Mundo

Christine, a estrela pop que conquistou o mundo

A cantora francesa que vende milhões de discos, está de regresso com um novo nome, Chris, e um dos melhores álbuns de 2018.
Por Jonathan Dean, 29.10.2018

Na esplanada de um bar no chique canal Saint-Martin, em Paris, no início de uma noite quente de Verão, Héloïse Letissier [ Nantes, em França, 1988] coloca um post no Twitter com a capa do seu segundo álbum, Chris. Há muito a dizer sobre o nome da estrela pop, mas, em princípio, a sua banda e o nome artístico, Christine and the Queens, estão de regresso. E, tal como ela apregoa ao mundo, está radiante. "Consegui!", declara. Sente-se muito travessa por estar a revelar o trabalho antes do tempo em que a editora discográfica queria que o fizesse [o álbum Chris foi lançado no final de setembro deste ano]. Mas ela faz as coisas à sua própria maneira. Digo que deveríamos verificar quantos likes e reencaminhamentos no Twitter o seu post conseguirá até ao final do jantar. Para verificarmos, brinco, se ainda alguém se importa com Christine and the Queens. Ela ri-se e não aparente estar preocupada com isso. E ainda bem. Foram precisos dois anos passados numa forte corrente de ventos favoráveis a Héloïse para que emergisse de França a estrela mais importante dos últimos tempos. Pelo menos, antes de se saber quem era Kylian Mbappé [Lottin, jogador de futebol ao serviço do Paris Saint-Germain]. A versão inglesa do seu álbum de lançamento, Chaleur Humaine, que vendeu milhões de exemplares, foi lançada em 2016, originando um pandemónio de críticas e uma série de populares aparições na televisão, onde interpretou Tilted, o seu single de grande êxito. Os programas de televisão apresentados por Jools Holland [pianista e apresentador de sucesso inglês] e Graham Norton [apresentador de televisão e comediante irlandês] foram os que mais impacto causaram e rapidamente as celebridades ficaram rendidas ao seu talento. Ela cantou com Elton John e recebeu de Madonna uma palmada no rabo, em palco. "É como estar no nosso quarto de adolescente, cujas paredes se encontram repletas de posters de grandes artistas, só que, neste caso, são eles que vêm ao nosso encontro", diz, com graça, referindo-se ao facto de ter conhecido os seus ídolos. Em junho passado, Paul McCartney afirmou: "Uma das minhas favoritas é Christine and the Queens." O seu novo álbum, Chris – um dos melhores do ano e um hino à vida –, deve valer-lhe elogios que a levem a ser considerada como um par entre os consagrados. Graças a esta ajuda e aos novos temas, ela corre o risco de se tornar a maior estrela pop do mundo. Ou, pelo menos, a mais interessante. Antes de mais, por que nome a devo tratar? Em 2012, quando Letissier lançou um EP, adoptou o nome Christine and the Queens, inspirado num alter ego que costumava usar, uma personagem chamada Christine, a que juntou a actuação de um grupo musical de drag queens que viu, em Londres, de onde vem o "Queens", que a ajudaram quando se encontrava numa fase de declínio. Se isto não for suficientemente confuso, a promoção publicitária do seu novo álbum apresenta o seu nome completo ao qual foi riscado o "tine and the Queens", ou seja, apenas Chris – o título do álbum e, ao que parece, também um novo nome para a cantora. Ufa! Sente-se sempre desconfortável com os aspectos mais femininos da condição de mulher e a sua nova aparência arrapazada é um sinal da sua crescente confiança que, presume-se, lhe advém da aclamação global de um projecto pop teatral. Então, como é que eu devo dirigir-me a ela? Sorri. "Adoro esta confusão", declara. "Héloïse? Christine? Chris? Talvez devesse chamar-me C. Bem, Chris é apenas o diminutivo de Christine, portanto, a maior parte dos meus amigos chamou-me Chris durante algum tempo. É muito mais prático." Quem continua a tratá-la por Héloïse? "Os meus pais", responde, com alguma tristeza. "Acha estranho se eu lhe disser que isso me faz sentir mal? Depois de ter feito todas as minhas opções, incluindo escolher um novo nome, o facto de as pessoas continuarem a tratar-me por Héloïse leva-me a dar-me conta de que há coisas que eu não posso mudar!". Chris – o nome com que me dirijo a ela, a partir de agora – fala depressa, suspira, é enérgica, emana alegria e tem opiniões. É uma estrela pop excepcionalmente inteligente, uma companhia empenhada e viva, com as sobrancelhas espessas a dançarem-lhe sobre os olhos que exploram, sem cessar, o lugar onde nos encontramos. O ar de Paris está repleto de moscas e de sons retumbantes de tambores [tocados nas ruas]. Ela está irrequieta, a camisa aberta, descaída nos ombros, cobre um top simples. Com o seu novo visual de cabelo curto, faz lembrar uma Joana d’Arc vestida pela Gap: de pequena estatura, descontraída e orgulhosa por brincar com a sua identidade como outros gigantes o fizeram, de David Bowie a Madonna.

