Atual

Amor, essa linguagem universal

“Não se ama alguém que não ouve a mesma canção” cantava Rui Veloso em plena viragem para os anos 90. Não é ao acaso que continuamos a cantarolar esta metáfora. Terá o amor frequências sonoras diferentes, perdão, linguagens de expressão tão distintas que podem suceder em desencontros fatais? E será essa frequência assim tão difícil de sintonizar?

14 de fevereiro de 2019 | Rita Silva Avelar
"Já ouviste falar na teoria das linguagens do amor?" Tínhamos, eu e uma amiga (igualmente) jornalista, a Mariana, acabado de assistir à peça Teatro, do escritor e encenador francês Pascal Rambert, no Teatro Nacional D. Maria II. Saímos lívidas, eufóricas e extasiadas da brutesca (e sublime) representação de Beatriz Batarda que bradava, à plateia, um monólogo sobre um amor falhado e incompreendido. Talvez de forma inconsciente, a angústia tão bem ensaiada da talentosa atriz tenha deixado nas duas uma vontade de refletir sobre aquilo que de mais complexo, cliché e mundano pode despontar uma conversa num banco de jardim da Avenida da Liberdade, à meia-noite, de um dia de semana. O amor.

Como uma verdadeira millennial, fiel à escassez de tempo comum à sua geração, a Mariana ouvia um podcast a caminho do trabalho quando tropeçou na conversa entre a comediante Jolenta Greenberg e a sua amiga cética Kristen Meinzer (autoras do podcast By the Book, descrito pelas próprias como uma "experiência social selvagem", em que primeiro testam métodos e padrões, e depois falam sobre eles). Depois de me contar como ajudou amigos próximos nas suas relações amorosas (qual Cupido), não resiste, movida pelo entusiasmo que se transforma numa longa conversa, a explicar-me tais linguagens.
 
Falar a mesma língua (ou não)

O tema é intemporal, tal como o amor, apesar de partir do não tão recente livro As Cinco Linguagens do Amor, de Gary Chapman (The Five Languages of Love, 2016). Segundo a teoria deste terapeuta, existem cinco formas predominantes de expressar amor, ou seja, de mostrar ao outro aquilo que para si carrega o verbo amar. Descobrimos, assim, que existem linguagens mais predominantes em cada pessoa, linguagens, essas, que definem os padrões por que esta se rege no que à demonstração de amor diz respeito. Daí os desencontros (Ahhhh! Não lhe apetece respirar de alívio?).

Para quem valoriza tempo de qualidade é sobejamente importante que o outro esteja presente com televisões e wi-fi desligados, seja às cinco horas da manhã ou às seis horas da tarde, desde que a sua atenção e tempo partilhado sejam sinceros. Para estas pessoas, o fundamental é estar quando é, de facto, preciso. Mas há quem valorize de forma primordial o toque físico, tal como receber um abraço inesperado ou andar de mãos dadas na rua, sempre. Ou quem sinta que ser amado é ter do outro ajuda no dia a dia, como ir buscar os filhos à escola ou ir ao supermercado. Ou deixar o almoço previamente cozinhado. Há quem ache essencial receber palavras de apreço que se traduzem em elogios ou em receber frequentemente mensagens com juras de amor e ainda há quem, acima de todas estas coisas, prefira receber presentes, de forma regular, seja um ramo de flores, um postal ou uma carteira.

"O modelo criado por Gary Chapman vai de encontro ao que se tem descoberto de uma forma global nas investigações que incidem sobre o amor e que, de resto, incide sobre a essência do ato de amor. Independentemente da cultura, da educação, da idade e da experiência de vida, existem fatores transversais ao ato de amar e de ser amado. Se afastarmos todas as particularidades inerentes a cada pessoa e despirmos o ato de amar de máscaras e acessórios supérfluos, encontramos o tempo de qualidade, palavras de afeto e de valorização, o toque físico, a partilha e o companheirismo como as bases de um amor saudável", começa por esclarecer Filipa Jardim da Silva, psicoterapeuta e coacher. "O psicólogo John Gottman, que tem estudado milhares de casais nas últimas quatro décadas, tem encontrado evidências que vão no sentido do modelo de Chapman, destacando o desprezo como o fator número um que separa casais e por oposição a bondade e a estabilidade emocional como os mais importantes preditores de satisfação e de equilíbrio numa relação a dois", explica.
 
