Saúde

Por que já não chora este bebé?

Considerada uma terapia alternativa, a osteopatia é cada vez mais procurada por mães à beira de um ataque de nervos porque os seus bebés choram e sofrem com mal-estar. Mas, salvo raros casos, só o fazem em última instância. Porquê? Fomos em busca de respostas.
Por Rita Silva Avelar, 28.08.2018

"Estava à beira de um ataque de histerismo por causa da minha filha que chorava imenso (…) e eu não conseguia fazer nada em casa, sempre com ela ao colo para tentar que sossegasse e, agora, ficou tremendamente calma, tranquila. Assistimos a uma verdadeira mudança." Quem o declara é Leonor Ferreira, de 38 anos, mãe de uma menina com três meses, que depois de tentar tudo, desde o pediatra ao terapeuta do sono, recorreu à osteopatia pediátrica. Aconselhada por uma amiga, deslocou-se ao consultório de João Paulo Silva*, em Linda-a-Velha, onde o osteopata, um dos primeiros a exercer a profissão em Portugal, recebe (quase todos os dias) pais em desespero, tal como Leonor, por não conseguirem entender o choro inabalável (e, a olho nu, inexplicável) das suas crianças.

Afinal, por que choram os bebés quando pensamos já lhes ter saciado todas as necessidades fisiológicas? A razão para tal tem fundamento. No caso de Leonor Ferreira, o facto de ter tido o sistema nervoso alterado nas últimas semanas da gravidez e durante o parto, levou a que, involuntariamente, o seu bebé começasse a entrar num estado de descompensação. "Quando nasce, a ideia do bebé consiste na sobrevivência (…) e qualquer que seja a informação nervosa que a mãe transmita, ele absorve-a e fica lá", esclarece João Paulo, sentado no seu consultório (aberto há dois anos), onde pratica a osteopatia, lado a lado com a mulher, Rodica Stamati. "Hoje, [a bebé] só chora quando tem alguma necessidade básica, como o sono ou a fome. Antes, chorava por tudo e sem razão aparente", revela, agora, Leonor com voz aliviada.

A primeira vez que se ouviu falar em osteopatia (que pode ser ministrada a bebés e a adolescentes até aos 14 anos de idade) como medicina não convencional ou alternativa foi em 1874, quando o médico Andrew Taylor Still (Missouri, EUA), inconformado com o constante uso de ópio, de arsénico e de whisky para efeitos medicinais durante a II Guerra Mundial (onde serviu como cirurgião), começou a aplicar as técnicas que ainda hoje se associam a esta terapia. Ainda assim, só em 1917 surgiu o primeiro colégio osteopático, no Reino Unido. Em Portugal, apenas haveria de se falar em osteopatia 51 anos depois, em 1978, quando o médico Mário Borges de Sousa trouxe o método da África do Sul, onde se licenciou pela Faculdade de Osteopatas do Lindlaher College of Natural Therapeuthic of South África(em 1960). Já neste século, em 2013, e tal como a acupuntura, a fitoterapia, a homeopatia, a medicina tradicional chinesa, a naturopatia e a quiropraxia, a osteopatia foi considerada uma terapia não convencional reconhecida e legalmente regulada.

Os problemas mais comuns

Cólicas, irritabilidade, distúrbios do sono, obstipação, bolçar excessivo, otites. Estas são algumas das contrariedades frequentes em bebés, nos seus primeiros meses de vida. Mais do que nunca, há mães que procuram João Paulo e Rodica para cuidarem dos seus filhos e até se criou um grupo na Internet que discute o método por eles praticado e aconselha outras mães. "Há muitas pessoas que consideram que um osteopata manipula, o que não é verdade. Na osteopatia integral, trabalha-se o corpo do ser humano como um todo, dos bebés até aos adultos, e recorre-se à terapia manual, com a técnica sacro-craniana (que reposiciona estruturas cerebrais que ainda são móveis), e restabelecem-se alguns equilíbrios-padrão com alongamentos e estiramentos das fáscias (seja dos membros inferiores ou superiores)." É por isso frequente aplicar-se as bases da técnica Shantala, oriunda da Índia. "O toque é muito importante [na osteopatia] e usamos, muitas vezes, esta técnica trazida para o Ocidente pelo médico obstetra francês Frédérick Leboyer que [em Calcutá, em 1976] viu uma mulher dar à luz no meio da rua. Ela fez tudo sozinha… Cortou o cordão umbilical e começou a massajar o bebé e disse: ‘Estou a acabar o meu parto.’ Ou seja, estava a modelar as estruturas da criança, a reposicionar e a restabelecer o equilíbrio a nível das fáscias musculares e nervosas", esclarece.

Quanto mais cedo os pais levarem os seus bebés à terapia osteopática para resolver problemas, como as cólicas ou a incapacidade de dormir, mais resultados se podem alcançar e de forma mais imediata. Caso Ana Vitorino, mãe de um bebé saudável chamado Rafael, o soubesse, não teria ficado praticamente sem dormir seis meses. Passou por um pediatra e por um médico do sono, antes de chegar à clínica de João Paulo. Este relata-nos o tal caso. "Quando perguntei [a Leonor Ferreira] como decorreu tudo durante a gravidez, explicou-me que [o processo] foi in vitro. O sistema nervoso da mãe alterou-se no fim da gravidez, também por esta ter sido a primeira criança deste casal. A acumulação nervosa da mãe foi transmitida para o bebé. Para agravar, o bebé teve de ser retirado com uma ventosa durante o parto", explica.