McCartney disse que o single que assinalou o regresso de Chris, Girlfriend, um trabalho hábil de pop funk, evoca o estilo de Michael Jackson. Ele lá saberá do que está a falar, dado que trabalhou três vezes com o rei da música pop. E uma outra faixa, Feel So Good, assemelha-se tanto ao som de Jackson que parece ser interpretada por um perito em karaoke. Também Janet Jackson, com os seus "luxúria, raiva, arrependimento", é uma enorme influência. Chris tem 30 anos e as pessoas da sua idade cresceram com estes ícones. Não admira que se insinuem nas canções dela. Os dois americanos são indivíduos fascinantes ("Definitivamente!") e complexos ("Oh, sim…") e em Chris refletem-se semelhanças com o estilo dos dois irmãos, como se ela fosse a imagem fracturada deles, sobretudo de Michael. "Sinto-me fascinada pela vida trágica do Michael", diz, entusiasmada. "O desejo de alterar a sua identidade, de se tornar algo que não era sequer humano. Nem branco, nem negro e nem homem, nem mulher. Dissolveu-se no seu próprio trabalho." Chris tem também uma obsessão por Eminem e diz que o alter ego deste, Slim Shady, era "um óptimo conceito para ser uma força do caos!"; e fala do rapper Kanye West comparando-o ao falecido actor cómico Andy Kaufman, mas no Twitter. Depois aborda as "mutações de Beyoncé". É um assunto fascinante, algo que está ao nível de uma tese em Sociologia e em Comércio, mas encontrei-me com Chris para a ouvir falar dela e ela merece estar sob as luzes da ribalta que tão ansiosamente quer fazer recair sobre outros. A excelente balada "What’s-Her-Face", do novo álbum, é um tema esmagador. Lembra Madonna, nos anos de 1990, apoiada no ritmo regular e forte da cadência do hip-hop, enquanto palavras duras se debatiam com um cabelo emaranhado, hemorragias nasais e um evocativo "rosto borbulhento". A faixa aborda a questão do bulling na escola e é muito comovente, dado que a cantora, claramente, não ultrapassou essa provação. Chris não se integrava. Passou, segundo as suas próprias palavras, por uma fase Marie Antoinette quando fez da pálida rainha um modelo a seguir, enquanto a sua sexualidade – namorou com homens e com mulheres – era malvista pelos seus colegas. Sentia-se infeliz. What’s-Her-Face insinua que ainda é.

"É uma triste meditação sobre a permanência daqueles tempos", admite. "Eu serei sempre a rapariga que foi maltratada na escola." Mas está a cantar para ela própria para se assegurar de que tudo ficará bem? «Não. Não há nada de triunfante. Por vezes, na minha vida adulta, lembro-me de episódios do passado em que me sentia aterrorizada por me aproximar demasiado das pessoas. Por isso escrevi a letra do tema That Is Why Tonight I Won’t Come. Começo a sentir-me mais confiante e a ultrapassar essa questão, mas a memória daqueles tempos mantém-se." O encanto de Chris quando a conhecemos pessoalmente – extraordinário, dados os abismos em que mergulha, sentindo-se feliz por isso –, advém do facto de nunca desanimar. A sua mente aparenta ser uma grande nuvem com um perpétuo revestimento de prata. De facto, como o seu novo álbum, há nela uma estrutura – "Estrutura, gosto disso!"; a compreensão de que o mundo, o seu mundo em particular, pode estar à beira do abismo, mas que a música pop deve ser liberdade e diversão. "Há muito conflito, mas é um álbum sobre empoderamento", diz. "Estou mais forte na minha tristeza, mas há humor, também. Portanto, pode-se realmente dizer que estou furiosa."

© Getty Images
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Capa do álbum;
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Capa do álbum;
Rainha Christine





