Rosto&Corpo

As extravagâncias de Beleza dos muito ricos

Os ultra ricos não concebem voar para o outro lado do mundo sem levar a bordo do avião uma terapeuta de beleza. Hilary Rose encontra-se com a elite dos prestadores destes serviços, cujos profissionais estão sempre de serviço.
Por Máxima, 28.11.2018

Imagine o seguinte cenário: é extremamente rica e está hospedada num hotel de cinco estrelas, em Roma. São dez da noite e quer uma massagem, mas não conhece o trabalho dos profissionais do hotel. O que faz? Telefona a Charlie McCorry. "O cliente exclamou: ‘Oh, meu Deus, os massagistas deste hotel são uns incompetentes!’", diz McCorry. "Mande alguém para aqui, o mais depressa possível. Dois massagistas. Esta noite." Contudo, eu não consegui arranjar um voo e o cliente não tinha um jato privado. Mas ele não se deu por vencido: "Não se preocupe. Vou fretar um." E foi assim que dois massagistas apanharam um avião, em Londres, nessa noite, levando consigo as marquesas portáteis, "porque não se consegue uma em Roma, nem por amor, nem por dinheiro", e ficaram quatro dias. A conta, incluindo o voo, ultrapassou os 22 mil euros. Por uma massagem.

Se pensa que isto é rebuscado, então vejamos o seguinte. Encontra-se em casa, algures na Austrália, e vai dar um grande jantar para celebrar o seu noivado. Precisa de um bronzeado rápido, o qual pode ser obtido com a aplicação de um spray. Na Austrália, por certo, há inúmeras pessoas que o podem fazer, mas uma amiga disse-lhe que a equipa de Charlie McCorry, em Londres, é a melhor. Então, pede que um dos seus profissionais vá, por um dia, de Londres à Austrália, em primeira classe, e dá os 24 mil euros por bem empregues. Para Charlie McCorry este é um dia normal de trabalho. Abriu a Black Label, a divisão de elite da sua empresa, a Perfect 10, porque há no mundo muitas pessoas extremamente ricas que desejam massagens a meio da noite e bronzeados com spray, no outro extremo do mundo.

Originalmente com um negócio de serviço ao domicílio para toda a gente, que funcionava no horário normal de expediente, Charlie deu-se conta, há quatro anos, de que tinha cada vez mais pedidos de trabalhos que descreve como "fora do normal": marcações fora de horas ou a solicitação de terapeutas de beleza que pudessem permanecer seis meses a trabalhar para a mesma pessoa. E Charlie McCorry, que tem 31 anos, fornece agora serviços de beleza que satisfazem as necessidades de milionários, celebridades e dos que nada mais são que apenas ricos. Pessoas que querem exatamente o que pretendem, quando o desejam, onde quer que se encontrem e seja qual for o custo. A própria Charlie McCorry recebeu, em certa ocasião, uma gorjeta de 11 mil euros por uma semana de trabalho. "Trabalhei arduamente, nessa semana, e dormi muito pouco", diz. "Mas a tarefa não foi tão árdua que justificasse aquele valor."

