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Carla Chambel: Emoções à flor da pele

Movida por uma vontade interior de tocar os outros, fez-se atriz. Cinema, novelas e teatro, a cada projeto entrega-se a cem por cento. Vamos vê-la na grande tela assumindo um papel duro em Quarta Divisão, de Joaquim Leitão.

19 de março de 2013

Logo que apareceu em palco, distinguiu-se pela força do talento e assim a recebeu o aplauso do público e da crítica. Estreou com Marivaux em 1995 e um ano depois continuou com Shakespeare, iniciada pelo encenador João Perry na arte do teatro clássico, depois de acabados os estudos no Conservatório. Teve êxito como atriz de telenovelas e nos bastidores de Laços de Sangue, dirigindo atores. Em teatro, os seus últimos espetáculos foram Amadeus, de Peter Shaffer, no Teatro Nacional, e Juramentos Indiscretos, de Marivaux, que esteve no Porto e daqui a um ano vem para o Teatro Nacional. No cinema, surpreende no filme de Joaquim Leitão, Quarta Divisão, assumindo um corajoso papel. Casada e mãe de um filho, é uma mulher feliz na lucidez com que encara a realidade dos nossos tempos. 

Que diferenças há entre o passado e o presente, desde que começou?
Há uns anos atrás o meio era mais pequeno, hoje o meio artístico alargou-se bastante. No final dos anos 90, o boom da produção de ficção coincidiu com os novos canais privados de televisão, que investiram na sua própria produção. Isso foi bom, foi um mar de oportunidades que se abriu para nós.
Quando comecei, em 1992-1993, ainda se estava muito na fase em que os pais tinham receio pelas filhas que pudessem escolher esta profissão, por causa da instabilidade, da má fama do meio. Sonhavam ter filhos doutores ou engenheiros, com melhores condições de vida. Os meus pais queriam que eu tivesse um curso. Fiz o Conservatório, ao princípio desconhecia a área onde estava integrada, não tinha acesso a esse conhecimento.

CONSELHOS
Carla Chambel cita dois grandes atores:

Fernanda Montenegro
1. Desistam
2. Se querem fama, vão-se embora
3. Se adoecerem por não representar, voltem

Ruy de Carvalho
Falar "picadinho, picadinho, sem deixar cair os finais".
Porque queria ser atriz?
Era um misto entre querer usar muitos vestidos e uma vontade interior de tocar os outros, era saber que tinha algo para dar aos outros e que queria demonstrá-lo. Não sei bem explicar esse sentimento, que ia contra a minha modéstia. Sou reflexiva, mais virada para dentro do que para o exterior. Questiono-me muitas vezes sobre as coisas, sempre tive uma luta interior sobre aquilo que quero, que tenho vontade de fazer, e aquilo que parece bem ser feito. Talvez o teatro ou a representação me permitam resolver isso sem me sentir ridícula. Se eu me expuser em palco, não me importo.

Depois de fazer dois papéis importantes em teatro, aparece agora no cinema. Quer falar sobre o seu trabalho em Quarta Divisão?
A 4.ª Divisão é uma das sete divisões da PSP em Lisboa, fica no Largo do Calvário. O filme passa-se numa esquadra, o tema é o desaparecimento de uma criança, o comandante da esquadra é o Adriano Luz e eu faço uma subcomissária de polícia, encarregada de acompanhar o caso e de atuar.

Como compôs o papel?
Não acompanhei uma Brigada, não estive no ativo. Mas tive ajuda do comandante Carlos Resende que está à frente das BIC, Brigadas de Investigação Criminal, que acompanhou o filme, desde do guião até às rodagens. Quando falámos, ele tinha muitas histórias para contar, impressionou-me muito imaginar que aqueles polícias vivem 24 horas em alerta máximo, a partir do momento em que têm aquela formação. Não usam farda, andam à paisana. Infiltram-se nos meios, são atores, mascaram-se e desempenham um papel junto de quem estão a investigar. Não se desligam da realidade, mas mergulham numa identidade diferente.

Esta personagem é oposta à sua própria maneira de ser. 
Foi um momento difícil, não pelas situações em si, porque tenho sempre consciência daquilo que estou a fazer, mas pelo confronto interior que me provocou. Faço uma personagem dura, com uma visão prática da vida, com um domínio muito forte sobre as emoções, em quem a agressividade surge naturalmente. Eu não sou agressiva, sou emocional.

 

 

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O Joaquim Leitão ajudou-a nesse processo?
O Joaquim obrigou-me a sair da zona de conforto e a fazer o trabalho em vários níveis. Corrigia-me em cada cena e era sempre generoso na partilha das imagens. Não é comum os realizadores mostrarem as imagens filmadas aos atores.

