Viagens

Viajar para ajudar

Uma jornalista fugiu do caos de Lisboa para abraçar um projeto de voluntariado internacional e ensinar inglês a crianças de uma comunidade islâmica. Depois de três semanas no meio da selva tailandesa, descobriu como podemos ser felizes do outro lado do mundo.
Por Carlota Morais Pires, 31.08.2017

"Porque é que escolheste este campo?", pergunta-me a minha guia, uma malaia de sorriso aberto e abraço apertado. Na altura não soube como reagir à pergunta. Não tinha uma resposta certa  - apenas a vontade e a curiosidade de aprender e a certeza de que isso não acontece quando ficamos no mesmo sítio.

Decidi viajar sozinha numa missão de voluntariado para o sul da Tailândia um dia em que ainda estava presa na redação às nove da noite. Depois de divagar sobre a vida e o que estava a acrescentar ao mundo naquele momento, entrei num loop de pesquisas e enviei o formulário de candidatura assim, meia hora depois, sem pensar muito mais sobre o assunto.

Na altura sentia-me sufocada pelo tempo perdido no trânsito e os minutos desperdiçados com o cérebro em slow motion  ou o dedo em scroll down no Instagram. Precisava de uma pausa do trabalho, especialmente numa altura em que o mundo parece prender-nos a atenção durante todas as horas, como se nunca pudéssemos parar. Por mais que tentemos fugir à rotina, parece impossível escapar-lhe: se não é o trabalho, é o acumular de tudo o que não tivemos tempo de fazer durante e semana. E, a não ser que a nossa profissão abrace uma causa maior (na altura trabalhava numa revista de moda e comparava-me com a minha irmã, por exemplo, que é enfermeira), é difícil encontrar uma forma de emprestar uma parte de nós a alguém. Mais difícil ainda é dedicar o pouco tempo que nos resta a algum projeto que nos faça sentido e sirva outro propósito além de pagar as contas no final do mês.

Por todos estes motivos (e provavelmente mais alguns), escolhi um campo de voluntariado em Hat Yai, no sul da Tailândia, depois de ler na descrição que o objetivo era ensinar inglês a crianças e participar numa espécie de intercâmbio cultural com uma comunidade islâmica. O processo foi conduzido pela associação portuguesa Para Onde, que foi fundamental para estabelecer o contacto com a DaLaa, organização internacional que me recebeu na Tailândia. Foi através desta associação que me preparei (há uma formação em Lisboa que dura cerca de três horas) e que encontrei respostas para todas as minhas dúvidas e a informação que precisava antes de começar a minha viagem.

Marquei três semanas de férias, comprei os bilhetes de avião na hora e um mês depois estava a embarcar para Istambul, onde apanhei um segundo voo para Banguecoque e, um dia de viagem depois, segui num terceiro voo para Hat Yai.  

Por sorte, a organização pôs-me em contacto com outro português que também estava na minha missão de voluntariado e conseguimos encontrar-nos à porta do hotel logo no segundo dia. Alugámos uma mota e seguimos à descoberta (a cidade não é turística e as pessoas na rua viravam a cabeça para olhar para nós, dois aliens de cabelo e pele claras), encontrámos templos budistas, florestas sem fim e praias virgens. Mas as férias acabaram ali - vinte e quatro horas mais tarde estávamos a entrar para uma carrinha e a avançar em direção ao centro da selva tailandesa.  

Quando chegámos conhecemos os outros voluntários: uma norte-americana de 27 anos que trabalhava na Google e tinha tirado uma licença de três meses para viajar pela Ásia; uma rapariga suíça com pouco mais de 20 anos que tinha deixado a Europa sem planos ou destino; uma outra rapariga francesa que já estava há três meses na Tailândia e que acabava de deixar as praias paradisíacas de Phuket para trabalhar connosco no campo. E, para além de mim e do Tiago, os dois portugueses do grupo, na casa estavam mais três tailandesas, essenciais para nos ajudarem a comunicar com as crianças da comunidade, que não falavam uma palavra de inglês.

Ao início tudo me pareceu assustador: o chão de pedra onde dormíamos (num quarto que dividía com todas as voluntárias e com aranhas de dimensões impossíveis), a casa de banho com duche e retrete improvisados, as mulheres tapadas dos pés à cabeça e os homens armados com caçadeiras que pareciam saídos diretamente de um filme. Depois, dormia mesmo ao lado de uma tailandesa de religião muçulmana, que todas as noites acordava às 5 horas da manhã para rezar, o que significava vestir-se a rigor e levantar-se e ajoelhar-se repetidamente durante alguns minutos.

