Entrevista

20 anos de Narciso Rodriguez

Falamos com o designer em Madrid, durante as comemorações dos seus 20 anos de carreira e dos 15 desde o lançamento da sua primeira – e icónica – fragrância.
Por Carolina Silva, 06.11.2018

Comemoravam-se os vinte anos de Narciso Rodriguez desde que se estreou no mundo da moda. Em Madrid, onde o calor ainda se fazia sentir, aguardávamos a atuação imponente da cantora Estrella Morente, enquanto se distribuíam leques e champanhe pela sala ampla da Galeria Marlborough. Este local, no coração do bairro de Salamanca, guarda um momento especial para o criador cubano-americano. Há 15 anos lançava ali a sua primeira fragrância feminina, For Her. O que seria um momento importante para qualquer marca, foi-o ainda mais para Rodriguez. For Her rapidamente se tornaria uma das mais procuradas e desejadas fragrâncias em todo o mundo, alcançando o topo de vendas em muitos países. O que causou todo este sucesso? A sua capacidade de transformar um cheiro ancestral num perfume intemporal. Narciso inspirou-se num óleo egípcio de almíscar que se havia tornado uma obsessão sua desde adolescente e soubera desde sempre que queria partilhar aquele aroma com as mulheres. E elas adoraram-no. Até hoje. Quinze anos depois, a lista de fragrâncias é extensa, todas bem-sucedidas, todas com um toque do famoso almíscar na sua composição.

Narciso é um homem discreto. Desloca-se com movimentos suaves de quem não tem pressa para chegar a lado nenhum e fala pausadamente, com um sorriso ternurento. A humildade parece ser uma característica que também lhe assenta como uma luva. Encontra-me a observar a campanha da sua primeira fragrância, pendurada na parede da sala. "Não me canso de olhar para esta fotografia. Quinze anos depois continua a ser tão atual e bonita aos meus olhos." Apresento-me e aproveito para elogiar a performance de Estrella Morente na Galeria Marlborough, no dia anterior. Responde-me com os olhos arregalados: "Eu sei! Consegue acreditar naquela mulher? Lembro-me de falar sobre isso, mas não estava à espera que ela pudesse vir. Fiquei maravilhado." Respondo-lhe que, enquanto fã de Almodóvar, fora um momento arrepiante. Sorri: "Sabe, uma das vezes que vim a Espanha, fui a uma festa num apartamento, onde por acaso estavam também o (Jean-Paul) Gaultier e o Bruce Webber, e o Pedro Almodóvar era um dos anfitriões da festa, juntamente com a dona do apartamento. Presenciei uma performance inesperada dela com a Chavela Vargas e foi incrível! Não parava de pensar: ‘Como é que isto pode ser real?’ E ontem à noite tive essa mesma sensação. Foi uma janela para a vida espanhola." Quebrado o gelo com um início de uma conversa descontraída, dá-se o mote para a primeira pergunta.

A arte e a música têm uma grande importância na sua vida e no seu processo criativo?

Sim, sempre foram uma força motivadora. Olho sempre para a música, fotografia, arquitetura, cinema… Há um estímulo constante. A música tinha um papel mais importante quando era mais novo. Entristece-me até um pouco porque antigamente, no meu escritório, havia sempre música e hoje já não…

O que encontraríamos hoje no seu escritório?

Encontraria mais arte, fotografia, livros… por aí. É um sinal da minha idade [risos]. Sozinho ouço mais música clássica ou jazz, música dos anos 90 ou disco dos anos 70. Mas quando era mais novo, passava a vida a correr para aquela pequena loja de discos em Bleeker Street [Nova Iorque], à procura do que estava a ser lançado, das últimas novidades. Era uma rotina que eu adorava, fazia parte dos meus sábados. Estava sempre à frente da curva.

Qual é a sua opinião sobre como a indústria da moda tem evoluído?

