O dom da palavra

“Aprendemos que não estamos sozinhos”

Do alto dos seus 84 anos, Lamberto Maffei é um pensador contemporâneo com uma sabedoria notável sobre o admirável mundo novo. Em três ensaios que deveriam ser lidos por todos, este médico e cientista italiano reflete sobre conceitos como pensamento, linguagem, solidão, consumismo ou globalização e sempre, mas sempre, sobre humanidade.
Por Rita Silva Avelar, 22.05.2020

Não haverá muitos neurocientistas com o dom da palavra. E por dom da palavra leia-se a capacidade para falar sobre as infímas e mutantes complexidades do cérebro, processos de linguagem ou sobre a derradeira viragem para o digital, com uma agilidade verbal adaptada a leigos na matéria. E mais: com subtis traços de ironia e provocação que não incomodam mas sobressaltam, quase como se quisesse, via escrita, acordar o leitor da anestesia geral a que a sociedade nos poderá ter submetido.

Na verdade, quem lesse o seu último ensaio em pleno periodo de confinamento - Elogio da Rebeldia, publicado em Portugal pela Edições 70 no início de abril – certamente pensaria que Lamberto Maffei (1936, Grosseto, Itália) era um novo profeta. É que aquilo que este médico e cientista estuda e analisa, que é o mesmo que também o preocupa, pode ter sido agravado pelos efeitos colaterais provocados pelo confinamento, numa situação sem precedentes. Nas suas narrativas em forma de ensaios – além do mais recente, também é autor de Elogio da Lentidão (2018) e de Elogio da Palavra (2019) - a Arte e a Cultura andam lado a lado com a linguagem e o pensamento, termos por si abordados de forma indissociável.

Nas palavras de Maffei, "regressar à palavra na sua dimensão salvífica para a humanidade" tornou-se fundamental para nos salvar , de facto, a todos. Lamberto Maffei dirigiu o Instituto de Neurociência de CNR e o Laboratório de Neurobiologia da Escola Normal Superior de Pisa, instituição onde foi professor emérito de Neurobiologia. Foi presidente da Accademia Nazionale dei Lincei e já recebeu inúmeros prémios e distinções na área da Medicina. Gentil e espirituoso, qualidades evidentes na sua escrita, essas manifestam-se numa última que palavra que me deixa, no fim da nossa conversa digital.

"Um abraço desde a torre inclinada" escreve, referindo-se a Pisa, cidade onde nasceu e onde vive, atualmente, imerso nos seus pensamentos sobre a complexidade de ser-se humano. Como injeções de adrenalina, as suas palavras urgem-nos a pensar e, acima de todas as coisas, a conversar sobre os temas que tão sabiamente aborda.

Durante meses fechados em casa, recorremos sobretudo a meios digitais para poder conversar. Esta entrevista é, aliás, endereçada através desses meios, e realizada numa linguagem universal… Tem refletido sobre isso?

O ser humano é [naturalmente] social. Estar confinado em poucas divisões é como estar numa espécie de prisão sozinho ou [mesmo que esteja] na companhia de algumas pessoas, a conversa é obviamente pobre e não necessariamente amigável no meio de tantas dificuldades práticas. Perde-se a liberdade dos movimentos, de andar e, em certa medida, até de pensar. No entanto, aprendemos algo, o quanto os outros são necessários para a nossa vida, que não estamos sozinhos e que a língua falada é de longe mais rica do que o ato de escrever mensagens num computador.

Vê a palavra como um bálsamo curativo, como discute no ensaio O Elogio da Palavra? Poderá ser este o momento de regressar ao diálogo em família?

A linguagem das palavras, a linguagem falada, é a principal diferença entre os seres humanos e os outros primatas. O cérebro desenvolveu novas áreas cerebrais, mais precisamente nos centros de linguagem, que se situam no hemisfério esquerdo do cérebro (nas pessoas que são destras). A fala humana é uma cadeia de acontecimentos ligados por uma lógica rigorosa e precisa de tempo para ser processada. É necessário juntar-se muitas palavras para que elas se tornem numa mensagem e, portanto, isso dá ao ser humano tempo para pensar antes de tomar uma decisão. Com o advento da revolução digital, a conversa tem sido um pouco negligenciada a favor da mensagem de texto via smartphone, particularmente nas famílias em que não só as crianças estão ocupadas com o seu smartphone, mas também os seus pais, e a conversa em família é o silêncio. Muitos professores das escolas primárias dizem que a sua principal tarefa é ensinar os seus alunos a falar…

Numa das passagem deste livro refere precisamente que a escola é a via possível para a fomentação do pensamento nas crianças e jovens. Quais os possíveis efeitos dos novos gadgets digitais, nas mesmas?

É bastante difícil prever o que vai acontecer às crianças expostas durante dias em frente à televisão. Como médico, penso que podem ocorrer síndromes psicopatológicas. Quanto aos danos linguísticos, estes dependem do nível sócio-cultural da família. Em geral, imagino que a língua possa ser menos rica, mas irá tudo depender dos programas escolares.

