Culturas

A misteriosa mulher que cantava com Leonard Cohen

"A match made in heaven!" Foi assim que Leonard Cohen descreveu o seu encontro com Perla Batalla, a voz que hoje o leva aos quarto cantos do mundo. Em entrevista à Máxima, Perla fala sobre o desaparecido (e amado) cantor e a voz de clássicos como Dance Me to the End of Love ou So Long Marianne.
Por Rita Silva Avelar, 11.11.2019

Com origem mexicana e argentina, nascida numa família de artistas, Perla Batalla cruzou-se pela primeira com Leonard Cohen com apenas 20 anos, nos anos oitenta, durante uma audição. Além de terem cruzado universos profissionais, entre os dois nasceu uma amizade que duraria 28 anos. Depois de o acompanhar em tour durante anos, em 1993 lançou-se a solo com um disco em nome próprio. A admiração pelo homem com quem trabalhou anos a fio e privou, na sua casa em Los Angeles, era mútua. Com o passar dos anos, foi essa mesma admiração que levou Perla a produzir um disco de tributo em 2007: Bird on the Wire: The Songs of Leonard Cohen, um processo ao qual o próprio assistiu e que abençoou. Mais tarde, surge a ideia de fazer um tour para levar os temas de Cohen, cantados por si, ao mundo. "Neste espectáculo, há momentos em que peço que minha plateia cante comigo", escreve Batalla, no seu próprio site. "A união de vozes tem o poder de tocar o espírito de Leonard e sua devoção ao longo da vida à arte e aos mistérios do coração humano."

A 4 de dezembro, o espectáculo House of Cohen chega ao Casino do Estoril. Em entrevista à Máxima, Perla fala sobre a sua infância, o poder da música cantada com alma e, claro, sobre Leonard Cohen, seu mentor e amigo.


A sua mãe tinha uma loja de discos, e o seu pai era radialista e cantor. Como foi crescer assim?

Eu penso que não escolhi cantar, a música escolheu-me a mim. Venho de uma longa linhagem de músicos do lado do meu pai, no México, e de pessoas ligadas ao teatro, do lado da família da minha mãe, na Argentina. O meu pai era cantor e o meu tio, Cipriano Silva, era um trompetista com os famosos Mariachi Vargas de Tecalitlán [considerado o principal grupo de mariachis no México]. Quando já era uma criança mais crescida, lembro-me de ver os meus tios e o meu pai cantarem temas tradicionais a seguir ao jantar e chorar sem vergonha à medida que cantavam. Na altura, ocorreu-me que a música parecia ter esse poder único.

 

Em que momento descobriu que a sua voz tinha também esse poder autêntico?

O meu desejo de cantar chegou de forma natural. Quando a minha família decidiu fazer uma viagem de campismo, lembro-me de estar sentada, entre as sequóias, cantando para elas. Inventei uma música, e soou estranho mas foi uma boa sensação. As árvores são uma audiência muito atenta. Nessa altura estava nos meus anos adolescentes, tinha lições de ópera privadas e cantava em clubes à noite. Nunca quis fazer outra coisa.

 

Cresceu na zona costeira da Califórnia, mas as suas raízes são mexicanas e argentinas. Como é que essa herança se reflecte na sua sonoridade?

Eu cresci em Venice, Califórnia. A nossa família tinha uma loja de discos chamada Discoteca Batalla, que era um hub importante para a cultura latina na zona este de Los Angeles. Eu sinto constantemente o impacto oscilante entre a influência afro-mexicana do meu pai, e a influência europeia, argentina e judia da minha mãe. É o meu mix único como mestiça – não o trocaria por nada no mundo. De ambos os lados, a teatralidade está nos meus ossos, nas minhas raízes. Eu não uso apenas a minha voz para cantar uma música. Para me envolver completamente, preciso de usar todo o meu corpo. E tem de ser sincero. Tem de vir de dentro de mim.

 

Tem um lado muito humano, em si. A humanidade é o elemento que falta aos artistas de hoje?

