Atual

Beleza e fealdade não têm de ser antónimos

Fotografia de Rui Aguiar. Realização de Maria A. Ruiva. Edição 320 da Máxima [julho de 2019].
Fotografia de Rui Aguiar. Realização de Maria A. Ruiva. Edição 320 da Máxima [julho de 2019].
31 de julho de 2020 | Cláudia Lucas Chéu

Escolhi como título desta rubrica, que irei escrever mensalmente aqui na nova Máxima, o título de um filme dos anos 60, do realizador Billy Wilder— A Flor do Cacto (a comédia que revelou a actriz Ingrid Bergman, num papel como nunca antes a tinham visto). A célebre atriz sueca, que sempre foi considerada para personagens intensas e dramáticas, surge-nos airosa neste filme e com imensa graça e leveza.

Achei que seria um bom mote para estas crónicas — observar o pormenor agradável e surpreendente que surge onde menos esperamos, valorizar a beleza e a leveza na truculência dos dias, e ir além do óbvio. Claro que irei versar temas como as questões de género, o feminismo, a maternidade e a sexualidade, entre outros, que não se coadunam muitas vezes com a agradabilidade à primeira vista. Mas é precisamente aí que residirá o desafio: convocar-me e convocar-vos a descobrir o lado melífluo que até os limões podem ter. Sempre com uma certa irreverência provocatória, claro, porque penso que é algo que caracteriza as ideias que me surgem e que me interessam.

Por exemplo, comecemos com um tema antigo e controverso – beleza e fealdade são contrários? O crítico de design e comentador de cultura Stephen Bayley escreveu no livro Ugly: The Aesthetics of Everything (publicado em 2012): "a fealdade nasce do que vemos como agressivo. A palavra inglesa vem do nórdico antigo 'uggligr', que significa violento. Coisas feias são habitualmente aquelas que consideramos perturbadoras, mas muitas vezes também costumam ser interessantes." Assim sendo, será a beleza aquilo que não contém violência? Não me parece que, neste caso, consigamos clarificar estes conceitos confrontando-os com aquilo que são, aparentemente, os seus contrários.

Um dos estudos mais interessantes sobre este assunto foi escrito por Umberto Eco. No seu livro História do Feio, o escritor e semiólogo faz uma romaria em quinze capítulos pelo universo da fealdade, de uma forma empírica e teórica. Trata-se de um extenso inventário daquilo que consideramos feio, de uma forma consensual, associando-o a conceitos como desarmonia e assimetria, deformação e astenia, grosseiro e grotesco, horrível e repulsivo. É uma história que serve para mapear os sentidos, e onde encontrarmos excertos de Rabelais, dos Manifestos do Surrealismo de André Breton, até chegarmos a exemplos contemporâneos do séc. XX com a descrição da morte grotesca de um inimigo de James Bond.  


Ao longo dos séculos, o feio foi sempre justificado por algum motivo, até por motivos religiosos — o feio também era obra de Deus. Hoje em dia, as mulheres pintadas por Rubens teriam a sua beleza posta em causa por causa da imensa celulite, mas naquela época eram consideradas belas. Por isso, beleza e fealdade não têm de ser antónimos. A flor de um cacto, por exemplo, muitas vezes só se encontra depois de longas e extenuantes caminhadas pelo deserto da uniformização do pensamento. E o cacto pode nem ter flor, o cacto pode ser a flor. 

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

Saiba mais Cláudia Lucas Chéu, A Flor do Cacto, Crónica, Atualidade, Debates, Temas, Conversas, Feminismo, Sexualidade, Ingrid Bergman
Mais Lidas
Realeza As amantes da vida de Juan Carlos

Num momento de especulação sobre o seu paradeiro, e após informar a casa real espanhola do seu afastamento, voltam a surgir as histórias da vida de um rei que nunca gostou de ser discreto.