Culturas

O mundo de Sophia (e mais três livros a não perder)

No mês em que se assinala o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, a 6 de novembro de 1919, conversámos com a jornalista Isabel Nery sobre a biografia que consagrou à vida e à obra da poeta.
Por Rita Lúcio Martins, 02.12.2019

Diz que esta biografia é quase um atrevimento. Porquê?

Eduardo Lourenço, num dos cerca de cinquenta testemunhos que eu recolhi para esta biografia, disse-me que as pessoas não se atreviam a explorar o mundo de Sophia por causa do seu estatuto social, querendo com isso oferecer uma explicação para o facto de não haver nenhuma biografia de uma autora tão lida e tão admirada. A ideia de que é um "atrevimento" escrever sobre algo é sempre atrativa para uma jornalista. Mas o mais importante para tomar a decisão de fazer a biografia da poeta teve a ver com a constatação de que fazia falta. Não havia nenhuma e isso parecia quase absurdo.

Há uma palavra importante que a determinada altura usa para descrever a herança literária de Sofia: ética. Porquê?

Essa é, para mim, uma das principais razões para Sophia continuar a ser tão lida, mais de 70 anos depois de ter publicado o primeiro livro, Poesia. Se pensarmos o que Portugal e o mundo mudaram neste tempo, é um feito extraordinário. Eu julgo que o sentido ético que deu à sua obra- tanto com poemas de intervenção como com histórias infantis- contribuiu para a transformar numa referência. Alguém que devemos ler para nos ajudar a decidir o rumo certo.

Este livro é como uma peregrinação pelo universo da escritora, para quem os lugares físicos eram muito importantes. Houve alguma descoberta surpreendente?

Para biografar Sophia, fiz reportagem na Granja, no Porto, no bairro da Graça, em Lisboa, no Algarve, na Grécia e na pequena ilha de Föhr, no Mar do Norte. Todos os lugares foram fundamentais porque uma biografia é uma espécie de puzzle que se vai montando. Primeiro com uma moldura geral que nos dá um enquadramento e depois na busca de peças muito específicas. Por vezes parecem até ser insignificantes, mas sem elas o puzzle não fica completo. Nesse sentido, a reportagem em Föhr foi a mais marcante. Porque embora Sophia nunca tenha ido à ilha de onde o bisavô Andresen partiu num navio para atracar em Portugal, conhecer esse lugar foi muito importante. Sendo menos óbvio, tornou-se, ainda assim, essencial para compreender a poeta e a sua forma de ver o mundo. 

Diz que, provavelmente, Sophia não autorizaria esta biografia. Como descreveria a mulher? 

Sophia era uma mulher atenta e distraída, ao mesmo tempo. Atenta ao que lhe interessava e que considerava ser verdadeiramente importante- a beleza, as palavras, o mundo à sua volta- e desatenta das coisas quotidianas. Atrasava-se, distraía-se. Alguns viam nisso uma espécie de ausência do mundo. Mas a verdade é que Sophia foi uma poeta do real que falava do que tinha perante si. Fossem as atrocidades da ditadura de Salazar, contra as quais escreveu e se manifestou, ou a beleza pura das estátuas gregas que a fizeram visitar o país [a Grécia], várias vezes ao longo da vida.

Também não perder:

O Custo da Vida, Deborah Levy (Relógio D’Água)

"A vida vai por água abaixo. Procuramos controlar-nos e manter-nos firmes. E depois apercebemo-nos de que não nos queremos manter firmes." Depois de Coisas Que Não Quero Saber, este é o segundo volume de uma autobiografia escrita em três atos. Nele, a autora – que o The New York Times qualifica como "indelével" e "de um génio elíptico" – explora áreas que vão da filosofia às questões de género, sempre em nome próprio.

Trieste, de Daša Drndic (Sextante Editora)

Atrás de cada nome há uma história: é o capítulo que interrompe a narrativa deste livro para apresentar os nomes dos cerca de nove mil judeus deportados ou mortos, em Itália, entre 1943 e 1945. Exercício de memória com contornos de ficção, o livro da prestigiada autora croata conta a história de uma mulher que, 62 anos depois, procura o filho que lhe foi roubado pelas autoridades nazis.

40 anos do SNS, de Maria Elisa Domingues (Saída de Emergência)

Nos 40 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a jornalista Maria Elisa Domingues escreveu o livro onde se conta- com rigor e pormenor- a história dessa grande instituição. Escreve-se, naturalmente, sobre António Arnault, que viabilizou esta conquista, não se eesquecendo os outros percursores, nem as conquistas que fazem do SNS uma referência da democracia portuguesa.

Tags: sophia de mello breyner andresen isabel nery escritora autoras livros jornalista biografia culturas literatura
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