Notícias

Viagem à ilha paradísiaca onde os homens não entram

Na Finlândia, ao largo do mar Báltico, encontra-se a SuperShe, uma ilha paradisíaca... interdita a homens. Apenas um punhado de mulheres influentes, cosmopolitas e escolhidas a dedo viajam até lá para recarregar baterias, reativar o seu empowerment e cultivar um feminismo poderoso: reflexo da época do #MeToo. Uma caricatura do wellness ou um verdadeiro impulso espiritual? Uma viagem exclusiva ao país das neo-amazonas.
Por Séverine Pierron, 11.01.2019

"Um pouco por todo o mundo, as mulheres estão a libertar-se. É preciso despertar o poder feminino que existe dentro de nós para descobrirmos o nosso objetivo superior." A voz é monocórdica e as palavras desapegadas. Um pálido halo azulado ilumina o rosto grave de uma jovem mulher durante a leitura. Poderíamos pensar que era a luz da Lua, pendurada no alto do céu escuro finlandês, mas é o brilho de um MacBook. Uma dezena de formas femininas, enroladas em mantas, escutam-na com os olhos fechados. Todas participam numa sessão de meditação com plena consciência. A sua xamã 2.0 chama-se Angel. Isto não é inventado. Bem-vinda a SuperShe.

Um jardim do Éden… sem Adão

Situada a pouco mais de uma hora e meia de Helsínquia e a poucos minutos de lancha da costa, SuperShe não figura em nenhum mapa. É normal, visto que esse não é o seu topónimo original. Aqui, porém, toda a gente já o esqueceu. SuperShe, um nome apropriado (SuperEla) para um conceito inédito: pegar em oito mulheres, selecionadas cuidadosamente, e levá-las para uma ilha perdida para uma "recalibragem espiritual" no meio da Natureza, com um regime detox, power yoga e shinrin-yoku (o banho de floresta japonês). Tudo isto sem homens.

Lançado no final de junho de 2017, o projeto seduziu o público de imediato. Através do website, mais de oito mil mulheres enviaram as suas candidaturas sob a forma de cartas de motivação. No final, apenas uma centena de eleitas foi "convidada – pagando a módica quantia de cinco mil dólares por semana – a explorar todo o potencial da sua vida" e a estabelecer uma rede de contactos com outras mulheres com elevado poder de compra que sonham realinhar os seus chakras. Porque a SuperShe é um clube ultra-VIP, uma espécie de comunidade de elite, cujos membros são escolhidos pela própria fundadora, a enigmática Kristina Roth. Esta mulher de negócios germano-americana fez a sua fortuna na área da tecnologia antes de se transformar numa guru do wellness, outro setor lucrativo. Em 2016, vendeu a sociedade Matisia Consultants por 45 milhões de dólares. Em Agosto de 2017, Kristina comprou aquele pedacinho de terra com oito hectares, no mar Báltico, para transformá-lo num paraíso feminino. Uma oportunidade rara porque na Finlândia as ilhas mantêm-se tradicionalmente nas famílias. O montante da transação: confidencial.

Se SuperShe é um produto das tendências de lifestyle do momento, uma versão embelezada do discurso feminista do woman empowerment, a novidade do conceito reside no caráter exclusivista. O que torna um homem persona non grata? "Porque quando há homens, as mulheres podem deixar-se distrair, serem tentadas a pôr batom e a cobrir o corpo", justifica a fundadora, à laia de preâmbulo, no website. "SuperShe é um refúgio onde podem reinventar-se, um lugar onde podem recalibrar-se sem distrações." Numa época pós-#MeToo, a empresária Kristina Roth imagina o Paraíso sem Adão…

