Atual

Afinal, quão nocivo é o episódio da série Destemidas, para que a RTP o tenha retirado da secção Zig Zag?

Zero - é a resposta certa. A série Destemidas conta com 30 episódios, cada um sobre mulheres audazes e cujas vidas foram um exemplo. O episódio 19 relata a história de Thérèse Clerc, onde se fala sobre temas como a despenalização do aborto, a sexualidade e o feminismo.

26 de junho de 2020 | Rita Silva Avelar

A polémica durou apenas umas horas, mas foi o bastante para que chovessem críticas à RTP por ter, ainda que momentaneamente, retirado do ar a série infantil Destemidas, por considerar que a linguagem do episódio sobre Thérèse Clerc - que narrava a sua vida a par de temas como a luta pela legalização do aborto, a homossexualidade e o feminismo, mas que também abordava a religião e o conservadorismo - não estava adequado ao público infantil. Com esta censura por parte do canal público, dava-se a entender que temas como os direitos LGTB e a história da emancipação das mulheres não estavam adequados ao público infanto-juvenil português, mas estavam ao francês, uma vez que a série teve origem numa produção francesa e, até ao momento, não foi censurada.

Uma decisão que, justifica a RTP, foi motivada por várias queixas que foram endereçadas ao canal e também à Entidade Reguladora da Comunicação Social, de pessoas que consideravam que este episódio não era adequado para a programação da Zig Zag, ferindo as "susceptibilidades" das crianças, mas também pelo provedor do Telespectador da RTP, Jorge Wemans, que endereçou à direção de programas uma carta onde recomendava que o episódio em questão fosse mesmo retirado da RTP Play. Uma das queixas partiu do Partido Nacional Renovador, que adiantou mesmo fazer uma queixa crime contra a RTP na Procuradoria-Geral da República, escolhendo, para anunciar esta decisão, ilustrar a mesma com um printscreen da série, num momento em que duas mulheres se beijam.

Depois de o caso ter sido noticiado por vários meios de comunicação, no final do dia de quinta-feira, 25 de junho, a RTP fez finalmente um comunicado, explicando que tinha decidido retirar a série da secção Zig Zag, movendo-a para as séries da RTP2 e podendo também ser visionada na RTP Play. "Sobre a série Destemidas cumpre-me informar que não foi suspensa nem da RTP 2 (…) nem da RTP Play. O episódio sobre Thérèse Clerc foi temporariamente suspenso do espaço ZiG Zag porque reconhecemos que a linguagem utilizada no que diz respeito ao aborto não era a mais adequada para o público-alvo (10-13 anos) e voltará assim que estiver refeita a dobragem" explicou Teresa Paixão, Diretora da RTP2, no Facebook do canal. "Os 30 episódios que compõem a série podem ser vistos integralmente, com a tradução aproximada ao texto original na RTP Play, incluindo o episódio que deu lugar a esta questão no espaço das séries da RTP2".

A série Destemidas é uma adaptação da obra literária Culottées, criada por Pénélope Bagieu e uma produção francesa a cargo da France Télévision que chegou à RTP com a voz da atriz Joana Ribeiro. A série, que estreou no canal público em março, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, narra as histórias de mulheres pioneiras e audazes, de forma cronológica, em 30 episódios de cerca de 3 minutos cada: o primeiro é dedicado a Aagnodice, a médica ginecologista grega que arriscou a vida para que as mulheres pudessem exercer a medicina no seu país. De atrizes a ativistas, de imperatrizes a cientistas, esta série narra de forma clara as lutas destemidas de mulheres emblemáticas, com mentalidades à frente do seu tempo, tais como Wu Zeitan, imperatriz chinesa que foi precursora do direito laboral ou Leymah Gbowee, que lutou pela paz na Libéria e foi Prémio Nobel da Paz em 2011. O livro "Destemidas - Mulheres que só fazem o que querem", de Pénélope Bagieu, está disponível nas livrarias.

Saiba mais Série, Destemidas, Polémico, RTP, Zig Zag, Série da RTP
Relacionadas

Quatro livros improváveis para ler agora

Seja através do olhar apurado de Mario Testino, em Ciao, através da narrativa trágica de Manuel Vilas, ou de uma história contada para crianças - estas são as novidades literárias do momento.

Diogo Faro, o pugilista digital: "Odiaria que a minha vida fosse igual à das mulheres que são apalpadas e assediadas."

O comediante lisboeta tornou-se nos últimos anos uma voz ativa na luta pela igualdade de género. As provocações humorísticas de Diogo Faro sucedem-se no mundo virtual, espicaçam a atualidade, incomodam alguns e originam reflexões sobre o machismo, homofobia e racismo. O seu humor serve-se de ironia para fazer crítica social. Um combate que Diogo Faro abraçou totalmente.

Mais Lidas