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A menstruação não vem só nas férias grandes

Desmistificar as mudanças que acontecem na puberdade e perceber quais os principais constrangimentos das adolescentes é essencial para as deixar confortáveis e informadas.
Por Máxima, 15.04.2019

Com a puberdade, os jovens experienciam alterações significativas no corpo. Ao mesmo tempo, tendem a lidar com mudanças emocionais e hormonais. É o natural desenvolvimento do corpo humano, mas que nem sempre é gerido de forma assim tão natural.

Tendencialmente, as alterações são mais sentidas pelas raparigas, que têm de lidar com a introdução de conceitos como "menstruação", "ciclo menstrual" ou "reprodução". Estes assuntos, por mais simples que sejam, tornam-se difíceis de abordar, quer em contexto de sala de aula, quer no social.

No mês passado, a curta Período: o estigma da menstruação arrecadou o Óscar de Melhor Curta-Metragem Documental. Um filme sobre os constrangimentos associados à menstruação numa aldeia perto de Nova Deli, na Índia.

Um programa educacional insuficiente

A arma principal para a desmistificação em torno da menstruação feminina passa, justamente, pela educação e pela escola. O processo não deve, contudo, ser descurado pelos pais, uma vez que o programa não aprofunda a temática nem contempla especificamente todas as necessidades de esclarecimento para as raparigas. Ana Maria Caldeira, docente de Ciências Naturais há 31 anos, resume que as mudanças associadas à puberdade são contempladas no 6º ano, a propósito da distinção entre caracteres sexuais primários e secundários. Depois, no 9º ano, parte-se do princípio que tais mudanças são já conhecimento adquirido, pelo que apenas se faz uma breve revisão.

A docente destaca que, no 6º ano, "existe algum receio por parte das raparigas relativamente à menstruação", por associarem a transformação "à existência de dores, a algo «chato» que as limita em algumas situações". Em relação aos vários produtos de higiene utilizáveis, o programa não contempla o tema, apesar de, por vezes, as alunas colocarem questões.

Já no fim do terceiro ciclo, a abordagem sobre esta temática é feita de forma mais pragmática, "com a explicação do controlo hormonal e da coordenação entre os ciclos ovárico e uterino", sintetiza.

Abertura e debate, na escola e em casa

Quando questionada sobre a evolução do programa educativo acerca das temáticas relacionadas com a reprodução e a sexualidade, Ana Maria Caldeira é perentória ao afirmar: "No 6º ano, não se verifica alteração no tipo de abordagem."

Significa isto que, no 9º ano, há uma evolução do programa? Não no sentido que esperaríamos: "De acordo com as Aprendizagens Essenciais definidas pelo Ministério da Educação no início do presente ano letivo, as doenças sexualmente transmissíveis e os métodos contracetivos são abordados com menor enfâse." Ora, numa altura em que os adolescentes começam a sua vida sexual cada vez mais cedo e as raparigas são, cada vez mais cedo, menstruadas, é necessário não deixar cair estas temáticas no programa.

Aproveitar a área de Cidadania e Desenvolvimento, por exemplo, para aprofundar assuntos como a menstruação, os ciclos reprodutivos e os métodos contracetivos, pode ser uma estratégia frutífera para alunas e alunos informados e conscientes. Desengane-se quem acha que só as raparigas devem abordar a temática. Consciencializar rapazes ajuda a que se diminua o estigma e que todos abordem o tema da menstruação com mais naturalidade, dentro e fora das escolas.

Depois, é necessário perceber se as adolescentes se sentem confortáveis e seguras, e se têm todos os recursos necessários durante o período menstrual. Por exemplo: já se questionou sobre as condições das casas de banho das escolas públicas portuguesas?

Problemas comuns, soluções comuns

A forma como cada rapariga lida com as transformações da puberdade pode variar nas mudanças emocionais, mas as alterações físicas e os problemas com que se deparam são comuns a todas.

Uma correta higiene é crucial, independentemente do género e da idade, mas torna-se especialmente relevante nesta altura do mês. No estudo "Escolas Públicas – Condições de Saneamento e Conservação", desenvolvido em Portugal através da marca Domestos, especialista em limpeza de casas de banho, quase 40% das raparigas se queixa da ausência de papel higiénico nas casas de banho, essencial para uma correta higiene.

O estudo aponta para o maior impacto das deficiências dos WC para os alunos do sexo feminino, contribuindo mesmo para a não utilização das casas de banho no período escolar. Uma das grandes preocupações para este segmento está relacionada com a saúde e com "o risco de contaminação bacteriológica ou viral", por casas de banho "sem uma higiene correta" que levam "à privação das necessidades fisiológicas".

Aspetos como a falta de privacidade e de segurança, apontados 10% das vezes pelas raparigas, também levam à falta de utilização. Ora, com o período, é essencial que as raparigas se sintam à vontade para utilizar este espaço tantas vezes quantas necessárias. Há consequências graves para a falta de higiene neste período. Por exemplo: a ausência da troca de tampão pode levar à Síndrome do Choque Tóxico, uma doença pouco frequente mas com graves consequências.

Da mesma forma, a troca do penso higiénico é imperativa para a saúde. O ambiente húmido e a fricção do penso pode levar à formação de bactérias e mesmo infecções vaginais. Da mesma forma, a ausência de sabonete e papel absorvente (apontada por quase 15% das raparigas) não permite que haja uma correta lavagem de mãos, crucial depois da troca.

A marca Domestos quer mudar o paradigma de casa de banho das escolas públicas, alertando para uma revolução necessária. Dos aspetos mais básicos – como a necessidade de haver baldes, papel higiénico, sabonete e papel absorvente – aos mais estruturais - escolas com ausência de água ou autoclismos que não funcionam, pouca ou nenhuma limpeza dos espaços ao longo do dia, ou utilização de produtos não adequados são aspetos que podem pôr em risco os adolescentes. O estudo é um alerta: é preciso fazer mais e melhor pelas casas de banho das escolas públicas portuguesas, de modo a que a segurança, o conforto e a saúde se estendam a todos os espaços escolares. Incluindo a casa de banho.

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