Acho que não é um momento interessante ou inspirador na moda. Olhei para alguns dos desfiles de homem na Semana da Moda de Paris e tinham muito baixo valor. Tem tudo muito mais a ver com quanto dinheiro é que se pode gastar para promover uma marca, com as celebridades e rappers que estão presentes, mas não tem a ver com a roupa. Parecia o departamento de rapazes de um centro comercial, sobre-estilizado, aborrecido, comercial. Não se vê a mão do designer, não há arquitetura, desenvolvimento de tecido. Não há design, só marketing. Não é a parte da moda que me interessa.

Sente dificuldade em manter-se genuíno, neste novo mundo?

Não. É muito mais fácil, por acaso! Recentemente tenho-me sentido mais apreciado, porque há tanto ruído e falta de pessoas que estão de facto a desenhar peças e a pensar nas mulheres e nos homens, em vez de na quantidade de celebridades que estão na conta do Instagram. Por isso, como vê, por cada mau desfile, há uma boa reação [risos]. O bom da moda é que muda. E esta estação pode ser má, mas na próxima pode ser tudo diferente.

Acredita que há uma maneira de voltar às raízes, a uma altura em que o que se passa agora na moda deixe de ter relevância?

Sim, porque o que era relevante há 20 anos não o é hoje. Tudo evolui. Como em todas as artes, há sempre quem apoie, cuide da moda. E depois há os conglomerados, que têm uma visão oposta.

Qual é a melhor reação que os seus clientes podem ter perante uma criação sua?

Quando me dizem que adoram a maneira como se sentem a usar um perfume meu ou uma peça de roupa minha. Adoro quando comentam que têm uma peça de roupa no armário feita por mim que já tem dez anos e que continuam a gostar de a vestir. Tenho uma cliente que guarda todas as minhas peças para a filha usar. Esse é o maior elogio que me podem fazer.

Há 15 anos estava na Galeria Marlborough a lançar a sua primeira fragrância. Recorda-se como se sentia?

Foi um momento muito doce. O evento de lançamento foi muito mais pequeno, estava no início da minha carreira e as pessoas estavam curiosas, mas foi um lançamento mais íntimo. O mais interessante foi ver as reações das pessoas que estiveram aqui há 15 anos. Uma senhora veio ter comigo e contou-me como, no momento em que sentira For Her pela primeira vez, garantiram que esta fragrância iria trazer-lhe sorte. E foi num momento em que ela acabara de ir a uma entrevista em Nova Iorque e acabara de conhecer um homem aqui em Madrid. E tudo correu bem, ela conseguiu o trabalho, eles casaram-se e têm um filho. Disse-me que esperava que o filho se apaixonasse daquela maneira e que este cheiro lhe lembrasse sempre do amor que os pais tinham. É incrível que esta mulher tenha toda esta relação com o perfume, fico emocionado…

Pode falar-nos um pouco do seu trabalho com Michelle Obama?

Sempre tive uma relação muito boa com ela. Conheci-a há anos quando ainda era mulher do senador Obama e fui homenageado pelo Children’s Hospital em Chicago. Ela sentou-se ao meu lado e contou-me histórias incríveis sobre como se tinha apaixonado pelo marido. E não muito tempo depois, quando estavam em campanha, vi-a a usar a minha roupa. Senti-me muito honrado. Continua a ser uma cliente fiel. Pediu o vestido vermelho e preto para o dia das eleições e fiz algumas alterações, mas ela tem uma noção extraordinária do que lhe fica bem ou não. Ela arriscou com aquele vestido e eu pensei que ela tinha uma personalidade muito própria. A Michelle é muito especial, tem um gosto muito próprio e é inspiradora. Até é interessante falarmos nisso hoje porque está tudo diferente nos Estados Unidos e esse clima sente-se em todo o lado. Penso muito em como este desastre político afeta todo o mundo.

Quem o inspira?

Vários designers. Zero Maria Cornejo, porque cria roupa para mulheres de todas as idades, peças muito cool e bonitas. É um trabalho inspirador. Alber Elbaz era um génio. Jacamo é um novo designer que tenho acompanhado de perto porque está a fazer coisas interessantes…

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