Receitas equilibradas e superalimentos

Assim que chegamos a SuperShe, a mudança é total. Bétulas e pinheiros: a ilha é um oásis de natureza coberto de musgo e pontilhado por cogumelos dourados. A luz amarela do fim de tarde aquece as rochas de granito e faz cintilar o mar Báltico. Cadeiras de baloiço, em forma de casulo, balançam suavemente entre as árvores. Não se ouve um som. Ao lado do trilho delineado com seixos que conduz a Petit Poucet está um dos quatro bungalows construídos em madeira local. Cada quarto espartano e decorado ao estilo hygge é partilhado por duas SuperShe. Não há espelhos, mas há wifi – seria lamentável não poder instagramar a experiência SuperShe, uma vez que tudo parece ter sido concebido para ficar fabuloso, com ou sem filtro. Sobre a mesa-de-cabeceira há um bloco para tomarmos nota dos nossos pensamentos pessoais entre dois mantras de mulheres de sucesso, como Eleanor Roosevelt ou Madonna.
Os roupões e os guardanapos têm o logótipo de SuperShe. Sobre a cama há cremes biológicos, cuja embalagem eco-friendly se degrada naturalmente em quatro semanas. Aqui, tudo o que não é compostável é enviado de barco para o continente e posteriormente submetido a um processo de triagem. Na casa de banho, uma bacia em vidro gigante dá-nos a sensação de estarmos a tomar duche no exterior, nuas em frente ao mar (não precisa de entrar em pânico: women only).
As retretes secas ultramodernas incineram os resíduos orgânicos com um clique. Mas não há tempo para nos delongarmos a apreciar este pequeno milagre tecnológico. Já são horas de uma sessão de exercício físico com Katie, uma treinadora enérgica vinda de Portland, nos EUA. No terraço, as SuperShe vestiram os seus mais belos trajes de athleisure para transpirarem ao som de Cardi B.

Mente sã em corpo são: isso requer trabalho. Para aguentar o choque, cada uma pensa no almoço que se aproxima. Vegan, paleo, ayurvédico e sem glúten (uma mistura das modas atuais): será delicioso, mas ultralight. Camilla, a chefe de cozinha finlandesa do complexo, prepara as suas receitas equilibradas com ingredientes de "elevado nível vibratório" e outros superalimentos.

Cereais, flores colhidas na horta de SuperShe e legumes "cultivados pelas mulheres de uma ilha vizinha". Não vale a pena pensar em fumar um cigarro ou beber um copo de Chablis: todas essas "drogas" são interditas. Na semana passada, uma inconsciente foi apanhada pela chefe da colónia com chocolate e champanhe no quarto. Confiscados. Felizmente, 15 minutos de sauna tradicional e uma hora de massagem no yurt acalmam o humor e diluem as frustrações…

Objetivo: sinergia de mente, corpo e alma

Após um chá, cada "convidada" apresenta-se às outras com um discurso breve. O ambiente é descontraído, amigável. No mês passado chegaram aqui algumas mulheres vindas de Teerão e do Togo, mas as neo-amazonas de hoje vieram de Birmingham, de Seul e de Nova Iorque.

Estas urbanas hiperativas e cosmopolitas estão aqui para recarregar baterias, mas também para se questionar e descobrir uma nova motivação. Muitas delas estão entre carreiras profissionais ou vivem um momento de viragem na sua vida profissional ou pessoal. Todas estão de acordo numa questão: "Estamos aqui para nos reconetarmos connosco próprias. Espero encontrar um equilíbrio entre ser e fazer", especifica Laurence, uma franco-americana de 50 anos que abriu uma agência de design de interiores em Nova Iorque, depois de uma carreira como bailarina e encenadora.

Esta frequentadora habitual de retiros espirituais (já participou, por exemplo, nos organizados por Tony Robbins e Deepak Chopra) preencheu o questionário no website de SuperShe com apenas duas palavras: "Women empowerment." Aparentemente, isso convenceu Kristina Roth que lhe fez um preço de amiga. Há que dizer que o sucesso de SuperShe depende igualmente do passa-palavra entre pessoas influentes e Laurence será provavelmente uma delas. "Aquilo que me atraiu particularmente no conceito de SuperShe foi a sinergia de mente, corpo e alma", acrescenta.

Vinda do Ohio, Constance, de 34 anos, estava ansiosa pela sua estadia na ilha, que considera ser um girl camp aperfeiçoado. Antiga advogada em Wall Street, esta self-made-woman deixou tudo para se tornar CEO de uma organização sem fins lucrativos que leva crianças de bairros desfavorecidos a fazer esqui nas Montanhas Rochosas. Na primeira noite, após uma cerimónia de purificação com salva ao ar livre para honrar a Lua nova, ela confidencia ao pequeno grupo, com a voz entrecortada pelo choro, que fez uma histerectomia há dois anos. Neste refúgio intimista exclusivamente feminino, as línguas soltam-se. Instala-se uma espécie de irmandade benevolente, quase consoladora, entre as mulheres. Todas dão as mãos e meditam juntas.

