Família

A ansiedade pós-parto: realidade ou apenas medo?

Muito se fala na depressão pós-parto, mas nem sempre na ansiedade. Patologias distintas, entre si partilham o medo que assola a maternidade. A Máxima falou com uma psicóloga e duas recém-mães para entender o que mais assusta as mulheres na hora de receber um novo ser.
Por Andreia Rodrigues, 12.04.2018

A ansiedade pós-parto afeta mais mulheres do que a depressão pós-parto, apesar da última ser mais falada. No entanto, apesar da probabilidade desta se poder transformar em depressão ser alta, e de ambas poderem ocorrer nos primeiros 12 meses do bebé, as duas patologias não são o mesmo.

Se na depressão existe a sensação de incapacidade para lidar com a maternidade e predominam os sentimentos de culpa e tristeza, na ansiedade pós-parto "os pensamentos são muito acelerados e sentidos como invasivos, com conteúdos perturbadores que geram um estado de preocupação persistente", começa por dizer Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e coach profissional. A psicóloga esclarece que "parecem surgir muitas tarefas que necessitam de ser concretizadas, tais como pôr o bebé a dormir, arrumar a casa, lavar a roupa do bebé, despachar trabalho em atraso, brincar com o bebé, preparar as refeições".

Para muitas mulheres esta ansiedade gera um sentimento de insegurança permanente, que resulta na verificação de coisas como "será que está a respirar, será que se virou durante a noite, será que tranquei a porta, será que o deitei bem no berço", e cresce o "receio de tomar conta do bebé sozinha, por medo de não se ser capaz de dar uma boa resposta a qualquer situação de perigo", explica Filipa Jardim da Silva. A ansiedade pós-parto provoca ainda queixas físicas, como o aceleramento do ritmo cardíaco, o aumento da temperatura, dores de cabeça ou dores de estômago, náuseas ou tonturas, diminuição do apetite e perturbações de sono.

Segundo a psicóloga, a mãe com ansiedade pós-parto sente vergonha e culpa, sendo a primeira "por não saber explicar muito bem o que está a acontecer" e a culpa, "por não estar a conseguir recuperar o controlo e a desfrutar desta fase bonita de uma maneira perfeita".

Filipa Jardim da Silva menciona ainda que a maioria das mulheres receia pedir ajuda com medo dos julgamentos. No entanto, alerta para o risco da condição se instalar e de se tornar crónica, pelo que recomenda que exista uma ação precoce, a favor da saúde mental da mãe e do vínculo que ela cria com o bebé.

No sentido de agir e ultrapassar a ansiedade pós-parto, a psicóloga ressalva que é importante que a mulher valorize as queixas o suficiente para agir, devendo partilhá-las com o cônjuge ou outras figuras de referência que possam constituir um suporte. Pode consultar ainda o médico ginecologista que a acompanhou na gravidez, ou "poderá existir indicação para ter algum suporte de um psicólogo clínico, que apoie com algumas estratégias práticas de redução dos níveis de alerta e de gestão da intensidade de preocupação", como as práticas meditativas e exercícios de mindfulness. "Em casos mais severos, pode existir indicação para conjugar-se este suporte médico e psicoterapêutico com medicação", acentua a psicóloga clínica.

Além do acompanhamento médico, "é importante que a rede de suporte [da mãe] constitua um apoio efetivo, trocando a crítica e o julgamento por disponibilidade para diálogo e reflexão conjunta". A psicóloga esclarece a ideia, recomendando que se pergunte à mulher como está e do que precisa, e que exista apoio em tarefas "como ir ao supermercado, cozinhar, lavar roupas do bebé e limpar a casa, que assim permitirão à mulher focar-se um pouco mais em si e no seu novo papel de mãe, sem se sentir tão sufocada".

Medo sim, ansiedade nem sempre

Margarida Almeida, uma das autoras do blogue Style It Up, foi mãe há 8 meses do Manuel. "A chegada de um bebé muda totalmente a nossa vida, as nossas rotinas! Deixamos de fazer o que nos apetece para gerirmos o nosso dia a dia em função de um bebé que depende totalmente de nós", explica. Apesar de não ter sofrido de ansiedade pós-parto, Margarida associa-a ao "medo de não correspondermos às expectativas (nossas e dos que nos rodeiam)". E refere que a "pressão vem principalmente das outras mulheres, que têm sempre uma palavra a dizer sobre tudo o que diz respeito à maternidade, desde qual o melhor tipo de parto, qual a melhor forma de acalmar os bebés e a rotina que acham que devemos seguir com o bebé, a amamentação, etc.".

"A maternidade é um tema muito sensível, porque toda a gente tem uma ‘verdade absoluta’ e parece que ficam zangadas se pensamos ou agimos de forma diferente", explica Margarida Almeida.

Também Joana Soares concorda com esta pressão de que as mulheres são alvo, "principalmente nos primeiros filhos". Joana, conhecida pelo seu trabalho de designer e ilustradora que resulta na loja Violeta Cor de Rosa, tem três filhas, Madalena, Violeta e Olívia, a última nascida há menos de um mês. "[Relativamente] à terceira confesso que me passa tudo um pouco ao lado mesmo expondo diariamente a minha vivência nas redes sociais. O que exponho é a minha realidade", conta.

Para Margarida, "o truque é descomplicar, confiar no nosso instinto e fazer o que achamos melhor para o nosso bebé e para nós, sem nos preocuparmos muito com o que os outros possam pensar".

Quanto à ideia de que a altura do nascimento do bebé é a mais feliz, Joana considera que o bebé é "a nossa ‘recompensa’, mas é uma altura em que temos de estar preparadas para esta dedicação e são tempos muito exigentes. Há espaço para num dia mudarmos de humor de 5 em 5 minutos", brinca.  Margarida afirma que "é uma altura muito feliz. Entra uma pessoa na nossa vida que ficará para sempre e passa a ser a pessoa mais importante de todas!". No entanto, Margarida confessa entender que "a altura do nascimento possa ser complicada e algumas mulheres não consigam entender logo este ‘estado de felicidade pleno’ de que toda a gente fala, por alguma coisa não ter corrido bem nos primeiros tempos com o bebé". Joana remata: "Quando percebemos que as fases mais complicadas têm um prazo começamos a relaxar mais e a estar mais felizes também."

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