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O fim do romantismo ou algumas verdades (desconfortáveis) sobre o amor

"Resumindo: eles já não nos escolhem para dançar no baile, não fazem serenatas debaixo da nossa janela ou escrevem cartas ou canções de amor - o trabalho todo parece sobrar, mais uma vez, para nós."

Julia Roberts e Richard Gere na comédia romântica 'Pretty Woman', 1990.
Julia Roberts e Richard Gere na comédia romântica 'Pretty Woman', 1990. Foto: Getty Images
15 de fevereiro de 2021 | Patrícia Barnabé

A vida põe-nos constantemente perante perplexidades e o amor é a maior de todas. Os psicólogos dizem ser o mais desafiante objecto de estudo, mas a observação social é um manancial interminável. As relações espelham muito da evolução de mentalidades, ou o seu contrário. E se o Dia nos Namorados o pinta de cor de rosa e enche de corações, a verdade é que nem tudo são rosas.

Para quem cresceu entre contos de fadas, romances e os clichés das comédias românticas americanas, alguns moralistas outros apenas ingénuos, muito teve de desbravar. Fomos afunilados na imagem da família como o reduto único e último do amor. Quando, como escreve Tolstoi em Anna Karenina: "As famílias felizes são todas iguais". A família é adorável, a começar pela minha, mas a pressão social do modelo único esmagou os sonhos de muitas meninas - hoje sabemos que a família pode ser tantas, muitas, outras coisas. Claro que foi uma decepção perceber que não existem príncipes encantados, estava-se mesmo a ver, ou que os finais nem sempre são felizes. E agora que perdemos Christopher Plummer, o capitão Von Trapp de Música no Coração, o melhor é assumir que o romantismo foi vencido pela evidência.

Outra mentira que nos contaram foi que o amor tudo supera. O capitão Von Trapp ficou com a noviça Maria, mas não só ela era consideravelmente mais nova do que ele (um clássico quando eles chegam aos 40) como era muito prendada e sacrificial (outro clássico). E se ela fosse mais velha e escritora, por exemplo? E as suas origens humildes não pesaram na escolha porque é um filme; na vida real, os remediados casam com remediados e só ascendem socialmente se forem talentosos o suficiente para ganhar um status que compense. Um exemplo? Um bom actor casa com uma menina de família. De uma maneira geral, mais do que a inteligência, o carisma ou até a química, o nome e a fazenda valem sempre. Na verdade, só se começou a casar por amor no século XX, o que lançou a confusão numa instituição que, como todas, se quer à prova de bala. Mas foi quando se tornou interessante.

A magia primordial do encontro inescapável é para adolescentes? Sim e não. Mas é verdade que vamos desistindo pelo caminho: embrulhamos o amor num plano de vida, tornando-o funcional. A maioria faz uma lista mental de requisitos para encaixar um par – principalmente as raparigas que, como diz um amigo meu, "têm um plano" – que por sua vez tem de encaixar no modelo social vigente. O mesmo que se emoldura e pousa no móvel da sala sobre o naperon. Como fizeram os pais, e os pais antes deles. Tirando os raros, os que provam que o amor existe, os casais sobrevivem à custa de trabalho e cedência mútua, o que também é bonito, mas pode tornar-se muito pouco sexy. Sou só eu que detesta a expressão: "Este é o meu companheiro"?

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A boa notícia é que as novas gerações estão a sacudir isto tudo. A má é que o boy meets girl é, afinal, um girl meets boy. Elas parecem esforçar-se muito mais do que eles, e são as que mais aturam, aguentam e perdoam. Como sempre, como dantes. Para as mulheres, disse-me uma psicóloga de casais em entrevista, o amor é mais central e definidor, por questões históricas e sociais. Não há muito tempo, as elas definiam-se pelo homem que ‘conseguiam’ arranjar - e pela urgência de construir um lar. Ser solteirona é diferente de ser solteirão. Depois há a urgência dos filhos que leva a estratagemas ancestrais de sedução e enganos de que não vamos falar aqui agora. Mas quando o amor falha, são mais mulheres a considerar que a sua vida falhou. Eles são menos exigentes na escolha do par e mais preguiçosos nas relações, crianças mimadas pelo patriarcado, muitas vezes deixam-se amar e acomodam-se. E se tiverem um palmo de cara ou algum status depressa têm a seu lado um atento cão de guarda ou uma alcateia de pretendentes que não largam o osso. A mesma psicóloga diz que as mulheres são mais capazes de ‘loucuras’ por amor do que os homens; assim como eles são os primeiros a desistir se uma relação lhes parece dar trabalho - mesmo que ela seja do caraças.

Foram os rapazes que me ensinaram isto tudo: os amigos, porque cresci maria-rapaz, e os namorados mais ou menos consequentes. Felizmente existem os que fogem a sete pés da banalidade, o mundo evolui - mas a maioria não topa da missa a metade. São séculos e séculos a relaxarem um músculo que elas treinaram exemplarmente: se eles mandavam na rua, elas mandavam em casa. Uma vez um amigo meu, que até calha ser giro, disse-me: "Pat, já nem consigo seduzir, para qualquer lado que me vire há sempre uma miúda disponível!" Rimo-nos muito, mas não tem graça nenhuma para as poucas que nunca quiseram jogar esse jogo.

Resumindo: eles já não nos escolhem para dançar no baile, já nem existem bailes, não fazem serenatas debaixo da nossa janela ou escrevem cartas ou canções de amor - o trabalho todo parece sobrar, mais uma vez, para nós. Não paramos de acumular funções desde que começámos a votar e, sem dar por isso, tornámo-nos nas nossas piores inimigas. Vêem-se mais mulheres a competir pelo macho, do que homens a competir pela fêmea como sempre foi costume no reino animal.

Outra coisa que aprendi, a mais importante e sensacional, é que não existe um amor da vida ou para vida, embora existam pessoas maiores ou que mexem mais connosco - valha-nos essa verdade. A austríaca Marie von Ebner-Eschenbach diz existirem "mais mentes educáveis que corações educáveis" – e há os que escapam às malhas do socialmente correcto. Assim, os amores sucedem-se com a cadência da sorte e do desencontro e trazem-nos camadas diferentes de magia e quotidiano. É a experiência humana que mais nos devolve o que somos, as nossas forças e as nossas fragilidades, as grandezas e as manias – faz-nos crescer. Se sobrevivermos à pandemia, que tem sido um bom exercício de humildade e geografia emocional, será que a ideia de Apocalipse nos devolverá o romantismo depois da era descartável das redes sociais? Se o mundo precisa de heróis, o amor precisa ainda mais – e merece mais liberdade, dedicação, respeito, ombro a ombro como deve de ser. Merece que o tratemos melhor.

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*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.

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