O peso da infância e da educação

Como se constrói a nossa aprendizagem do amor? Segundo aquela especialista, essa aprendizagem parte das primeiras relações com o outro. "Ao longo do nosso crescimento somos condicionados a questionar-nos sobre nós mesmos. Comparamo-nos a outros e colocamos em causa um conjunto de aspetos fisiológicos, psicológicos e emocionais. Criticamo-nos procurando ser permanentemente melhores, mais fortes, mais atraentes, mais bem-sucedidos, numa tentativa de obtermos aprovação, respeito e amor. Todavia, a relação que estabelecemos connosco mesmos determina o molde em que iremos viver relações com outros, pelo que se o amor que dirigimos a nós próprios é crítico e condicional, o amor que iremos experienciar de outros tenderá a ser idêntico", esclarece a terapeuta, reforçando a importância da infância. "De forma intuitiva e subconsciente procuramos o amor desde que nascemos, nas suas várias formas. Da infância à idade adulta, vamos construindo relações significativas guiadas pelos padrões de ligação familiares. É pela observação da forma como os que nos rodeiam amam e pela experiência de como nos sentimos amados que construímos os nossos primeiros modelos do que é o amor e de como é amar." 

Para Marta Crawford, psicóloga clínica, sexóloga e terapeuta familiar, são estes primeiros modelos que moldam as pessoas, falando da sua própria experiência profissional como terapeuta. "Em consulta, eu ouço muitas vezes dizer: ‘Os meus pais também não eram muito afetivos.’ É uma expressão recorrente em situações em que alguém se queixa que o outro não é muito expressivo fisicamente (…) sem ser no momento em que há sexo. Há uma diferenciação entre o relacionamento do dia a dia em que há toque [físico], em contexto social ou não, e o do momento em que há sexo. Geralmente, a pessoa justifica a falta de competência ou de à-vontade com base nas experiências anteriores em termos afetivos, nomeadamente na relação com os pais ou com os avós (…). As práticas familiares que existiram no nosso crescimento fazem com que tenhamos uma relação com o lado físico mais complicada ou mais descomplicada."
 
Comunicar será sempre a palavra
 
Especialista em temas ligados à intimidade, Marta Crawford ressalva a importância da linguagem do toque físico num relacionamento amoroso, não descurando as outras. A sexualidade, como tantas vezes é dito comummente, importa e muito. "A única forma de se conseguir sintonia na intimidade sexual é termos liberdade para expressar de uma forma clara aquilo que desejamos e não desejamos. Muitas vezes, no início das relações, as pessoas não são completamente honestas no sentido de impor limites ou criar os níveis de aproximação e de intimidade. Em consultório há um exercício que eu faço muito e que se relaciona com liberdade – liberdade de expressão absoluta. O ideal de um relacionamento é que se possa dizer livremente sim ou não, sem isso ser um problema (…). O que eu ensino aos casais em terapia é que o sim e o não valem o mesmo: o sim expressa a vontade clara de que se quer estar com a pessoa em determinado dia; o não também expressa a vontade clara de que em determinado dia não se quer estar com aquela pessoa e isso não é um problema e não significa ‘Eu não gosto de ti’ ou ‘Tu não me atrais’."

De opinião convergente com a das duas especialistas, Ana Cristina Carvalheira, psicóloga, psicoterapeuta e sexóloga e investigadora no ISPA – Instituto Universitário, reforça a primazia da comunicação: "Cada pessoa traz o seu próprio background de experiências diferentes e ao longo da nossa vida desenvolvemos um estilo de linguagem diferente. O mais difícil é a aceitação das diferenças (…) isso obriga a um investimento grande."
 
Os homens são da Terra, as mulheres também
 
Há outro aspeto no que à leitura das expressões do amor diz respeito e pelo qual também não podemos passar ao lado: os estereótipos de género que continuam a baralhar as conceções daquilo que as mulheres querem e daquilo que os homens querem (não será o mesmo: ser felizes?). Recapitulemos. Passaram 27 anos da publicação do livro Os Homens São de Marte, as Mulheres São de Vénus, escrito pelo médico John Gray e apresentado pelo próprio como "um guia prático para melhorar a comunicação e conseguir o que se quer nos relacionamentos". Ou "um manual para relações amorosas nos anos noventa". Hoje, este livro não poderia estar mais desatualizado, nem ser mais bizarro. A pergunta que se impõe não olha a géneros ou décadas, não põe em causa mulheres ou homens, mas sim seres humanos. Não, os homens não "pensam, sentem, percebem, reagem, respondem, amam, precisam e apreciam diferentemente" (citando o livro de Gray). Sim, somos do mesmo planeta. E sim, os nossos cérebros não são assim tão diferentes.