Parece ter uma relação agridoce com a tecnologia. Como viveu ambas as eras? O que se ganhou e o que se perdeu de fundamental?

A ciência não pode ser refreada ou recusada. A [viragem para o digital] é sem dúvida um avanço no conhecimento e no progresso, mas como qualquer grande mudança ou revolução, como a digital, pode ser acompanhada de efeitos secundários indesejados. O efeito positivo é a eliminação das fronteiras dos países também para as relações comerciais e financeiras. O efeito negativo, na minha opinião, é o desaparecimento da história ao desenhar com o passado uma ranhura divisória na vida de todos e a perda de valores. Nos países com governos democráticos, o poder de comunicação instrumental está nas mãos de algumas pessoas que podem influenciar o seu pensamento de tal forma que somos livres de fazer e dizer o que quisermos, mas, em certa medida, todos temos limitações no nosso pensamento livre. Nos países com um governo ditatorial, é-se livre para pensar, mas é-se obrigado a manter o silêncio.

Antes da chegada de uma pandemia a linguagem já caminhava para um local obscuro. Voltaremos a dar uso à palavra, ou perderemos anos de evolução cingindo-nos quase exclusivamente ao mundo digital?

Depende do que considerarmos [dentro da área da] evolução cognitiva. Certamente, a língua está em perigo; quando uma determinada língua já não é aceite na internet está destinada a uma utilização limitada e, a longo prazo, a desaparecer. Em relação ao pensamento a resposta é mais difícil.

Uma das ideias que reflecte em Elogio da Rebeldia é a solidão. Estamos cada vez mais sós, ou sempre estivemos sós? Será esse conceito algo ambíguo, uma vez que muitos dizem que a tecnologia e a globalização levam a que se sintam "virtualmente rodeados"?

A globalização apoiada pela tecnologia da comunicação eliminou as fronteiras dos países e as fronteiras das empresas financeiras, mas, resumindo, a globalização gerou solidão nas pessoas, especialmente nos jovens e nos mais velhos, apenas como consequência da revolução digital. Os jovens são conhecidos por passarem muito tempo nos seus computadores ou smartphones para comunicar, sozinhos nos seus quartos, com outras pessoas em todo o mundo que não conhecem, e a quem não podem apertar a mão. O fenómeno Hikikomori [grave isolamento social voluntário] agora numeroso em muitos países, mostra os casos extremos de uma investigação ativa sobre separação do mundo e traz à luz sinais de rebelião em direção a uma vida sem fins e valores traduzidos.

E as pessoas mais velhas?

Mais triste ainda é o caso da solidão das pessoas idosas que não conseguem alcançar as novas tecnologias da comunicação e muitas vezes nem sequer compreendem o significado das novas palavras técnicas; são deixadas para trás na vida social.

Será que há alguma esperança, agora, em resgatarmos aquilo a que chama de "o espanto perante o novo, o espanto do encontro"?

Certamente haverá um alívio do confinamento, mas creio que dentro de pouco tempo as pessoas voltarão ao seu comportamento habitual.  As desigualdades aumentarão à medida que a pobreza aumentar e com estas dificuldades surgirá também uma desilusão, não se podendo excluir a possibilidade de alguma rebelião contra os Governos. Penso que as pessoas ficarão menos sossegadas e pacíficas. Este "senhor vírus" tem sido democrático no ataque à população, mas antidemocrático nos efeitos dos seus ataques.

No ensaio Elogio da Lentidão abordou o tema do consumismo e da ausência de valores. Também esqueceremos essa lição? Qual a urgência em abrandar?

O consumismo é a máquina do neoliberalismo segundo a qual se deve comprar aquilo de que não se precisa e provavelmente nem sequer se deseja. Dizem-nos que devemos consumir porque isso nos trará benefícios, mas sabemos que isso é apenas positivo para as pessoas muito ricas que possuem os tais 99% da riqueza. Depois da catástrofe deste vírus, as desigualdades entre ricos e pobres aumentarão e tudo será como sempre ou pior.

Será que o facto de vivermos com líderes políticos "tão desastrosos" é fruto de agirmos como ovelhas atrás do rebanho, porque – e recorrendo às suas palavras - não passamos muitas vezes as tais mensagens visuais e as imagens verbais pelo crivo da razão?

Os seres humanos preferem a segurança à liberdade, e a rebelião ou qualquer mudança são consideradas fonte de insegurança.

Estar no rebanho olhando para baixo em vez de olhar para cima dá segurança, e a propaganda assegura que esse caminho é o melhor dos melhores. Por exemplo, os ricos dominam os meios de comunicação social e influenciam o seu pensamento e elegem os líderes políticos desastrosos de que necessitam para manter a situação.

Como neurocientista, qual é a maior lição que aprendeu com as suas reflexões e conhecimentos?

O cérebro do homem nunca deixa de surpreender. Aprendi que um robôt, um discípulo do cérebro humano, nunca alcançará a grandeza do seu mestre.

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