Também houve um trabalho de preparação física?
Esse foi um grande trabalho, em que tive uma PT [Personal Trainer] num treino vocacionado para ser uma atleta. Foram dois meses e meio intensivos. Além disso, tinha de estar encorpada, num filme de ação como este. Treinei luta com um armeiro cinematográfico, formado na escola da PSP, que me pôs no terreno, aprendi a empunhar armas, a fazer detenções. Há três armeiros cinematográficos em Portugal. O meu é especialista no tempo depois da Segunda Guerra e há um casal que trabalha no tempo anterior à Segunda Guerra.

O ambiente das filmagens compensou a dureza das situações?
Sim. O mais importante foi a equipa que o Joaquim escolheu. Éramos seis na Brigada. Tivemos a cumplicidade que um ator ou uma atriz deseja encontrar nos trabalhos. Parecia que nos conhecíamos há muitos anos, quando lá estávamos uns com os outros.

DESTEMIDA
Ao escolher ser atriz, Carla Chambel aprendeu a conviver com a instabilidade, mas não deixa de ser uma mulher positiva.

Mas as amizades são passageiras.
Aprendi logo a lição, na primeira vez que me aconteceu. Eu estava feliz, muito entusiasmada, num grupo que parecia ficar junto para sempre. Um tempo depois, encontrei uma pessoa desse grupo. “Olá, estás boa?” Deu-me dois beijinhos, sem mais. Fiquei tristíssima. Hoje estou a cem por cento em cada projeto, mas quando acaba, fecho a porta. A seguir começa outro projeto. Sobram alguns amigos, que ficam.

Parece ser uma mulher feliz. É verdade?
Há 12 anos tenho um namorado que é o meu marido; não é do meio e isso ajuda, abre-nos os horizontes, não ficamos fechados a falar da mesma coisa. Tenho uma profunda ligação com a minha infância. Cresci metade na cidade e metade no campo e tenho amigos da Amadora, onde vivi, e de uma aldeia, perto de Sintra, onde ia aos fins de semana. Dessa aldeia tenho grandes memórias e mantenho amizades, daquelas que sabemos que estão sempre lá. Tenho ligação à escola primária, à minha professora. Tenho alguns colegas dessa fase feliz da minha vida. Tenho os avós. Talvez os tivesse deixado um pouco por estar mergulhada na minha profissão. Agora voltei. Nasceu o meu filho, aproximei-me de todos.

Consegue conciliar o trabalho criativo com a realidade, encarar a vida de todos os dias?
Tenho a sorte de ter uma estrutura familiar sólida. O Miguel, meu marido, é incansável, dividimos os trabalhos em casa. Ele cozinha e eu tomo conta da roupa e das compras. Os meus sogros ajudam-me muito, têm sido como pais para mim, não há palavras para lhes agradecer.

"a partir do momento em que decidi ser atriz, apercebi-me de que as coisas não são para sempre"

O desenho das personagens muda conforme o encenador?
Todos os encenadores são diferentes. O João Mota fez-me amá-lo e odiá-lo com intensidade. É de extremos, quase brinca com a nossa sensibilidade, e com isso dá-nos um prazer imenso. O João Lourenço mantinha sempre um certo distanciamento, alguma frieza com o grupo e houve um dia em que lhe perguntei se foi ele que fez a voz do Dartacão, uma série da nossa infância que foi referência nos anos 80. O sorriso que ele abriu, o que contou sobre a experiência, sobre os outros atores. O Carlos Avilez é um senhor de uma grande delicadeza. Não fala muito alto, tem um tom que chega às pessoas, fala com cada ator pessoalmente, faz um trabalho de proximidade.

Para acabar, naturalmente pergunto-lhe como vai atravessando estes tempos difíceis. Que projetos tem?
Entre 2005 e 2008 trabalhei intensamente na SIC. Foram três anos estáveis, profissionalmente. Sou uma mulher positiva, nunca me projetei no futuro, e a partir do momento em que decidi ser atriz, apercebi-me de que as coisas não são para sempre. Tenho vivido sempre com esse sentimento, aprendi a conviver diariamente com a instabilidade. Talvez este seja o primeiro ano em que sinto o medo real. Talvez por ter um filho, por ter mais responsabilidade. Em termos de projetos de trabalho o ano vai ser difícil. Talvez o próprio sistema precise de uma reforma. A dependência dos subsídios do Estado não é perfeita, felizmente tenho outras fontes de rendimento, faço locuções de publicidade.

 

Fotografia: Pedro Ferreira
Assistente de fotografia: Ana Viegas
Realização: Helena Assédio Maltez
Assistentes de realização: Joana Lestouquet e Marina Sousa
Maquilhagem: Sónia Pessoa
Cabelos: Helena Vaz Pereira, assistida por Pini, para Griffehairstyle, com produtos L'Oréal Professionel

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Vestido plissado em musselina de seda estampada, BCBGMAXAZRIA.
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Carla Chambel: Emoções à flor da pele
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