A ideia é explicada no artigo de opinião Podemos Finalmente Deixar de Falar Sobre Cérebros ‘Masculinos’ e ‘Femininos’? (Can We Finally Stop Talking About ‘Male’ and ‘Female’ Brains?) que Daphna Joel, professora de psicologia e neurociência, e Cordelia Fine, professora, psicóloga e filósofa, escreveram para o The New York Times, em dezembro passado. Num dos seus estudos recentes, estas professoras concluíram que "as diferenças entre os sexos que se veem em geral entre os cérebros masculino e feminino não são nitidamente e consistentemente vistas em cérebros individuais. Noutras palavras, os humanos não têm cérebros com características maioritariamente ou exclusivamente ‘típicas femininas’ ou características ‘típicas masculinas’", explicam. "Em vez disso, o que é mais comum em mulheres e homens são cérebros com ‘mosaicos’ de características, alguns deles mais comuns em homens e outros mais comuns em mulheres."

Mas há quem pense que existem diferenças abismais, como a maior parte dos americanos, segundo o artigo Men and Women Say They’re More Different Than Similar, publicado no mesmo jornal americano pela jornalista Claire Cain Miller (especialista em género, família e trabalho e correspondente na secção The Upshot). Baseando-se num estudo levado a cabo pelo Centro de Investigação Pew, de Washington, que conclui (à escala americana) que os homens e as mulheres são diferentes a expressar os seus sentimentos (87% acreditam que sim, 13% que não), Clare explica que os estereótipos ainda estão fortes neste tema. "Os homens são fortes; as mulheres são sentimentais. Os homens providenciam; as mulheres protegem.

Os homens devem responder com um soco quando provocados; as mulheres devem ser fisicamente atraentes." Para Ana Carvalheira, esta realidade está a mudar, ainda que de forma morosa. "As diferenças de género estão a diluir-se numa sociedade com enormes transformações, mas ainda não podemos dizer que a linguagem do amor não tem género. O erotismo feminino e o erotismo masculino aproximam-se cada vez mais. A expressão verbal, um dos cinco tipos de linguagem [segundo o modelo de Chapman], é muito importante a nível sexual para um casal."

Filipa Jardim da Silva explica como funciona o cérebro, do ponto de vista das neurociências: "O cérebro, quando experiencia amor, tem vários químicos presentes, influenciando a forma como cada um de nós vive e perceciona o amor. A oxitocina, por exemplo, é uma hormona responsável pela vinculação materna e comportamentos de proteção maternal, bem como por respostas de excitação sexual. A serotonina, por sua vez, impacta no bem-estar e felicidade experienciados."
 
Um idioma universal

Voltando à teoria que lançou o tema de conversa entre mim e a minha amiga, Filipa explica: "Todas as linguagens do amor são complementares, pelo que mais do que umas serem mais fiéis ao amor do que outras, tenderão a complementar-se entre si. Naturalmente que algumas pessoas poderão privilegiar algumas linguagens na forma como expressam o que sentem ou na maneira como experienciam o amor dos outros. Ainda assim, uma relação saudável e um amor mais completo necessitarão de várias linguagens para se fazer sentir."

Oque é que de mais relevante contribui para esse entendimento saudável, à parte de todos estes fatores? Perguntamos àquela especialista, em jeito de conclusão. "Provavelmente, amar centrados no amor puro, na essência deste sentimento pautado por bondade, tolerância e compromisso, ao invés de investirmos num amor condicional, repleto de expectativas idealizadas e com faturas emitidas ao outro de forma subliminar."

Marta Crawford também termina com uma nota importante: "Todos os casais têm um pouco de todas [as linguagens]. O ideal é que a maior parte dos casais encontre pelo menos uma das formas de expressão que seja o mais próxima possível para que tenham uma em comum. Mesmo que as pessoas sejam diferentes, têm de procurar o seu próprio modelo funcional. Perceber, no fundo, o que é importante." Às vezes, basta escutar a mesma canção. Mas mais importante que isso, contas feitas e linguagens à parte, será escutar o coração. O nosso e o do outro.
1 de 1
Saiba mais Amor, Linguagens, Comportamento, Casal, Saúde, Comunicação, Relacionamentos, Psicologia, Sexualidade, Psicoterapia, Terapeuta, Sexóloga
Relacionadas

"Viver de forma 'slow' é encontrar o nosso próprio ritmo"

Todos os dias somos engolidos por um mar de tarefas e afazeres numa esquizofrenia de vida que nos obriga a viver em modo fast-forward. Como se fôssemos autênticos robôs. Com a máquina a mostrar cada vez mais as suas fraquezas, torna-se urgente parar e res-sintonizar. Afinal, tal como a Natureza, somos seres com ritmos internos próprios que devem ser cumpridos. Será desta que vamos desacelerar e aprender a viver como deve ser? Os especialistas indicam que sim.

Mais Lidas