixa de ser diário e passa para semanal e tu és escolhida como a única apresentadora?

Este programa [5 Para a Meia-Noite] tem nove anos de tradição. Já por aqui passaram vários apresentadores que admiro muito. Nessa altura, o "5" [Para a Meia-Noite] deixa de ser aquilo que eu quero para passar [a ser] aquilo que tem de ser para se manter "vivo", para continuar a agradar àquele público fiel e para conquistar novos públicos. Claro que no meio disto tudo coloco os meus "pozinhos de perlimpimpim" e nunca faço nada com o qual eu esteja contra.

Isso passa por recusar determinados entrevistados?

Nunca aconteceu, até porque eu tenho a convicção que é na diferença que crescemos. E eu acho que o "5" é o único programa de televisão [em Portugal] com tanto espaço para a diferença. O que é interessante é isso: perceber que por mais diferentes que todos sejamos, temos sempre um ponto em comum. Somos todos gente. E quando encontramos essa réstia de humanidade ganhamos todos. Quanto maior for esse respeito, menos violência haverá no mundo. No fundo, é esta a mensagem que eu gosto de passar no programa.

Uma mensagem de tolerância. É nesse sentido que caminhamos?

Não, isso é completamente ilusório. As redes sociais vieram promover os extremos. Estamos cada vez mais polarizados e convictos na defesa do nosso nicho. Isso é perigosíssimo. Eu tenho um bocadinho o "coração na boca", mas considero-me uma pessoa tolerante. Tenho essa capacidade de me sentar e de ter uma conversa franca com alguém que não respeito. Pode acabar mal, mas tenho essa disponibilidade. Gosto de ser chocada, confrontada com coisas diferentes do meu mundo. Gosto de me sentir ignorante. Não fico violenta. Fico curiosa.

Tem a ver com humildade?

Eu não acho que seja humilde. Sou muito crítica em relação ao meio em que vivo. Acho que sou consciente e sofro com isso.

Tens um sentido de missão?

Sim, a nossa missão no "5" é a alternativa de entretenimento e é muito importante que ela exista. E fazemo-lo com poucos recursos. Enquanto a Televisão não for obsoleta, tem de haver uma televisão cuja linha seja a do serviço público e não a das audiências.

"Vestes a camisola"?

Sim. Gosto muito de estar aqui [na RTP] porque as pessoas com quem cresci profissionalmente estão aqui. E foram elas que confiaram em mim e que arriscaram a cabeça por mim, mesmo sendo uma "ganda maluca"…

Porque é que és uma "ganda maluca"?

Porque eu não tenho filtro. Porque não penso no perigo das coisas que eu estou a dizer. Supostamente, quando se é apresentadora, é preciso encaixar na forma de falar, de estar e de vestir, e eu não faço [isso]. Digo coisas que não devo. Tudo aquilo que eu tenho profissionalmente, devo-o a pessoas que pensam a Televisão de forma diferente e que são muito importantes porque são capazes de arriscar fora da norma. Só assim é que crescemos. Com a dificuldade, com o confronto, com a diferença, com o que te faz dar um passo em frente…

Aquele sofá [omnipresente no 5 Para a Meia-Noite] não é, portanto, uma zona de conforto?

Não! De todo… É bom que não seja e é capaz de nunca vir a ser. Mas isso tem muito a ver com a forma como eu trabalho.

Tens uma relação muito próxima com o teu público, nomeadamente através das redes sociais. Porque é que "te dás a esse trabalho"?

Porque a grande maioria são pessoas eloquentes, educadas e com coisas interessantes para dizer. E porque existe uma pressão grande, apesar de tudo, para o programa ter audiências. Eu posso até não concordar, mas trabalho para isso.

Falas de uma diferença entre o humor feminino e o masculino. Que diferença é essa?

Nenhuma! Acho é que, do ponto de vista do público, ainda é diferente ouvir uma piada vinda da boca de um homem ou de uma mulher. Eu faço as piadas que quero e que acho que têm graça…

Acreditas que, em termos de igualdade de género, com todos os movimentos sociais que têm surgido, as mentalidades estão finalmente a mudar?

O que eu acho é que, finalmente, as mulheres se lembraram da importância do Movimento Feminista em Portugal e no resto do mundo. Acho que agora o movimento feminista é trend e isso, só por si, é estúpido. O que é interessante é voltarmos atrás, olharmos o Movimento Feminista em Portugal, o qual, ainda para mais, tem várias protagonistas vivas, e percebermos o que foi que elas fizeram de importante para mudar o cânone. Acho que o movimento #metoo e todas as novas plataformas digitais são importantes e necessários, desde que não sejam uma moda.

De onde é que vem essa tua consciência política e social?

