30 anos Máxima

100 homens a usar sapatos de salto alto pelos direitos das mulheres

Nos 30 anos da Máxima, relembramos o desafio à altura de uma causa difícil, ainda longe de estar ganha. Por ela, 100 homens aceitaram calçar sapatos de salto alto e dar um passo pelos direitos das mulheres. Venceram o preconceito e, num gesto de coragem, colocaram-se no lugar delas por instantes. Relembramos o projeto que faz hoje 5 anos.
Por Isabel Stilwell, 08.03.2019
Conseguir que 100 homens vencessem o preconceito e subissem a sapatos de salto para manifestar a sua solidariedade com as mulheres parecia uma tarefa impossível. Ou quase. Prevíamos discursos politicamente corretos e desculpas esfarrapadas, mas pouco seriam aqueles que se atreviam a arriscar, a descalçar os sapatos de "homem" e ousar uns stilettos pretos, encarnados ou dourados, no local de trabalho ou num estúdio fotográfico. Afinal, que pensaria o chefe, o eleitor, o público e a mãe (estávamos certos de que nenhum deixaria de temer a opinião da mãe).

Mas a ideia era tão boa, estávamos tão, tão seguras do significado do gesto, e do impacto final desta campanha que a Máxima iria construir em defesa do direito das mulheres, ainda por cima em associação com a Laço, promovendo a investigação contra o cancro, que decidimos que íamos dar tudo por tudo. Mês a mês, durante um ano inteirinho.

E a ideia era boa porque colocamo-nos no lugar do outro, ou usando a expressão inglesa "calçando os sapatos do outro", equivale a abandonarmos por momentos o nosso posto, pensando e sentindo como o outro, aceitando ver a realidade pelos seus olhos. Exercitamos nem mais nem menos do que a empatia, essa supercola das relações humanas.

Arriscámos, portanto, não podíamos fazer outra coisa. E na edição de março de 2014 publicámos as fotografias dos nossos dez primeiros heróis, os primeiros a desbravar caminho. Gente corajosa, que deu direito a sessões fotográficas cheias de queixumes divertidos, porque os saltos eram altos demais, ou se sentiam as irmãs da Cinderela a enfiar um sapato que não lhes cabia, de risos e gargalhadas, porque sério não se confunde com sisudo. Momentos também de conversa grave, já que cada um deles quis tornar esta experiência uma declaração de guerra a questões tão díspares mas tão chocantes como a violência doméstica, as desigualdades no mercado de trabalho, o peso da contraceção colocado apenas sobre os ombros das mulheres, ou o escândalo da mutilação genital feminina, problemas que as mulheres portuguesas e as de todo o mundo ainda sofrem.

Com as fotografias extraordinárias destes pioneiros, verdadeiras obras de arte, e o objetivo da campanha mais claro, tornou-se fácil sensibilizar os noventa seguintes, que foram aderindo com progressivo entusiasmo. Deputados, médicos, cientistas, atores, músicos, desportistas, chefes de cozinha, jornalistas, escritores e tantos outros estiveram à altura do desafio, içando a sua bandeira em defesa dos direitos das mulheres ainda espezinhados. Todos estiveram à altura do desafio.

Os sapatos, criados por Luís Onofre, foram o ponto em comum de todos estes encontros. Alargados para um jogador de râguebi ou para uma equipa de basquetebol, encolhidos para pés mais pequenos, mantiveram a forma e a beleza, símbolos deste nosso esforço para acordar o País para uma realidade que tantas vezes passa desapercebida.

Por Isabel Stiwell

100 Homens sem Preconceitos – Um Passo pela Igualdade
Uma ideia original de Sofia Lucas | com Isabel Stilwell.
Fotografia Branislav Šimoncík com direção criativa de Jan Králícek.

O livro 100 Homens sem Preconceitos – Um Passo pela Igualdade acompanhou uma exposição de fotografia exibida no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em março de 2015. Contou com a direção criativa de José Santana com Sandra Costa.
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2 Comentários
entaladoatéaosossos Muito bem, excelente campanha, o curioso é que ficam todos muito bem, muito elegantes. Alguns já estão habituados, outros não..vamos lá a ver se não ficam com este gosto....
10.03.2019
Anónimo Ficam-lhe a matar. Alguns até gostariam de os usar sempre. lol
08.03.2019
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