A estrada tem género? Abrimos o Livro do Código e encontrámos respostas estereotipadas
Os homens têm mais acidentes graves e morrem mais ao volante do que as mulheres. Isso é um facto estatístico. O problema é a explicação apresentada no Livro do Código, que associa esses comportamentos à "confiança" masculina. Um sociólogo explica porque esta leitura perpetua estereótipos e ignora o papel da socialização de género.
O mundo moderno não foi desenhado por um corpo neutro. Foi construído em torno de um corpo que, durante demasiado tempo, se confundiu com o universal: o masculino. Encontramo-lo nas ferramentas, nos equipamentos de proteção, nos espaços de trabalho (cof cof o ar condicionado do escritório), nas casas de banho e também nos automóveis - na altura dos bancos, na posição dos cintos, nos sistemas de retenção e, sobretudo, nos corpos escolhidos para testar a segurança de todos os outros. O automóvel foi construído à medida deles. A estrada, durante muito tempo, também lhes pertenceu. E, no entanto, são eles que mais frequentemente nela morrem.
O primeiro automóvel chegou a Portugal em outubro de 1895. Era um Panhard & Levassor importado de Paris pelo conde d’Avillez e provocou tanta perplexidade na alfândega que chegou a ser classificado como uma máquina a vapor. Na viagem inaugural entre Lisboa e Santiago do Cacém, atropelou um burro, entrando para a história não apenas como o primeiro carro a circular no país, como também o protagonista daquele que é geralmente descrito como o primeiro acidente rodoviário português.
O automóvel chegou, portanto, conduzido por um homem, pertencente a um homem e integrado num mundo de homens. As mulheres demorariam ainda décadas a ocupar aquele lugar com alguma visibilidade. A escritora e poeta Fernanda de Castro é frequentemente apontada como uma das primeiras portuguesas a obter carta de condução. Algumas memórias familiares apresentam-na mesmo como a primeira, juntamente com outras duas mulheres que terão realizado o exame na mesma altura.
Mais de um século depois da chegada do primeiro automóvel, abrimos um livro de código e encontrámos, dentro da categoria “Perfil dos Condutores”, uma distinção direta entre homens e mulheres. "Os condutores do género masculino, geralmente, são mais agressivos, têm mais acidentes - e mais graves - e praticam mais contraordenações rodoviárias - também mais graves - do que os condutores do género feminino”, lê-se. As mulheres, por sua vez, teriam “um estilo de condução mais cuidadoso e responsável”. O manual acrescenta que os homens, por serem “mais confiantes”, tenderiam a adotar comportamentos de risco: exceder os limites de velocidade, conduzir sob o efeito do álcool e não utilizar o cinto de segurança.
À primeira vista, a passagem parece apenas inverter uma velha piada. Durante décadas, repetiu-se que as mulheres não sabiam estacionar, não dominavam a mecânica, eram demasiado hesitantes ou não tinham “jeito” para conduzir. Agora, um manual afirma que são elas as mais responsáveis.
Mas o problema não está apenas na conclusão. Está na explicação. “De facto, os homens assumem mais comportamentos de risco ao volante. Mas isso não está relacionado com confiança ou falta dela", diz o sociólogo e investigador no Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), Bernardo Coelho.
A agressividade ao volante não é uma característica anatómica masculina. Não existe um gene do excesso de velocidade nem uma hormona que obrigue um homem a ultrapassar numa curva. As estatísticas podem organizar os condutores de acordo com o sexo registado, mas, quando tentamos explicar os comportamentos, entramos inevitavelmente no território do género.
Em Portugal, os homens representavam 55,9% dos titulares de cartas de condução válidas em 2023 - uma maioria, mas longe de justificar, por si só, a diferença observada na sinistralidade mais grave. No conjunto da União Europeia, os homens corresponderam a 77% das pessoas que morreram nas estradas em 2024. Em França, os dados definitivos do mesmo ano mostram que 77% das vítimas mortais e 75% dos feridos graves eram homens. Entre os presumíveis responsáveis por acidentes mortais, a percentagem masculina subia para 84%.