Um espaço de liberdade para as mulheres

Durante as diferentes atividades, as SuperShe confidenciam as suas dúvidas, as suas esperanças, os seus percursos retorcidos e as dificuldades em compreender as contradições da sociedade atual. Um emprego de sonho perdido. Uma má auto-estima.

O espírito de SuperShe é criar um "círculo de confiança", como diz Kristina Roth. A inglesa Nichola, de 45 anos, divorciada e com dois filhos, comenta: "As mulheres precisam de um espaço para pensarem só para elas. Há muito tempo que os homens pensam por nós!" Laurence também dá a sua opinião: "Entre mulheres, a profundidade da conversa vai mais longe. Nós temos uma psicologia diferente da dos homens." Angel, a nossa orientadora (e número 2 na organização SuperShe), vai ainda mais longe: "O homem é o ‘fazer’ e a mulher é o ‘ser’." Uma visão binária e redutora, mas que em SuperShe não choca ninguém. O conceito 100 por cento feminino desta ilha é motivo de debate.

O elitismo do local – a cinco mil dólares por semana, a filtragem económica ocorre naturalmente – e o seu sexismo são indicadores: será o feminismo sem homens um impasse ideológico? Não para Kristina Roth. Numa conversa telefónica, a super-guru, alegre e calorosa, defende o seu projeto: "Com a SuperShe quis criar um espaço de liberdade para as mulheres, sem julgamentos masculinos. Sou adepta dos retiros espirituais, há cerca de 15 anos. Quando trabalhava em consultoria, tinha uma higiene de vida deplorável, sentia-me esgotada física e emocionalmente. Tinha necessidade de pressionar o botão de reset como se faz num computador. A SuperShe propõe a cada mulher tornar-se uma melhor versão de si mesma. É também uma forma genial de fazer networking." Esta fêmea alfa vê a ilha como um parêntesis, mas também como um clube reservado às mulheres (num mundo em que existem para os homens), onde podem cultivar as suas redes de influências.

O que dizer sobre o "poder feminino", a grande causa do SuperShe? "O poder feminino é estarmos ligadas às nossas emoções", acrescenta Kristina Roth. A nossa época pós-#MeToo é de solidariedade entre as mulheres. #MeToo quer dizer ‘Eu não estou só’." As críticas? Kristina Roth ignora-as com um gesto de desdém. "Pouco me importam. Tudo é bom para a marca SuperShe." Business is business. Em Novembro, ela abrirá um SuperShe no Havai. Está prevista a abertura de um terceiro nas ilhas Turcas e Caicos, nas Caraíbas, em 2019. Já é possível fazer reservas (supershe.com)

Uma natureza omnipresente e sublime, uma calma total e relaxante, uma luz suave… Todos os elementos se reúnem aqui para permitir a recalibragem espiritual que se encontra no centro do projeto da fundadora de SuperShe, Kristina Roth.

Foi em 2016 que Kristina Roth (em cima) comprou a pequena ilha no Báltico, coberta de bétulas e de pinheiros, e escolheu ali implantar o seu conceito de retiro espiritual. Concebeu o espaço como um refúgio onde as participantes podem partilhar as suas experiências pessoais num ambiente caloroso e genuíno.

O programa de SuperShe conta com atividades ao ar livre, como as aulas de yoga dadas no terraço pela treinadora Katie. As mulheres que preferem entrar em modo relax podem deitar-se nas confortáveis cadeiras de baloiço em forma de casulo e deixar-se embalar tranquilamente enquanto ouvem os pássaros.

Para alojar as convidadas foram construídos quatro bungalows em madeira com capacidade para duas pessoas. Confortáveis, mas sem excessos, estão decorados ao estilo escandinavo, o hygge. A coabitação permite estabelecer um diálogo pessoal e contribui para criar o "círculo de confiança" promovido pela fundadora de SuperShe.


Fotografia de Sanna Saastamoinen
Exclusivo Madame Figaro.
Tradução: Erica Cunha e Alves

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
Vídeos recomendados
1 Comentários
Anónimo E AINDA QUEREM IGUALDADE!
Há 3 dias
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!