Se nós, como artistas, não podemos crescer num lugar com humanidade, falar e defender aquilo que é certo e humano, quem de sobra o fará? Políticos? Corporações?

 

O que é que define um bom performer? O que é nunca pode faltar em palco?

O Leonard [Cohen] teve um impacto gigante naquilo que eu faço e como eu atuo. Se eu abordo uma canção com honestidade incondicional, o significado não é estático - pode diminuir e fluir à medida que relaciono as palavras com a minha própria vida e experiências. Isso para mim é primordial; estar lá no momento, quando estou em palco.

 

Que episódio marcou a sua carreira?

O dia em que conheci o Leonard Cohen.

 

Como é que isso aconteceu? Pode contar a história?

A primeira vez que os nosso olhar se cruzou foi quando fui fazer uma audição para ele num estúdio de ensaio em Los Angeles mesmo antes da primeira grande tour em 1988. Estávamos a conversar um com o outro e ele usava preto da cabeça aos pés. Eu estava vestida toda em branco. Ele olhou para mim, sorriu, e disse: "querida, este é um encontro arranjado pelos Deuses! [it’s a match made in heaven]." Eu concordo.

 

Acabou por ter o privilégio de o conhecer pessoalmente. Qual era o segredo da sua melancolia doce, que conquistou o mundo?

Na verdade, ele não tinha nada a ver com a sua reputação soturna. Ele era inacreditavelmente divertido, fez-me rir no primeiro momento em que nos conhecemos e continuou a fazê-lo ao longo dos 28 anos seguintes.

 

Acima de todas as coisas, o que é que Leonard Cohen lhe ensinou?

Ele não foi apenas um mentor e um amigo, foi também uma grande inspiração. Ser uma jovem como eu era, quando trabalhei com o Leonard – estava na casa dos 20 – observei-o sabendo que estava perante um mestre e aprendi o máximo que pude. Ele era verdadeiramente genuíno, sempre garantiu o conforto da sua audiência – algo muito raro num performer. Começámos a trabalhar juntos nos anos oitenta e nunca perdemos o contacto mesmo quando comecei a fazer tours sozinha. Nas primeiras tours do Leonard, ele contava histórias antes de cada canção – histórias muito honestas e engraçadas sobre a sua vida. Todas as noites contava histórias semelhantes, mas pareciam sempre novas – como se ele nunca as tivesse contado antes. Acho que era por ser uma pessoa honesta, por ter a habilidade de aparecer e ser sempre autêntico, ser autenticamente o Leonard Cohen.

 

Era um verdadeiro storyteller. Como artista, também se vê dessa forma?

Eu inspiro-me em histórias. Quando mantenho a minha audição apurada oiço histórias por todo o lado. Às vezes pode existir uma grande história escondida atrás de uma pintura, uma fotografia a preto e branco, ou uma sinfonia. Eu agradeço todos os dias por ter a liberdade de fazer escolhas e continuar a minha jornada como artista, ao contar histórias da maneira mais verdadeira possível.


Está em tour com The House of Cohen. Como surge esta ideia?

Há muitos anos que canto os temas do Leonard. Eu costumava visitá-lo na sua modesta casa em Los Angeles e, um dia, quando nos sentámos a tomar café na sua cozinha, ele mencionou que estava bem alerta para as mudanças na indústria da música e como ele poderia deixar de ser relevante em breve. Decidi gravar-lhe um tributo apenas para mostrar o meu amor e apreço por ele e pelo seu profundo trajecto profissional. Foi um projeto de amor para mim. Fiquei muito feliz quando ele chegou ao meu estúdio para me dar a sua bênção e tirar fotografias. Pouco tempo após a gravação, comecei a tour com o lançamento do disco (Bird on the Wire) e achei que era a oportunidade perfeita para contar as minhas histórias de amizade e viagens com o Leo. E como passamos bastante tempo naquela pequena mesa de pinho na cozinha dele, decidi chamar a esses espectáculos de Perla Batalla na Casa de Cohen (Perla Batalla in the House of Cohen).

 

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