Mas quando os bebés nascem com a ajuda de ventosas ou fórceps, as membranas que estão na zona nervosa da cabeça ficam em extensão, o que pode provocar uma retracção do osso palatino (situado atrás da cavidade nasal entre o maxilar e o esfenóide) e leva a que o posicionamento da coluna mude completamente. Mas existe a possibilidade de recuperação nesta fase de crescimento, graças à elasticidade do cérebro.

E João Paulo apresenta uma outra situação. "Houve o caso de um bebé que rejeitou a chucha e, apesar de conseguir mamar, não o conseguia fazer suficientemente bem. Aplicámos uma técnica (não-invasiva) que é a sacro-craniana, em que induzimos o movimento do cérebro, movimentando os ossos e as membranas para o bebé (ou o adulto, se for o caso) relaxar e ficar mais calmo." Casos em que o bebé não consegue mamar e tem cólicas são bastante comuns. "Isso acontece porque o palatino está modificado e o bebé não consegue sugar como deve ser e apanha ar. Ao apanhar ar, tem cólicas, chora e emagrece." Em conjunto com Ana, a mãe, João Paulo descobriu uma situação curiosa que acalmou o bebé Rafael. "Descobrimos que o som do aspirador fazia o bebé adormecer, acalmando-o. Durante a gravidez, e como a mãe trabalha num cabeleireiro, o bebé ouvia o barulho do secador neste que era um momento em que a mãe estava mais calma, pois a trabalhar distraía-se mais. Ora, o som do secador é quase igual ao do aspirador."

Noutro caso, a João e a Rodica apareceu-lhes um menino, já com um ano de idade, que apresentava um torcicolo grave. Conseguiram, após várias consultas, deixar-lhe o pescoço direito. "Mais grave que isso são os bebés que chegam com uma assimetria do crânio [a nível clínico chama-se plagiocefalia posicional] por terem estado na mesma posição durante muito tempo. Nesses casos, reposicionamos os ossos no sítio, pouco a pouco. De futuro, caso estes problemas não sejam corrigidos, podem ocorrer situações como o maxilar ficar disfuncional ou a estrutura óssea da coluna ficar deformada. E se estas lesões (que ainda são pequenas nesta fase) não forem tratadas a tempo, os bebés podem vir a ter problemas também a nível de locomoção e de dicção."

Porque é que não há, então, uma maior sensibilização no meio profissional para encaminhar os pais a uma ida à consulta de osteopatia? João Paulo dá o exemplo de países como a França e a Suíça. "Em França, a seguir ao parto há uma consulta para restabelecer o equilíbrio ao nível fascial (das fáscias musculares) e cranial, e ao nível do palatino, para ver se existe algum bloqueio das estruturas."

A opinião do pediatra

Para o pediatra Hugo Rodrigues, autor do livro Pediatria para Todos e de um blogue com este nome (blogpediatriaparatodos.blogspot.pt), "a osteopatia, como outras terapias, pode ter uma utilidade em otimizar alguns dos comportamentos dos bebés, geralmente para aliviar de uma forma pontual. Não é uma intervenção curativa, mas pode ajudar e deve ser utilizada pelos pais desde que feita por alguém credenciado para tal. Deve haver uma abertura, por parte dos pediatras, para esse tipo de ajuda e uma referenciação em casos que o indicam, já que a maior parte das crianças saudáveis não precisam da intervenção da osteopatia", esclarece.

Quando o questionamos se em Portugal ainda existe um esgar de desconfiança no meio profissional em relação às medicinas alternativas, não hesita. "Tenho uma visão muito democrática em relação a isso. Tenho crianças que são seguidas e beneficiam, mas não é solução para tudo. Há alguma relutância [no meio profissional] em relação à osteopatia, umas vezes por desconhecimento e outras por experiências que não correram tão bem." Crente que haverá espaço para todo o género de medicinas em Portugal, remata ao dizer que o importante, no final, é o bem-estar do bebé e dos pais.

"As coisas estão a mudar, mas ainda temos uma separação evidente da medicina dita tradicional de todos os outros tipos de terapias. Isso tem vindo a mudar e o caminho vai ser no sentido de tentar integrar o que de bom têm todas as áreas, que é o que parece mais lógico. O que faz sentido é haver um complemento, pois uma coisa não anula a outra." Há, de facto, necessidade e espaço para as duas terapias, convencionais ou não. Até porque as carências de tratamento destes bebés levam a que os pais sofram ao longo de todo o processo e que também eles precisem de atenção. João Paulo explica: "Depois de tratar o bebé, tratamos a mãe. A mãe é a continuação do bebé." E há-de sê-lo sempre não só nos primeiros meses mas pela vida toda.

*osteojp.pt

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