Os seus clientes ricos ou famosos estão dispostos a pagar estas quantias, em parte porque são pessoas muito ocupadas e este serviço é cómodo, mas também porque não desejam encontrar os paparazzi à sua espera quando saem de um estabelecimento onde foram fazer depilação ou porque não desejam a presença de qualquer pessoa em suas casas. "Não são os famosos, os atores de Hollywood, que nos causam inquietações", afirma Charlie McCorry. "São os que possuem rendimentos elevadíssimos, os super-ricos. Temem que alguém os sequestre para pedir um resgate. Cruzei-me com pessoas que permanecem longe do olhar do público e nunca vi dinheiro e medidas de segurança como aquelas. Todos os carros que entravam e saíam de uma propriedade eram examinados detalhadamente à procura de bombas, colocavam espelhos por baixo das viaturas para as observarem, revistavam as pessoas, tinham cães farejadores. Receavam ser raptados." É outro mundo, assegura. Tem uma cliente saudita cujas paredes da sua casa de Londres estão revestidas a folha de ouro e cristais da Swarovski. McCorry disse-lhe que gostava muito do tapete de pelo de chinchila que ela tinha no chão e a cliente quis oferecer-lho, mas Charlie recusou. Atualmente delega o trabalho. Tem 490 massagistas, em Londres, e várias equipas espalhadas por todo o mundo, de Los Angeles ao Mónaco, em Nova Iorque e em Singapura. Os clientes do Médio Oriente são a sua principal fonte de rendimento, apesar de quererem sobretudo penteados e blow dries. "Penso que, atualmente, já ninguém lava o seu próprio cabelo", diz Charlie McCorry. "Algumas clientes querem um blow dry diário e, por vezes, duas vezes no mesmo dia." Cento e cinco euros é o preço – fixo – de um blow dry feito em casa, sensivelmente o dobro do que se paga num cabeleireiro de porta aberta para a rua [em Londres]. Mas a maior parte destas pessoas não quer apenas que lhe penteiem o cabelo. Reservam, por um dia, um pacote de tratamentos, cujo custo é de cerca de mil euros, preço que não inclui a deslocação, nem o alojamento. Charlie McCorry tem quase 700 clientes em carteira, mas toda a família de cada um pode usar o serviço, pelo que acredita que o total de pessoas que atende seja sete vezes superior àquele número.

"Cerca de 70 dos nossos clientes levam os nossos terapeutas de beleza consigo nos seus jatos privados", afiança Charlie. "Os outros viajam em voos comerciais." Dois terços das suas marcações provêm de pessoas que residem em Londres, algumas delas com não mais de 18 ou 19 anos. Certa vez, foi pedido a uma das suas terapeutas de beleza que escovasse o cabelo de uma menina durante uma hora. Uma outra das suas funcionárias teve de se queixar ao cliente porque o staff do mesmo também queria alguns tratamentos. Muitos dos clientes figuram permanentemente nas colunas de mexericos e em revistas de luxo que escrevem sobretudo sobre este tipo de pessoas, e, por isso, exigem contratos de confidencialidade. "Eu deixei de ler revistas como a Look, a Vogue e a Harper’s [Bazaar]", confessa Charlie. "Eu gosto delas, mas sabia demasiado sobre os meus clientes. Nós conhecemos as suas partes íntimas, uma vez que lhes fazemos a depilação. Tornamo-nos próximos e quando lemos algo num jornal sensacionalista, temos vontade de perguntar: ‘É verdade?’"

Charlie passou seis Natais sucessivos com clientes de Los Angeles que tinham marcações para esse dia. Um ator da lista dos muito famosos contratou uma equipa de esteticistas para um trabalho em sua casa e providenciou um tratamento de beleza para a família, o qual foi efetuado enquanto um coro entoava cânticos natalícios. Num outro Natal, em Los Angeles, Charlie deu por si a almoçar numa sala cheia de celebridades. Quando a refeição acabou, um deles disse: "Vamos a Aspen!" E todos chamaram os seus pilotos e lá foram, no dia seguinte, nos seus jatos privados.

Um grupo de mulheres americanas resolveu dar uma pamper party [festa sobretudo para mulheres, cujo objetivo é usufruírem de tratamentos de beleza e de massagens], no deserto do Sahara, e foram enviadas quatro massagistas e um DJ. Charlie McCorry tem, neste momento, quatro terapeutas de beleza em Maiorca, duas em serviço na ilha e as restantes para dar assistência a convidados que se encontram em iates. Sete singapurenses pediram, recentemente, uma destas profissionais para que viajasse com eles à volta do mundo durante seis meses, num iate que, segundo Charlie McCorry, tem capacidade para acomodar cem pessoas. Qual o custo deste serviço? Cerca de 220 mil euros.

