Culturas

Dia da Mulher: “As mulheres têm medo”

Numa época em que a luta pela igualdade de género está, mais do que nunca, na ordem do dia e porque se celebra o Dia Internacional da Mulher, nove mulheres de diferentes áreas da sociedade portuguesa partilham um testemunho o que a nova década pode trazer à condição feminina. Partilhamos aqui o testemunho de Clara Ferreira Alves, enquanto o artigo completo pode ser lido na Máxima de março, agora nas bancas.
Por Carolina Carvalho, 08.03.2020

Clara Ferreira Alves, jornalista e escritora

"Eu creio que o Dia Internacional da Mulher é um dia igual aos outros. É completamente inútil e não diminuirá uma só morte por violência doméstica, nem acrescentará um só direito às mulheres. A discriminação salarial continua, sobretudo no ocidente, visto que em outras paragens menos desenvolvidas as mulheres nem sequer chegam a ganhar salários. São mão de obra escrava ou, pior ainda, traficada. E no ocidente a discrepância [de salários], sobretudo em Portugal, é enorme. A discriminação continua. Muito já foi feito e muito está ainda por fazer. Penso que depois dos grandes movimentos feministas do século XX houve uma espécie de falta de balanço a partir daí e como há uma grande clivagem entre os dois mundos, o desenvolvido e o não desenvolvido ou em vias de desenvolvimento, as mulheres do mundo desenvolvido estão concentradas exclusivamente na sua área geográfica e deixaram para trás as mulheres do Afeganistão, por exemplo, que estão num perigo terrível. Ou outros lugares, como a Índia, onde há crimes e violações. Todos esses lugares desapareceram da consciência feminista ocidental.

O futuro é bastante… eu não direi negro, mas cinzento, e não só para as mulheres. Há muitos perigos. As grandes democracias políticas estão em falência. As alterações climáticas já atingiram o chamado ponto de não retorno. É provável que os anos de paz e de prosperidade que conhecemos estejam num declínio. Todas as civilizações têm um apogeu e um declínio, e, portanto, se houver grandes mudanças no mundo, e não apenas em parte dele, eu não vejo como é que as mulheres sairão beneficiadas. Dito isto, é provável que se consigam mais coisas em território ocidental, mas serão coisas muito pequenas. Basta olhar em volta e ver quem manda no mundo e quantas mulheres estão em postos de comando. E eu não estou a falar da presidente da Comissão Europeia, nem de Angela Merkel. Por cada uma dessas há uma outra que foi completamente ‘varrida’, como a Theresa May. A grande batalha vai ser manter direitos adquiridos. E na América isto não é assim tão claro porque estão a querer reverter o aborto despenalizado e livre. É mais difícil, às vezes, manter aquilo que se adquiriu do que conquistar novos tetos. Eu creio que a discriminação salarial é uma batalha que vale a pena ser travada e só continua porque as mulheres resolveram aceitar que podem e devem ser menos bem pagas do que os homens. Têm medo. A fragilidade financeira gera outro tipo de inseguranças. E também há uma série de restrições ao nível fisiológico que os homens não têm. A competição é medonha e as mulheres têm medo de pedir. E quando são as mulheres a mandar, não são muito amigas das mulheres. Estão atomizadas e frágeis. Hoje eu vejo miúdas muito mais preocupadas em imitar os lábios das irmãs Kardashian do que em fazer uma carreira. E eu acho isso preocupante."

Tags: dia da mulher mulher clara ferreira alves feminismo direitos testemunho portugal década
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