Eu sempre a tive. E sempre tive amigos que se mexiam bem no meio da política, nas juventudes partidárias… Mais em associações de movimentos políticos do que em partidos. Eu apoiei alguns candidatos, em algumas situações, mas não tenho nenhuma ligação partidária. Tenho opiniões políticas e dou-as. Sou cidadã, acima de tudo. Sou pessoa antes de ser apresentadora.

Dizes que foste a escolhida para apresentar o 5 Para a Meia-Noite provavelmente porque eras a mais barata de todos os apresentadores. O Festival da Eurovisão veio inflacionar o teu valor?

Não, de todo. Na verdade, não foi nada que eu nunca tivesse feito. A diferença foi que, desta vez, o fiz em Inglês. Acho que, depois da Eurovisão, houve muito mais pessoas que ficaram curiosas em relação a mim e ao meu trabalho. O meu valor subiu, nesse aspeto.

E aumentou a tua autoestima?

Não! Tive de fazer um esforço enorme, em casa, para me dizer: "Para e desfruta. Saboreia as notícias." Mas mais do que isso, aquilo que me comoveu foi ter feito parte de uma equipa que ganhou exatamente o mesmo que ganha todos os meses e que durante aquele período fez horários de 32 horas, que não viu a família durante três meses, que fez com muito menos recursos o melhor Festival da Eurovisão de sempre. Ter feito parte dessa equipa é uma coisa que eu nunca vou esquecer. No que diz respeito ao conjunto das apresentadoras, eu acho que se compôs um bom ramalhete: a Catarina [Furtado] e a Sílvia [Alberto] eram absolutamente obrigatórias porque são pessoas que sabem muito do que estão a fazer e que são de um profissionalismo notável. Aprendi muito a observá-las. A Daniela [Ruah] foi o nosso pilar porque estava completamente à vontade com a Língua que estava a falar. Além de ser uma referência internacional, é muito acessível e querida.

E como viveste o lado do espetáculo, dos vestidos, da maquilhagem, da imagem?

Agrada-me menos essa parte do processo… Por isso é que eu me rodeei de pessoas que me ajudaram muito como a [produtora de moda] Joyce Doret ou os Manéis [a dupla de designers de moda Manuel Alves e José Manuel Gonçalves]. Sim, gosto de ir às lojas ver roupa, mas não sei fazer o exercício de pensar se uma determinada peça me ficará bem. Por isso é que compro imensas coisas que depois não uso. Visto-me de forma confortável, mas não tenho grande sentido de styling. Por isso eu posso dizer que todo o processo foi duro. Foi uma grande prova de superação física. Acho que a sensação mais parecida com o que senti deve ser parir [risos].

És muito reservada em relação à tua vida privada, mas falas com frequência da tua mãe como sendo a tua grande referência. Queres explicar porquê?

Porque foi a mulher mais extraordinária que conheci. Foi uma mulher que deu tudo aos filhos, que teve uma carreira profissional, que concretizou os seus sonhos e que nunca deixou que a família sentisse a sua falta, nem por um segundo, porque esteve sempre lá. Mostrou-me o que é amar incondicionalmente. Mesmo que eu não venha a ter filhos, já sei o que isso é. E foi a maior lutadora que eu já conheci. Eu sei que nunca irei chegar aos seus calcanhares, tal como nunca conheci quem chegasse. E acho que nunca irei conhecer. É isto.

Continuas a sentir-te uma miúda, apesar dos teus 33 anos?

Eu acho que sim, sobretudo na forma como ainda fico entusiasmada com as coisas que me acontecem. Gostava de nunca perder essa excitação quase infantil.

Lado B

Um ritual "Yoga. Ensinou-me a respirar. Inspirar até não poder mais e depois expirar. Parece simples, mas é algo que mudou a minha vida."

Um tique "Roer o dedo médio. É horrível, eu sei…"

Uma superstição "Tenho muitas. Eu não me sento à mesa com 13 pessoas, por exemplo. E entro sempre com o pé direito."

Uma música "Ando a ouvir o CD [do Festival] da Eurovisão. É parolo, mas não quero saber…"

Um destino "América do Sul!"

Uma peça especial "Blazers (e óculos, apesar de não precisar deles)."

A primeira coisa que faz quando chega a casa "Tirar o soutien."

O que tem na mesa de cabeceira "Tenho fotografias da minha mãe, um candeeiro do Stormtrooper, do Star Wars, e o livro do momento, O Prontuário do Riso."

O que leva sempre na carteira "O telemóvel. E comprimidos de curcuma."

 

Fotografia: Pedro Ferreira
Assistente de fotografia: Ana Viegas
Realização: Rui Ramos
Assistente de realização: Catarina Oliveira
Maquilhagem: Leandra Oliveira
Cabelos: Miguel Viana/Wella Professionel
Tags: filomena cautela entrevista
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