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"Pensamos em likes, comentários e partilhas como reflexo da nossa relevância, interesse, piada, beleza"

Quem o diz é Sarah Frier, jornalista norte-americana, que escreveu um livro sobre a popular rede social. Em entrevista à Máxima, a autora explica como não é possível existir online sem filtros e qual a pergunta que faria a Mark Zuckerberg.

Foto: D.R.
29 de julho de 2021 | Joana Moreira

Ainda se lembra do mundo antes do Instagram? Na verdade, não é preciso recuar muito no tempo, mas a aplicação faz já de tal forma parte das nossas vidas que é pelo menos necessário fazer um exercício de memória para pensar no que fazíamos com as horas (ou, a ser otimistas, minutos) que passamos em frente ao ecrã do smartphone a fazer scroll por publicações e histórias.

Sarah Frier, jornalista da Bloomberg há muito dedicada a olhar com especial atenção para o microcosmo de Silicon Valley, lançou em 2020 um livro sobre a aplicação. Sem Filtro — como o Instagram transformou os negócios, os influenciadores e a sociedade, acaba de chegar às livrarias portuguesas, editado pelo Clube do Autor. À Máxima, via Zoom, Frier fala sobre as surpresas da investigação e da importância da consciência do lado negativo da aplicação.  

Sendo jornalista de tecnologia, e reportando sobre redes sociais todos os dias, o que é que fez do Instagram um tópico cativante para escrever um livro?

Acho que o Instagram teve este efeito tremendo na nossa cultura, na nossa sociedade, e na nossa perceção de nós mesmos. Enquanto jornalista de tecnologia, nós coletivamente não estávamos a fazer perguntas suficientes sobre a aplicação e o seu poder. A empresa quando foi comprada pelo Facebook tornou-se ainda mais um mistério. As pessoas não estavam a pensar sobre ela numa perspetiva de negócio. Acho que esta história do que acontece dentro da empresa que depois nos afeta a todos é tão fascinante e um território que nenhum jornalista tinha entrado antes. Por isso achei que era algo que, mais do que acrescentar ao jornalismo que eu já fazia, podia dar um livro inteiro. 

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A autora do livro, Sarah Frier
A autora do livro, Sarah Frier Foto: D.R.

O que é que a surpreendeu mais no processo?

Fiquei muito surpreendida com o poder que o Instagram tem com o tipo de conteúdo que se torna popular e mesmo com as pessoas que se tornam populares. Por escrever sobre redes sociais durante anos, sempre vi o Facebook e o Twitter a dizer ‘nós somos neutros, nós não escolhemos lados na nossa plataforma, somos só um reflexo da humanidade’. Bem, o Instagram está a tentar moldar os nossos gostos e quem nós achamos que é cool. Isso para mim foi muito interessante de ouvir nos bastidores. Outra coisa que me surpreendeu que eu não sabia antes de começar a escavar informação para o livro é que todos pensávamos no Instagram como esta empresa feliz e independente dentro do Facebook. O facto de o Facebook ter comprado o Instagram e o ter mantido separado foi um dos motivos que encorajou os fundadores do Whatsapp [a vender]. Porque pensavam que era assim que o Facebook fazia, que podiam vender a empresa, mas ter toda a infraestrutura do Facebook e nenhum do risco. Soa ótimo. Mas a realidade era tão diferente da história que nos era contada... Fiquei chocada com o facto de Zuckerberg estar a bloquear o Instagram de crescer, com a inveja e a paranoia de uma empresa que ele comprou se tornar competição. Parecia irracional (risos). Ele tem esta reputação de ser esta pessoa super focada nos dados, que só toma decisões que fazem sentido de um ponto de vista económico ou do utilizador, que dá às pessoas o que elas querem. Bem, não é verdade. Ele quer que as pessoas usem o Facebook, não quer que usem o Instagram tanto como o Facebook.

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Acho que o Instagram passou de ser um espaço para criativos para ser um sítio que serve os propósitos de negócio do Facebook. Já os vimos lançar concorrentes do TikTok, concorrentes do Youtube. Há toda esta incursão no shopping. Todas estas coisas que o Instagram está a fazer que complicam [a aplicação]. Se se lembra do início do livro, era muito importante, na perspetiva dos fundadores, que quando as pessoas fossem ao Instagram fosse simples. Sabiam o que era suposto fazer ali. Agora quando vamos ao Instagram, especialmente se for um novo utilizador, é confuso. Há tantas coisas, IGTV, Reels, destaques, histórias, shopping... Tornou-se esta ferramenta para o Facebook se tentar tornar culturalmente relevante entre utilizadores. Se pensarmos em desenhar um produto de acordo com o que as pessoas querem, numa perspetiva de negócio, olhando para a concorrência, isso não é tão poderoso como desenhar um produto com base no que as pessoas querem do produto. Para mim, [o Instagram] parece um sítio que está a perder um bocadinho a sua identidade.

