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Sofia Ribeiro (Lince): “Neste disco, deixo-me ser eu”

A artista volta a transformar-se em Lince para lançar um disco de canções algures entre a melancolia e a vontade de viver com intensidade. Conversámos com Sofia Ribeiro antes dos concertos de apresentação no Porto e em Lisboa.

18 de outubro de 2018 | Rita Silva Avelar

Todos temos um sonho de criança. Em pequena o que é que a Sofia sonhava ser?

Não me lembro de querer ser nada afincadamente, nem durante muito tempo. Como a minha mãe era professora, acho que tive essa vontade e, como eu tinha aulas de ballet, desejei ser bailarina. Sei que a vontade de estar em palco sempre esteve presente.

Cresceu a ouvir música? A quem bebia (e bebe) inspiração?

Não cresci a ouvir muita música. A música que ouvia mais eram bailados ou outras peças clássicas que estavam ligadas ao ballet. Só na adolescência, por influência de amigos, comecei a ouvir mais música.

Recebo influências dos mais variados sítios, desde obras clássicas, de Beethoven ou Debussy, por exemplo, a coisas mais eletrónicas, pop e alternativas, como Sufjan Stevens, Radiohead ou James Blake. Mas a minha inspiração vem mais de momentos ou pessoas com quem me cruzo na vida.

Lembra-se de começar a compor? Como nascem as letras das suas músicas?

Lembro-me de ter ideias na cabeça e querer materializá-las. Lembro-me de começar a tocar piano por causa dessa vontade.

As letras surgem quase sempre no momento da composição. Há um sentimento à volta da composição que é traduzido com palavras ou expressões e que mais tarde são desenvolvidas para a letra da música.

Depois começou a juntar-lhes a voz. Foi aí que percebeu que queria tornar-se profissional?

A voz surgiu antes da composição ou de outro instrumento. Desde pequena que canto e gosto de cantar e esse gosto cresceu para se tornar algo mais abrangente. A vontade de compor e a necessidade de tocar um instrumento.

A profissionalização surgiu com este crescimento, quando comecei a criar as minhas músicas e a partilhá-las com o público.

O que nunca pode faltar num concerto?

Sentir que o artista está conectado com o público. Partilha.

Com quem partilharia um palco? E a quem cantaria num disco de homenagem?

Partilharia o palco com o Sufjan Stevens, de certeza. Cantaria um disco de homenagem a Radiohead.

O EP Drops foi a carta de apresentação de Lince. Porquê este nome artístico, Lince, e o que quis dizer ao mundo este primeiro trabalho?

Eu não queria que o meu projeto tivesse o meu nome. Queria que Lince fosse uma extensão de mim, uma parte da Sofia.

O nome surgiu quando, depois de bastante tempo à procura de algo que pudesse definir a minha música, aconteceu uma coincidência interessante. Este nome foi-me sugerido por um amigo e, há uns anos, o mesmo nome tinha sido sugerido por uma outra pessoa, num contexto completamente diferente. Decidi que era esse.

O primeiro EP surgiu de um conjunto de canções que eu andei a compor nos anos que o antecederam. Foi um momento de mudanças fortes na minha vida. Estava a crescer enquanto música e a aprender imenso com as pessoas com quem me ia cruzando. Nunca foi muito fácil para mim partilhar o que fazia, pelo meu lado reservado, mas nessa altura senti que já havia maturidade e consistência suficiente no trabalho para o fazer. O EP significou esse momento, essa chegada.

It Feels Like Looking At Sculptures, o primeiro single de Hold To Gold, traz-nos uma nova sonoridade e uma vontade de arriscar. Porquê este nome e de onde surgiu a inspiração para a composição das músicas?

As minhas músicas vêm quase sempre de um mesmo lugar. Eu componho sozinha e elas surgem da vontade de falar de episódios ou de sensações ou de emoções que vivo e sinto. São histórias pessoais.

Neste novo disco, vivi outra fase da minha vida. As músicas retratam isso. Essa vontade de arriscar, de ser independente e de mostrar o que verdadeiramente senti nesta fase. O nome Hold To Gold, que é também um dos temas do disco, vem da ideia de nos agarrarmos ao que é essencial na vida. Ao que é precioso. Seja isso o que for para cada um de nós. Para mim, é eu sentir que a vida passa fugazmente e que precisamos que dar tempo ao que verdadeiramente importa, às pessoas que estão connosco, àquilo que nos faz felizes e viver esses momentos com intensidade.

Neste disco, deixo-me ser eu em linguagens distintas, em personagens diferentes que me definem.

Qual é a música mais intensa deste novo álbum?

Talvez a que dá nome ao disco, Hold To Gold. É aquela que me dá sempre um arrepio quando ouço. Tem um início intenso e com um quê de depressivo ou melancólico, mas que se transforma em algo com muita força e vontade. Tem uma evolução intensa, forte.

Que sonhos estão ainda por cumprir a nível profissional?

Muita coisa por cumprir ainda. Não há nada que eu diga que tenho de fazer antes de morrer, mas sinto que quero chegar a muitos sítios, cruzar-me com muitas pessoas e tenho vontade de descobrir Lince daqui a uns anos. De saber onde estará e como será.

No panorama musical nacional, quais são os maiores desafios em ser-se artista?

Os desafios residem essencialmente no facto de estarmos num país pequeno. Não haver muito por onde possamos andar, face ao número crescente de artistas a apresentarem boas propostas. É um caminho que leva o seu tempo a construir.

Como mulher, alguma vez sentiu a desigualdade de género nesta indústria?

Não. Felizmente nunca senti que tivesse tido um tratamento diferente em alguma ocasião por ser mulher. É, de facto, um meio onde ainda há mais homens, mas aos poucos todos vão ganhando o seu espaço. 

As mulheres têm hoje mais voz do que nunca nesta e noutras áreas ou ainda há um longo caminho pela frente?

Sim, mas ainda há um caminho a percorrer. Penso que o facto de as mulheres ainda não estarem fortemente presentes nesta área se deve à nossa cultura, ainda recente, de mantermos as mulheres longe de exposição e sem poderem manifestar vontades ou opiniões independentes de outra pessoa. Quebrar essa tradição leva o seu tempo, mas acho que estamos numa fase, felizmente, em que isso tende a mudar rapidamente. Eu consigo pensar em muitas mulheres no mundo da música portuguesa atualmente.

Que concertos se esperam da Lince até ao fim do ano?

Para já, os concertos de apresentação de Hold To Gold. A começar no Porto [esta quinta, 18 de outubro] e em Lisboa [esta sexta, 19] e depois a chegar a muitos outros pontos do país.

Capa do disco "Hold To Gold"
Foto: Hugo Domingues
1 de 3 Capa do disco "Hold To Gold"
It Feels Like Looking At Sculptures, o primeiro single de Hold To Gold;
Foto: Hugo Domingues
2 de 3 It Feels Like Looking At Sculptures, o primeiro single de Hold To Gold;
Foto: Hugo Domingues
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