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Vanessa Paradis não tem medo de desafios

Em Un Couteau Dans le Coeur interpreta uma produtora de filmes pornográficos gay perdidamente apaixonada por uma mulher. É uma forma de se defender e de reivindicar a sua liberdade criativa. Musa da Chanel, assiste a um renascimento. E nós aplaudimos.
Por Richard Gianorio, 05.09.2018

Estrela aos 14 anos (com o sucesso da canção Joe Le Taxi), figura pop, dona da sua própria vida, campeã de sondagens e definitivamente adorada, apesar de ter sido escarnecida no passado. O tempo fez sentir os seus efeitos, embora a adolescência se delongue no rosto de Vanessa Paradis (Saint-Maur-des-Fossés, 1972), cuja beleza eternamente andrógina inspira fotógrafos e criadores como Karl Lagerfeld, que captou todo o brilho dos seus 45 anos para esta entrevista. Vanessa faz parte da nossa paisagem familiar. Embora nem sempre se preste a confissões íntimas (nem sequer ousamos mencionar o nome de Johnny Depp, na sua presença), ela conseguiu seguir em frente, com serenidade, provavelmente desde que refez a sua vida com Samuel Benchetrit, com quem vai fazer um segundo filme após Chien. Mademoiselle Paradis não faz alarido da sua vida privada, mas a sua carreira é admirável, com álbuns de uma qualidade indelével e ainda uma presença regular no Cinema. Ninguém esqueceu a sua estreia em Noce Blanche, quando tinha 16 anos: ela foi arrebatadora. Um César para a Melhor Esperança Feminina transformou este papel numa obra-prima. Seguiu-se uma vintena de filmes ao longo de uma carreira inegável, regularmente interrompida pela sua outra atividade – estrela pop –, mas não falta alma nem garra à sua filmografia fragmentada.

Isto traz-nos até aos dias de hoje com um papel arriscado, o de Anne Parèze, produtora de filmes pornográficos gay na Paris underground da década de 1970, em Un Couteau dans le Coeur, de Yann Gonzalez. Ela está loucamente apaixonada pela sua editora de imagem, Loïs, que procura conquistar a todo o custo, mas toda a ação gira em torno de um misterioso serial killer que vai matando, uns atrás dos outros, todos os atores. Assim começa outro filme, um thriller queernos confins do surrealismo, inclassificável, trash e barroco, desconcertante, mas com o mérito de assumir plenamente a sua liberdade criativa e bizarria. Vanessa Paradis, dura e loura, impecável, domina o filme e nada como um peixe nas suas águas conturbadas. Uma atriz a sério, incontestável. O seu realizador diz que ela tem "a cinegenia das estrelas do cinema mudo".

No mais recente Festival de Cannes, o filme Un Couteau dans le Coeur foi apresentado e despertou tantos admiradores como detratores…

Eu não leio as críticas, nem as boas nem as más. Sei apenas uma coisa: sou louca pelo filme, pelo realizador, pelos meus colegas, pela aventura que vivemos juntos. Em Cannes, tudo é aumentado, incluindo a violência. Não gosto de linchamentos, nem de zombarias: sou a favor da benevolência. Espanta-me que os críticos transmitam uma agressividade desproporcional através das suas canetas ou teclados, atribuindo pouca importância ao trabalho e ao investimento por detrás de um filme. Não é justo, evidentemente, mas imagino que seja a regra do jogo no Festival de Cannes, onde os filmes têm demasiada exposição…

Mas tem consciência de que se trata de um filme muito especial…

Claro. Não é um filme clássico, muito menos uma proposta de cinema. Temos talentos excecionais em França, mas parece-me que somos, por vezes, um pouco receosos quanto a encorajar ou acolher novos talentos, novos olhares, propostas alternativas. É como se só aplaudíssemos a originalidade quando vem de fora. É claro que não podemos generalizar – não gosto de fazê-lo –, mas a verdade é que me espanta…

A Vanessa hesitou em participar neste filme?

Não, de todo! Rendi-me imediatamente ao presente que Yann me deu. Apaixonei-me logo pelo filme. Aprecio muitos géneros cinematográficos. Medo de destruir uma imagem? Não sei o que isso significa. O Cinema serve exatamente para isso: para interpretar personagens que não somos nós. A própria ideia de não sermos nós próprios interessa muitíssimo. É antecipar ou imaginar o que os outros podem pensar sobre nós. Os detratores do filme ficaram-se contra o seu lado escandaloso. Os outros veem essencialmente uma história de amor, um filme pudico, no qual, na verdade, as coisas são mais sugeridas do que mostradas. Os atores são excecionais, nomeadamente Nicolas Maury e Kate Moran, mas até as personagens secundárias são filmadas com consideração.