Perto de três quartos dos membros da sua empresa, que pagam uma quota anual de 275 euros para ter acesso aos seus serviços, são homens. As suas mulheres e filhas também os podem usar, mas os homens, diz Charlie, querem tudo: massagens, manicura, pedicura, tratamentos faciais e, até, coloração de pestanas. Há pais que pagam massagens aos filhos adolescentes quando estes se encontram stressados por causa dos exames e uma boa fatia da sua clientela são millennials, muitos deles da Malásia, de Singapura e de Hong Kong. "O dinheiro não constitui um problema", diz. "Querem blow dries todos os dias, querem massagens todos os dias, por vezes duas e três vezes por dia. Se os membros da família estão sob stress, deitam-se na marquesa de massagens e continuam a trabalhar mantendo o telemóvel sob a mesma. Um membro do seu staff telefona e diz: ‘Pode vir e dar uma massagem de meia hora?’ Mais tarde, liga de novo: ‘Ele está stressado outra vez. Pode voltar?’"

Em certa ocasião, Charlie McCorry fez parte de uma equipa que trabalhava para um homem muito rico que estava a fazer heli sky, em Aspen. Fora fornecido um walkie-talkie a toda a gente e o dela não se "calava". Tinha de subir imediatamente a montanha, diziam-lhe. O cliente tivera uma cãibra e precisava de uma massagem. Charlie protestou. Sabia esquiar, mas não fora das pistas e, definitivamente, nunca o faria em trilhos aos quais se tem acesso apenas de helicóptero. O homem gritou com ela e Charlie desfez-se em lágrimas. Contudo, acabou por subir a montanha, agarrada a um guia, ainda a chorar e a tremer de medo. Encontrou o cliente a rir-se. Não passara tudo de uma artimanha preparada para testar as qualificações de Charlie como esquiadora.

É um mundo a que Amanda Harrington, de 39 anos, está acostumada. Montou o InParlour, uma empresa que oferece serviços de beleza ao domicílio, em 2004. Como McCorry, fornece aos ricos e famosos que não podem, ou não querem, fazer a sua própria maquilhagem, secar o cabelo ou pintar as unhas. "É estranho, mas acaba por se tornar um trabalho bastante viciante e normal", diz Amanda. "Quando uma pessoa se habitua e pode pagar, não creio que deseje deixar de o fazer. Se está sentada enquanto lhe penteiam o cabelo, pode também pedir que lhe façam a maquilhagem e que lhe pintem as unhas, ao mesmo tempo." Amanda cobra mil euros, mais IVA, por dia e se um cliente pedir alguém para tratar dele, durante um mês, num iate em Saint-Tropez, terá de desembolsar entre 33 mil e 44 mil euros. A maioria dos seus clientes é composta por mulheres, cujas idades começam a meio da casa dos 30 anos, indo por aí acima, algumas delas CEO que se querem apresentar com ótimo aspeto numa reunião da administração da empresa onde trabalham; outras são socialites que desejam um spray tan "porque as faz sentir melhor e, portanto, é uma questão essencialmente psicológica, além de que lhes permite vestir mais um terço do seu guarda-roupa, ao longo do ano". Há também pessoas que requisitam os seus serviços para um fim de semana nas suas casas no Oxfordshire, ou, como Amanda lhes chama, "viagens de grupo extremas".

