Maquilhagem

O efeito da maquilhagem em tempos de crise

De um indicador económico na indústria da beleza ao relevante estímulo da autoconfiança, são diversas as razões pelas quais os investimentos em pequenos luxos não devem ser subestimados.
Por Carolina Silva, 21.05.2020

Investir em acessórios ou em maquilhagem pode ser, para muitos, apenas uma forma dispensável de gastar dinheiro, mas para outros pode fazer uma pequena diferença na maneira como se percepcionam a si próprios e a reduzir ansiedades relacionadas com a aparência. Há ainda um importante indicador económico que se esconde nas prateleiras das perfumarias, e uma fina linha que divide os cuidados com o visual para impressionar os outros, em oposição a fazê-lo enquanto forma de expressão (dress to impress ou dress to express). Numa altura em que oscilamos entre a inércia de permanecer em pijama todo o dia e o desejo de aplicar maquilhagem para ficar em casa, explicamos porque é que a segunda opção faz toda a diferença para atravessarmos as próximas semanas com a autoestima intacta.

Um booster da confiança

Enquanto reflexo da personalidade, o cuidado que temos com a aparência vai muito além do básico. Se para uns, utilizar um creme hidratante é um gesto mais do que suficiente, para outros é apenas um de muitos passos indispensáveis na rotina de beleza diária. A psicóloga clínica Rita Torres explica que "as dificuldades que vivemos decorrentes desta pandemia, a nível de saúde, financeiro ou familiar, vão exigir maior disponibilidade e resiliência. Nesse sentido, é importante aprender a perceber quais são as nossas necessidades e procurar satisfazê-las dentro do contexto onde vivemos. Embora se tenha alterado drasticamente, a vida não parou. Cuidarmos de nós continua a ser essencial. Devemos continuar a arranjarmo-nos para fazer a nossa vida, embora possa ser fácil cair numa certa armadilha para não o fazer. O que é central para a nossa autoestima deve continuar a ser valorizado, mesmo em tempo de crise. Isso é fundamental para sermos resilientes face à adversidade. Se a moda e a cosmética têm um peso importante na maneira como a pessoa se vê e sente, são áreas em que deve continuar a haver investimento, embora adaptado às condições em que vivemos (ex: reutilização de roupa guardada, aproveitar o tempo para aprender novos truques de maquilhagem).

Bobbi Brown, a visionária maquilhadora americana que fundou a sua marca baseada em realçar a beleza feminina, afirma que a "maquilhagem é uma maneira de as mulheres se sentirem como elas próprias, mas com mais confiança." É esta a mensagem-chave quando nos referimos à moda e à beleza. Ambas constroem pontes entre uma forma de ser e de estar com a qual nos sentimos mais autênticos, seja através de uma camisola colorida, de uma tatuagem no braço ou de um declarativo batom vermelho.

A psicóloga clínica e terapeuta familiar Sílvia Freitas explica que há ainda um lado positivo da atual situação que vivemos: "A vantagem que podemos tentar retirar desta situação, é que agora temos a possibilidade de criar um plano ao nosso ritmo, juntamente com um horário disponível para realizarmos atividades que nos dão prazer e que antes careciam de tempo.(…) A moda e a cosmética existem enquanto fatores externos, que podem influenciar a percepção da imagem que mantemos de nós mesmos que, por conseguinte, terá impato na nossa identidade. Apesar das nossas necessidades prioritárias em momentos de crises serem as motivações relacionadas com a autopreserveração, os factores externos que atuam sobre a nossa autoconfiança, podem contribuir para proporcionar-nos sensações de maior controlo e equilíbrio, e consequentemente menos insegurança."

O fator económico

Que as bainhas e os saltos dos sapatos variam de comprimento e altura consoante o estado da Bolsa de Valores é algo que a história tem vindo a comprovar, mas na área da beleza, as flutuações são ainda mais indicativas do estado da economia. Prova disso é um termo cunhado por Leonard Lauder, o filho de Estée Lauder e CEO do grupo de cosmética fundado pela mãe. Apesar de controverso e contestado por analistas ao longo dos anos, o Lipstick Index foi utilizado durante a recessão do início deste milénio nos Estados Unidos enquanto indicador económico que atesta que as vendas dos cosméticos, em particular do batom, estão inversamente co-relacionadas com a saúde económica dos países. Lauder observou que, em tempos de menor poder económico, os grandes investimentos em casas e carros diminuem, mas a venda de objetos menos dispendiosos que representam pequenos luxos, como a maquilhagem, aumentam.

Este indicador verificou-se durante a Grande Depressão de 1929, em 1990 e em 2001, e ainda em 2008. Mas neste ano foi o consumo de nail art e dos vernizes que aumentou exponencialmente. Sílvia Freitas justifica este comportamento com a necessidade de abstracção das sensações de confusão, medo, ansiedade, pressão psicológica, tédio e frustração, sentimentos esses que tendem a prevalecer nos estados de quarentena. "O aumento do consumo e dos investimentos materiais do agrado próprio, tendem a funcionar, para algumas pessoas, como estratégias de descentração e permitem pensar num futuro atrativo, onde antigos hábitos retornam e colocam-nos distantes da sensação de angústia coletiva, dos medos e da imprevisibilidade da realidade vivenciada."

A psicóloga acrescenta que é esperado que surjam estados de ansiedade e desconforto por sentirmos que estamos a viver uma situação de ameaça, mas que é possível reduzir as emoções negativas. "Devemos concentrar-nos no que nos dá uma maior sensação de controlo e de segurança, tentando manter uma atitude positiva e tranquila, dentro do possível e recordando-se que o estado de pânico não nos traz nenhum benefício.

Podemos adoptar várias medidas que nos podem auxiliar. A limitação das notícias; organizar o dia a dia com um plano de rotinas e tarefas pessoais, desde os cuidados com a saúde física como: a alimentação, higiene e sono; manter o funcionamento profissional, nomeadamente na realização de teletrabalho; manter-se ativo e realizar atividades, como o exercício físico, a lida da casa, ver um filme, atividades prazerosas, tanto individualmente como em conjunto." E sim, colocar uma roupa confortável mas que goste de ver ao espelho, experimentar uma cor de batom nova e quem sabe arriscar num novo smokey eye. Porque no final do dia, o mais importante que podemos usar dentro ou fora de casa, será sempre a confiança.

 

 

 

 

 

 

Tags: economia indústria beleza pequenos luxos aumento maquilhagem autoconfiança
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