Há cada vez mais estudos sobre o impacto do Instagram na saúde mental e na ansiedade. O efeito negativo do Instagram suplanta os benefícios da aplicação?

Acho que é algo que faz com que perceber o que acontece nos bastidores seja muito importante. Precisamos de perceber de que forma é que esta plataforma é construída e que tipos de incentivos é que nos dá. Porque se não entendermos isso estamos a permitir que nos manipule. Se aprenderem num livro como o meu sobre o design do Instagram, porque é que fazem com que o "gosto" conte, e os comentários, e como isso não é feito ao serviço de saber quão amados somos, mas sim para que nos liguemos ainda mais à aplicação, então podemos deixar de ser tão obcecados com essas métricas. Acho que isso é muito importante. Tantas vezes pensamos em likes, comentários e partilhas como reflexo da nossa relevância, interesse, piada, beleza. E na realidade essas métricas não refletem isso de todo. Só refletem se criamos conteúdo que funciona no Instagram.

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Depende como o usamos. O problema é que o Instagram, tal como o Facebook, tem se focado em ter mais e mais pessoas a usá-lo. Sem pensar em servir essas pessoas bem e se o que elas estão a fazer no Instagram é bom e saudável. Acho que é um produto muito poderoso e tem muitos problemas, mas também tem muitas coisas boas. Quando estive em Portugal, estava no bar Red Frog e falava com o empregado de bar. Ele contava-me como usava o Instagram para aprender sobre cocktail design em todo o mundo, com pessoas no Brasil, em São Francisco, em Hong Kong, partilhavam ideias e juntavam-se às vezes. Quando pensamos nos aspetos positivos do Instagram são estas comunidades de criativos que se criaram. É um espaço em que podes partilhar interesses com pessoas que poderias não encontrar de outra forma na tua comunidade. Contudo, vemos que há massivamente adolescentes que usam o Instagram para se comparar e dizer: porque é que não estou a receber a quantidade de feedback que esta pessoa está a receber? Porque é que eu não tenho tantos amigos como esta pessoa? E estão a olhar para essas métricas e a pensar nelas como reflexo sobre se elas são membros úteis do mundo. E isso é muito negativo. É algo que esta mentalidade de crescer a todo o custo, de que falo no livro, nos ensinou a perseguir. Ensinou-nos a todos que quanto mais seguidores temos, mais likes temos, mais comentários temos, melhores somos. E isso não é verdade. E isso é muito poderoso e problemático.

"[O Instagram] ensinou-nos a todos que quanto mais seguidores temos, mais likes temos, mais comentários temos, melhores somos. E isso não é verdade."

Durante a pesquisa para este livro houve alguma história que quisesse partilhar e que não pudesse por algum motivo?

Ui, muitas. Não sei se posso dizer (risos). Havia um rumor que ouvi que na cena em que Ivanka Trump e Joshua Kushner estão a ajudar a equipa do Instagram a festejar em Las Vegas. Estão todos envergonhados pelo bolo e os óculos de sol, e as t-shirts, porque não são pessoas de festas. Ouvi dizer que também havia um pónei que tinha o pelo a dizer "one billion" de lado, mas não consegui confirmar por isso não pude pôr no livro (risos).

No início do livro deixa claro que não conseguiu que Mark Zuckerberg falasse consigo. Qual teria sido a sua primeira pergunta para o criador do Facebook?

Queria saber porque é que ele fez o que fez, no final do dia. Queria saber se é mais importante que o Facebook, a sua primeira rede social, seja a principal coisa que as pessoas visitam. E se sim, se ele acha que isso não é ir contra aquilo que os utilizadores querem. Porque é que ele sentiu que tinha de ter o controlo?

O livro chama-se Sem filtros. É possível existirmos "sem filtros" no Instagram ou mesmo online?

Não. A internet está a treinar-nos com cada post que fazemos. Quer nos consideremos criadores de conteúdo ou influencers, quer nós achemos que nos importamos ou não, de cada vez que colocamos conteúdo no Instagram nós recebemos feedback. E esse feedback ensina-nos o que funcionaria melhor da próxima vez. Por isso temos esta consciência. Cada jovem no mundo sabe o que funciona e o que não para ter atenção online. Podem dizer que não querem saber ou que não pensam dessa forma, mas cada vez que publicamos essencialmente recebemos uma avaliação. E isso é muito difícil de ignorar.

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