"Houve uma festa em Itália, durante um fim de semana, para a qual foi enviada uma equipa de 40 terapeutas de beleza", diz Amanda. "Neste momento, temos profissionais em inúmeras festas, em Saint-Tropez, porque um grande número de clientes americanos foram para lá e dão festas nos seus iates. O trabalho mais caro foi levado a cabo numa viagem de uma semana à Grécia para uma festa privada. Queriam dez cabeleireiros e maquilhadores constantemente disponíveis durante toda a semana. Custou-lhes cerca de 83 mil euros." Aqueles que não possuem capitais próprios elevadíssimos podem dizer "Venha a revolução!" ou simplesmente "Porquê? Para que se precisa de dez artistas da maquilhagem que fiquem de serviço quando se está de férias na Grécia com amigos?". A resposta será: "Porque é o que os convidados esperam dos seus anfitriões", diz Harrington. "Se alguém oferece aos convidados de uma festa o serviço de terapeutas de beleza, é esperado que estes retribuam."

Aplicar e remover maquilhagem é um processo que consome tempo quando se é rico a este ponto. "Têm de comparecer a almoços", diz Amanda. "Têm de comparecer a jantares. Vão a festas à noite e, se estas forem temáticas, os clientes não conseguem dar a eles próprios um look dos anos 70. Corriam o risco de aparecer com uma túnica e o cabelo apanhado atrás. A este nível, isso não pode acontecer." No que respeita a níveis de desregramento sem sentido, é difícil bater uma família real que tomou de assalto um hotel, em Marrocos, para umas férias. Um dos membros decidiu que queria fazer exercício físico num ginásio com um personal trainer. O hotel não dispunha de um nem de outro e, então, foi feita uma chamada para Charlie McCorry. Esta sugeriu que fosse encontrado um ginásio nas proximidades e que o fechassem para seu uso pessoal. Não, responderam-lhe. Que comprasse um equipamento de ginásio completo e que aparecesse com ele, no hotel, na terça-feira. O hotel foi persuadido a disponibilizar um salão que pudesse ser transformado num ginásio e a encomenda foi descarregada, em Marrocos, no primeiro dia do Ramadão. Nenhum dos funcionários da alfândega, as entidades que podiam desalfandegar a mercadoria, se encontrava no local de trabalho. Charlie McCorry telefonou para a embaixada da família real em questão, invocando alguns nomes sonantes e, por fim, os formulários necessários foram assinados. Quatro dias depois do telefonema que desencadeou toda esta situação, o ginásio estava pronto e o personal trainer preparado para desempenhar o seu trabalho, requisitado por um mês ao preço diário de cerca de mil euros. E quantas vezes a real personagem usou o ginásio? "Uma", diz McCorry. "Exercitou-se duas vezes, uma delas no ginásio, a outra numa caminhada e, no fim, disse: ‘Pode levar isso. Fique com o equipamento.’" Charlie encolhe os ombros e sorri. "Tudo isto é normal."

Extravagâncias de Beleza das celebridades

- Para o vídeo promocional de Mrs. Carter World Tour, Beyoncé pagou cerca de 750 euros pela manicura dourada realizada pela H&H. Mas não foi a manicura mais cara de que já ouvimos falar se tivermos em conta as unhas de diamantes negros, de 215 mil euros, que Kelly Osbourne exibiu na entrega de prémios Emmy de 2012.

- Jennifer Lopez é adepta do tratamento de rosto da Lancer Skincare à base de placenta humana que custa €855. Costuma fazê-lo duas vezes por semana.

- A cantora americana Jessica Simpson gasta um milhão de dólares por ano apenas em cuidados de beleza: inclui €850 por semana em tratamentos bronzeadores, a mesma quantia para extensões de pestanas e €1.700 em tratamentos para a celulite, €3800 vão ainda para o seu personal trainer e quase 200 mil euros por ano são gastos em cuidados de cabelo.

- Uma das aventuras de Beleza mais extravagantes que Kim Kardashian documentou nas redes sociais foi o Vampire Facial que consiste em extrair sangue do braço e reaplicá-lo no rosto. Custa €1300.

- Rihanna paga à sua hairstylist, Ursula Stephen, €1600 por dia para que esta esteja constantemente a reinventar o seu visual.

 

Exclusivo The Times Magazine/Atlântico Press

 

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