Chris nasceu em Nantes, em 1988.
O pai é professor universitário de Inglês e a mãe professora do ensino secundário. Não é uma família abastada. "Os meus pais são oriundos do estrato mais baixo da classe trabalhadora", afirma Chris. "Emanciparam-se através da escola e das artes, razão pela qual temos tantos livros em casa." O pai deu-lhe a conhecer a romancista Sarah Waters, com quem ela aprendeu o que era o sexo gay. Sobressalta-se quando lhe pergunto o que aprenderão com ela os seus fãs. "Isso é assustador!". Cala-se por um momento. "O que eu vou dizer é um pouco desconcertante… Quando eu recebo cartas, sobretudo de raparigas, elas dizem: ‘Obrigada, agora sinto-me um pouco mais livre.’ Eu estou aqui para pessoas que os outros não vêem com frequência. Eu quero enviar sinais de uma liberdade que é possível." O problema para Chris, contudo, e a razão pela qual não encontrou a sua própria liberdade, é pensar demasiado. A sua mensagem é de desafio, mas dirigida mais a si própria do que aos seus fãs. Tudo, apesar dos prémios e das vendas, é ainda uma luta. Por exemplo, depois do sucesso de Chaleur Humaine, foi convidada para desfiles de moda. Tem estilo e é francesa, o que resulta numa combinação perfeita. Ainda assim, não conseguia esquecer a sua proveniência da classe trabalhadora e sentiu-se "desonesta". O afastamento da sua antiga vida levou-a a observá-la com mais objectividade. "De súbito, dei-me conta de que eu tinha uma relação estranha com o dinheiro quando o comecei a ganhar", confessa. "Ter dinheiro foi um grande choque. Tudo se tornou mais óbvio para mim, No que respeita às minhas origens." Não é de estranhar, pois, que as personagens da literatura que adora sejam "os humilhados e os ofendidos" e que prefira a ópera e o teatro a actividades mais frívolas, como sair para dançar, o que considera ser demasiado primário e ocioso. Chris encontra-se numa posição intelectual superior à dos seus rivais. Toda esta entrevista foi feita na sua segunda língua [o Inglês], graças a Deus, e a prova dos seus interesses culturais encontra-se nas suas produções de espectáculos ao vivo e nos vídeos, os quais reflectem os seus estudos na escola superior de Teatro. Por exemplo, o videoclipe do seu último single, Doesn’t Matter – tal como o Let’s Dance, de Bowie, por via do ritmo de Hey Mickey" –, no qual Chris e um bailarino saltam e se contorcem ao longo de um parque de estacionamento vazio, os músculos em tensão a cada movimento, faz lembrar [o filme] West Side Story, mais um espectáculo do que um videoclipe de promoção. Aprofundando a questão, contudo, Doesn’t Matter não é tão despreocupado e alegre como os seus passos de dança levam a pensar. Um dos versos aborda os pensamentos suicidas. "Quando escrevi a letra", diz Chris sem hesitar ou mostrar qualquer relutância, "sentia-me muito em baixo e tornei-me contundente em relação à forma como eu me sentia."


Os pensamentos suicidas
: são constantes ou advêm de um ponto obscuro dentro dela quando os escreveu? Suspira. "A faixa fala de uma grande tristeza e do sentimento de que eu serei incapaz de escapar a uma profunda melancolia. Inventei a "Christine" como uma técnica de sobrevivência para lidar com muitas coisas. Senti que isso me salvaria. Depois, as pessoas começaram a ouvir o álbum e eu pensei: ‘Eu ficarei curada?’. Mas as coisas não funcionam assim. Estou mais bem equipada, mas a tristeza mantém-se. Quando comecei a compor música, eu queria desesperadamente relacionar-me com as pessoas", continua, "mas quando me tornei famosa, relacionava-me ainda menos. Pensei: ‘Oh, terei eu ficado presa na minha própria criação?’. Sentia-me só." Chris afirmou, em certa ocasião, que o processo de sedução da sua primeira namorada a preencheu mais do que a ter conquistado. Acontece o mesmo com a fama? "Há algo de verdade nisso", reconhece, acenando com a cabeça em sinal de concordância. "O desejo de fazer leva o meu coração a bater com mais força do que ser reconhecida." Porém, deve ter gostado de algo no seu sucesso? "Bem, recebe-se o amor do público", diz, afectuosamente. Parece uma coisa boa! Contudo, ela acrescenta: "É muito perturbante. Eu sentir-me-ia mais confortável se não gostassem de mim. Fico pouco à vontade ao sentir o amor." Ainda assim, o refrão da canção – que fala de correr e de luz do Sol – sugere uma fuga, uma libertação. "Mas eu estou a dizer a outra pessoa que deve fugir porque eu não posso fazê-lo. Tem uma deliciosa energia de tragédia grega. É como gritar: "Coooorre!". Alonga a palavra e sorri. Não há um momento de tristeza quando se está com ela. Conseguiria ser, provavelmente, divertida até numa sessão de terapia. A dada altura, a conversa dá uma volta e falamos de comer juventude para escapar à morte e de um verso de Chris: "Queria comê-lo porque o desejava e ele não quis comer-me a mim, então ofereci-lhe um refrigerante. Quem come e quem é comido, e porquê?". Chris e eu falámos de Goya e do quadro do pintor que representa Saturno a devorar um dos seus filhos. Ela discute assuntos desta natureza, ainda que astros como Elton John lhe chamem "uma artista incrível que se está a transformar numa estrela mundial". Magnifique! Chris olha para o tweet que postou no início da nossa entrevista. "Vamos ver a que ponto se importam comigo." Verifica e depois diz: "Okay, importam-se" – foram reencaminhados 458 tweets e 1557 pessoas tinham clicado no "like". (Algum tempo depois, já iam ambos nos milhares.) Abraçamo-nos, beijamo-nos na face e ela diz-me que tem de ir a uma consulta no dermatologista. "Porque", declara com um grande sorriso, numa referência a What’s-Her-Face, "eu continuo a tentar tratar do meu rosto, o melhor que posso."

Veja aqui o vídeo de Girlfriend, o primeiro single do novo disco:

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Girlfriend, Christine and the Queens
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