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“Eu sou um ícone, na minha cabeça. De todas as vezes que pisei um palco, senti-me assim”, conta Peter Murphy à Máxima

Conversámos com o fundador dos Bauhaus, ao telefone, que nos revelou alguns dos mais memoráveis concertos da banda em Portugal.
Por Rita Silva Avelar, 19.12.2018

Amante confesso do público português, Peter Murphy celebrou 40 anos da banda Bauhaus (que se separou em 1983, precisamente com uma última prestação no festival de Paredes de Coura) com um concerto a 16 de novembro no Hard Club Porto e a 17 no Lx Factory, em Lisboa.

Apesar de só terem estado juntos cinco anos (de 1978 a 1983), Peter Murphy (vocalista), Daniel Ash (guitarra), Kevin Haskins (baixo) e David J (bateria), membros da banda inglesa Bauhaus com génese em Northampton, deixaram a sua marca no pós-punk e no rock gótico. Da união dos Bauhaus nasceram os álbuns In the Flat Field e Masko e canções memoráveis como Kick in the Eye, Bela Lugosi's Dead ou She's in Parties (e uma versão icónica de Ziggy Stardust, de David Bowie). O coletivo voltaria a juntar-se para uma breve união em 1998, que deu origem a um ano em tournée. Passaram oito anos até se ouvir falar de novo da banda de Murphy, em 2006, voltando a dar concertos até 2008. Uma década e quatro carreiras a solo depois, a banda inglesa faz tréguas para a celebração dos 40 anos da sua fundação.

Como é que se apaixonou pela música, recorda-se?

Eu não comecei por querer ser artista. Quis começar a tocar piano porque achava que era algo lindo e místico produzir música através desse objeto. Mas também cresci numa família muito forte em termos “vocais”, éramos muito católicos e cantávamos hinos e cânticos. Tínhamos sempre música a tocar em casa. Eu era o mais novo de um grupo grande de irmãos e irmãs. Era o sétimo. À medida que cresci ouvi música das décadas de 40 e 50: desde Doris Day a The Beatles. E eu cantava a todo o momento, mas nunca pensei em fazê-lo profissionalmente. Por essa razão, não trabalhei para ser artista, apenas me tornei num.

Poderia ter sido outra coisa?

Considero-me multifacetado, porque sei tocar, cantar, compor, gosto de Literatura. Aos 14 ou 15 anos comecei a sentir-me deslocado, foi um momento narcísico e puro. Eu vi o meu reflexo e pensei: é esta a minha saída, o meu escape [a Música].

Essa foi a primeira vez que pensou na Música como um caminho profissional?

Não, antes, recordo-me de outro episódio. Tinha 13 anos, ia com os meus pais e a minha irmã mais velha, estávamos de férias. Era noite… e eu estava no banco de trás do carro, com a cabeça pousada no meu braço, e tive uma epifania. Disse à minha mãe: “Mãe, já sei o que vou fazer. Vou ser cantor! Não sei como nem quando, mas vou.”

E depois, na adolescência?

Mais tarde, aos 18 anos, ouvia David Bowie, mas foi Marc Bolan quem captou mais a minha atenção. Comecei a prestar atenção às minhas inclinações [musicais] naturais. E claro, depois surge Ziggy Stardust [a persona criada por Bowie em 1972] que me deixou num estado mágico depois de ver uma fotografia a preto e branco desta criatura que ninguém sabia ainda quem era. Era uma criatura teatral com uma guitarra nas mãos.

Foi aí que surgiu a ideia de fazer um cover do famoso tema Ziggy Stardust?

Sim, foi quando a ideia surreal de fazer um cover da [música] Ziggy Stardust surgiu. Convenci a minha banda, em 1981, a fazê-lo. Ninguém fazia covers de Bowie. Nós fizemo-lo e muitas pessoas disseram que era melhor do que o original. O próprio Bowie disse que gostava de ter feito algo assim.