É verdade que os homens tendem a conduzir mais quilómetros, a trabalhar mais frequentemente como motoristas profissionais e a utilizar em maior proporção veículos de risco elevado, como motociclos. Os totais brutos não permitem, sozinhos, declarar um vencedor numa guerra dos sexos. Ainda assim, investigações reunidas pelo Conselho Europeu de Segurança dos Transportes indicam que as mulheres cometem menos infrações e se envolvem menos em colisões mesmo quando a exposição - isto é, a quantidade de condução - é tida em conta.
A questão, portanto, não é saber se todos os homens conduzem mal ou se todas as mulheres conduzem bem. Não conduzem. As diferenças dentro de cada grupo são enormes. A questão é perceber por que razão certos comportamentos perigosos continuam a ser mais tolerados, praticados e até admirados entre os homens.
“Os homens aprendem a ser homens, em parte, através da inscrição em situações de risco”, explica Bernardo Coelho. “Isso acontece desde muito cedo: saltar muros, subir a árvores, desafiar autoridades, por exemplo na escola. São desafios que os rapazes fazem uns aos outros numa lógica de competição.” O sociólogo continua, “isso continua nas práticas perigosas de condução, no consumo e abuso de drogas e álcool, nas práticas sexuais de risco ou nos desportos mais ou menos radicais.”
O risco funciona como uma prova. Demonstra coragem, domínio, destreza, resistência ao medo. O automóvel torna-se particularmente eficaz nessa representação porque reúne velocidade, potência, competição e controlo de uma máquina. Permite acelerar, ultrapassar, ocupar espaço, responder a uma provocação e mostrar que não se recua. Para Coelho, alguns homens utilizam o carro como um “instrumento de clarificação da masculinidade”: uma forma de confirmar, perante si próprios e perante os outros, que correspondem a uma determinada ideia de homem.
Um estudo publicado em 2024 na National Library of Medicine concluiu ainda que a diferença nos comportamentos de risco não desaparece necessariamente com a idade: entre condutores com 65 ou mais anos, os homens continuavam a revelar maior tendência para erros, infrações e comportamentos arriscados.
Quem decide o que significa conduzir bem? O próprio manual de código reproduz a contradição que pretende explicar. Ao associar o risco masculino à “confiança”, transforma uma conduta perigosa numa qualidade que correu mal. A mensagem implícita continua a ser elogiosa: os homens arriscam porque acreditam nas suas capacidades; as mulheres são cuidadosas porque, supostamente, lhes falta essa segurança. É uma forma subtil de conservar o velho estereótipo. Ele conduz depressa porque é confiante. Ela conduz devagar porque tem medo.
Mas respeitar um limite de velocidade não é falta de confiança. Manter distância não é hesitação. Recusar conduzir depois de beber não é fragilidade. E chegar cinco minutos mais tarde não revela menor domínio do automóvel.
Uma abordagem verdadeiramente preventiva deveria explicar as consequências. Deveria dizer que o excesso de velocidade aumenta a violência do impacto, que o álcool diminui a capacidade de reação, que a competição na estrada transforma desconhecidos em adversários e que os homens estão desproporcionadamente representados entre os responsáveis e as vítimas da sinistralidade grave.
Como observa Bernardo Coelho, não basta reproduzir a diferença. É preciso explicar que estes comportamentos “provocam mais sinistralidade, que os homens são os principais causadores dos acidentes mais graves e que morrem mais frequentemente ao volante”.
Durante demasiado tempo, a sociedade perguntou se as mulheres eram capazes de conduzir como os homens. Talvez tenha chegado o momento de inverter a pergunta. Não porque os homens devam tornar-se mulheres, mas porque o risco tem de deixar de ser uma prova de masculinidade. E porque, na estrada, o melhor condutor nunca foi o que mais depressa chegou. Foi sempre o que permitiu que todos chegassem.
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