Anne, a sua personagem, não é derradeiramente uma heroína romântica?

Ela vai até ao fundo. Sabe, ela existiu mesmo, embora o filme não seja completamente biográfico. Era uma produtora muito exigente, que viveu dez anos com uma editora de imagem. Este é o pronto de partida. Tudo o resto é ficção. É a história de uma mulher forte, produtora, num meio muito difícil, o da pornografia, que tenta salvar a sua relação de forma violenta e desesperada.

A Vanessa parece muito bem integrada no adorado underground de Yann Gonzalez.

O que é underground? O que é mainstream? É lamentável que se atribuam etiquetas e, sobretudo, fronteiras. O que me interessa são os reencontros, a diversidade. É isso que me alimenta e me faz crescer.

Conhece pessoas marginais, como no filme?

Na minha profissão, há imensas! O meu primeiro álbum foi assinado por Étienne Roda-Gil, que era um marginal sagrado, apesar de ter escrito músicas para Claude François [um cantor popular]. Ele era um autêntico revolucionário. E [Serge] Gainsbourg não era muito mainstream, se virmos bem as coisas. Vivemos numa época em que os tabus estão a reaparecer. Estamos a dar passos para trás, o que é deplorável…

Recordemos as etapas da sua carreira como atriz. Começou com Noce Blanche

O que me resta é a descoberta do prazer da representação, mesmo que as condições humanas sejam difíceis. Mas é um bom filme. O segundo foi Élisa,um filme muito importante. O meu primeiro bem-sucedido, uma maravilha. Em matéria de filmes que contam, também fiz La Fille Sur le Pont. Seguiu-se um longo período sem cinema. Tinha filhos e regressei à música.

Como entra na personagem?

O cinema e a música constituem duas abordagens muito diferentes. Numa atuação somos nós próprios e escolhemos como interpretar determinada canção. Num local de filmagens quem manda é o realizador: fazemos o que ele pede. Adoro ser dirigida, sou uma atriz dócil. Isso não significa que seja uma marioneta, mas adoro a ideia de uma interpretação revelar qualquer coisa sobre mim própria. Se assim não fosse, interpretaríamos sempre da mesma forma…

Uma vez que vive parte do tempo em Los Angeles, já tentou a sua sorte no cinema americano?

Não tenho lá agente. Não tenho vontade de iniciar um calvário. Ou de fazer lá exatamente o que faço aqui. Em França, entre o cinema e a música sinto-me realizada. A única vez que participei num filme americano fui dirigida por John Turturro (Quase Gigolo), mas ele queria mesmo que eu trabalhasse com ele. Não passei num "casting de francesas"…

O que é isso: "Casting de francesas?"

Quer dizer que não fui escolhida [ri-se]. Fiz muito pouco, o que não foi simpático nem verdadeiramente humilhante. Desfilámos umas atrás das outras e ninguém nos diz a razão pela qual somos escolhidas. Na verdade, fiz tão pouco que chega a ter graça. Estaria pronta a fazer tudo de novo se me motivasse, mas sinceramente isso não me interessa.

A sua filha, Lily-Rose Depp, faz cinema com sucesso…

Isso inquietou-me antes de ela começar, mas agora já não. Ela gere isso muito bem, com inteligência, delicadeza e escolhe os seus projetos com requinte. Ela é bonita, talentosa e sabe integrar-se. Sinto-me simultaneamente orgulhosa e segura. Ela foi feita para isto. Além do mais, fico muito contente por vê-la fazer o que eu queria fazer.

A Vanessa é cinéfila?

Tendo passado bastante tempo com cinéfilos, não posso qualificar-me como tal. No entanto, é uma sorte descobrir obras-primas nunca vistas, como por exemplo o recente Madame de…, de Max Ophüls [Desejos proibidos, em Portugal]. Uma maravilha.

A Vanessa vai filmar uma segunda vez com Samuel Benchetrit, o seu companheiro. Acha que se tornou a sua musa?

A nossa colaboração começou um pouco tarde para isso [ri-se]. Mas sim, teria adorado ser o Antoine Doinel [personagem de ficção criada por François Truffaut e recorrente nos seus filmes] de alguém…

 

Exclusivo Madame Figaro | Realização Leïla Smara | Tradução Erica Cunha e Alves
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