Essa versão deu um palco essencial à banda?

Foi uma maneira de abrir as portas da aceitação [da banda]. Nesta altura já tínhamos dois álbuns publicados e não queríamos ser aquela banda alternativa obscura, enterrada e pesada… Que depois de uns álbuns se separa, para cada um dos membros se tornar cabeleireiro ou algo do género.

Sentiu que se tornou um ícone nessa altura?

Eu sou um ícone, na minha cabeça. De todas as vezes que pisei um palco, eu senti-me assim. Mesmo que fosse ingénuo pensar isso. Não é uma opinião, é um estado.

Como é que descreveria os Bauhaus?

Éramos muito ligados à Arte. Éramos uma força, carismáticos, não éramos iguais a ninguém… éramos estranhos. Apanhávamos coisas da rua, transformando-as em instrumentos, e isso seria o nosso álbum. Eu descobri o meu eu artístico logo no início, e quando eu e o Daniel começámos a compor (ainda não estavam os restantes membros na banda), escrevemos o álbum de estreia In the Flat Field em dois dias. Crescemos sozinhos, dentro de nós, por nós, para nós.

Que história imortalizou a identidade da banda, em palco?

Recordo-me de um episódio num teatro ao estilo western, o Adelphi Theatre, em Londres. Lembro-me de alguém responsável pelo teatro dizer, antes de tocarmos: “É esta a banda que vai encher o teatro? O público vai ter que se comportar, isto é um teatro.” As dez primeiras filas abanavam por todos os lados. E de repente vejo “uma chuva” destas cadeiras a irem pelos ares, a serem atiradas. Eu pensei: “Oh, meu Deus!” De repente só oiço, no palco: “Temos de cancelar isto já, o que é que está a acontecer!? Acabei de ver duas pessoas a fazer amor no meio do círculo superior, que horror, é inaceitável!”, gritava o responsável. E ficámos por aí. Cerca de seis meses depois recordo-me de outro concerto, em Londres, em que estreámos a música Dark Entries [1982]. Devíamos estar em 1981 ou 1982 e foi o concerto de que me recordo com a plateia mais atenta e exigente de sempre para com os Bauhaus. O sítio era outro teatro western, o Old Vic Theatre, o clássico de bandas como a nossa. Terminámos o concerto numa euforia, e eu tinha na mão um haltere, que na última batida lancei ao ar. De seguida, lembro-me de começar a correr para os bastidores todo suado, eufórico. Cheguei lá, vi todos, menos o Dave [David J, o baixista] e perguntei onde estava. E alguém disse: “Peter… a sério? Peter…” De repente, o David é trazido para dentro em cima das cabeças de quatro ou cinco pessoas, deitado, com as mãos a esbracejar! Eu tinha-lhe acertado, sem querer.

Que memória guarda dos concertos que deu em Portugal?

Em 1996, num teatro antigo e lindíssimo, junto ao Coliseu. Recordo-me que os nossos bastidores estavam mesmo acima da multidão que nos esperava. Nesse ano apresentei [a solo] o álbum Should the World Fail to Fall Apart, e o teatro era tão antigo que por estarem cerca de quatro mil pessoas a saltar, e num só movimento, todos caíram, o chão cedeu uns três metros! E eles não pararam, foi incrível. Esse concerto foi um clássico. Havia ainda um lustre enorme que abanava, balançava… e havia uma energia maravilhosa no ar. Foi aí que percebi que os portugueses ou eram loucos ou eram fãs incríveis. Caíram, mas não se importaram, continuaram a cantar [risos]. Além das quatro mil pessoas que estavam lá dentro, estavam mais de mil a parar a rua, que não entraram, então fui até à janela do teatro e toquei All The Young Dudes [escrito por Bowie para os Mott the Hoople]. Só sei que a Polícia foi muito gentil… devemos ter parado Lisboa por uma meia hora.

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