Tapava sempre os braços e as pernas, por uma questão de respeito pela comunidade onde estávamos, mas nem sempre era fácil porque estavam 40 graus à sombra. Além disso, este foi o primeiro campo de voluntariado nesta comunidade – os locais nunca tinham visto estrangeiros e espantavam-se com os nossos traços europeus. Queriam ver-nos e tocar-nos. Quando estamos do outro lado do mundo tudo isto ganha uma dimensão surreal, e ajudou-me muito ter um amigo em speed dial com quem desabafava todos os dias.     

Primeiras impressões à parte, três dias depois já tudo me parecia normal. Não podíamos matar os insectos, mas eu já os afastava do meu saco cama com as mãos. Tínhamos de cozinhar e limpar a casa, mas os nossos dias eram dedicados sobretudo às atividades com as crianças, que já corriam para nós de manhã para se agarrarem às nossas pernas. Durante o dia ensinávamos-lhes inglês e à tarde vinham buscar-nos em motas e levavam-nos pela floresta para depois mergulharmos em cascatas e lagos de água quente. Não sabíamos para onde íamos porque não conseguiam dizer-nos, mas saltávamos para uma mota com mais quatro miúdos e seguíamos por estradas de terra até cairmos. Riamos e voltávamos para casa cheios de arranhões, mas estava tudo bem. Já não queria voltar para Lisboa, como tinha acontecido no sufoco dos dois primeiros dias. As pessoas da aldeia convidavam-nos para dormirmos em casa delas, para entrarmos e provarmos tudo o que tinham. Uma semana depois, e mesmo do outro lado do mundo, já me sentia em casa.

As crianças também começavam a aprender rapidamente. Nos primeiros dias perguntávamos "How are you?" e respondiam "I'm fine thank you", automaticamente. Depois, já diziam "I am happy" e usavam no tempo certo as emoções, sensações e sentimentos que lhes ensinávamos. Algumas criaram relações especiais connosco. Um dos rapazes, um menino transsexual a quem chamavam Boy (ironicamente, mas ele ficou com o nome), marcou-me para sempre. Era deixado à parte, ninguém queria brincar com ele – as meninas porque não podem aproximar-se muito dos rapazes (esta era uma comunidade islâmica ultraconservadora) e os meninos porque sabiam que ele era um lady boy (um fenómeno que tem outras proporções em Banguecoque quando comparado com o resto do mundo). Mas o Boy não parecia importar-se, nem tentava esconder ou disfarçar os gestos femininos. Dançava e saltava, desfilava pela estrada e usava maquilhagem. Não conseguíamos comunicar mas passeávamos durante horas e criámos um entendimento que fazia sentido. Ele percebia que eu não me importava que ele fosse o que quisesse ser e que vestisse o que queria vestir - então trazia saias e vestidos na mochila e trocava de roupa quando nos afastávamos da aldeia. Eu dava-lhe t-shirts e revistas de moda. No fim, consegui que dançasse com as outras raparigas no espetáculo de despedida organizado pela comunidade como agradecimento para os voluntários.

As mulheres mais velhas pediam-me para me tocar no nariz e no cabelo. Depois, vi que usavam uma espécie de pó talco para clarear a pele (como nós usamos o bronzer castanho, no sentido inverso). Convidaram-me para ficar nas suas casas e voltei a dormir em quartos cheios – na vila todos são agricultores, enfrentam uma realidade oposta aquela àquela que estamos habituados; mas, de manhã, serviam-nos mesas cheias de fruta e doces e davam-nos tudo o que tinham. Não sabiam quem eu era, o que fazia, quem eram os meus pais ou os meus amigos. Não sabiam rigorosamente nada sobre mim, até porque não conseguíamos ter uma conversa, mas queriam que me estivesse bem e feliz – era, na verdade, tudo o que tentavam saber através de gestos e sorrisos.

No último dia, os homens com armas (e que me assustaram ao início) tinham lágrimas nos olhos porque não queriam que deixássemos o campo. Abraçaram-se a nós, deram-nos sacos com fruta exótica, escreveram-nos cartas com a ajuda das tailandesas que sabiam inglês. E prometeram que não se iam esquecer de nós. Nós não precisámos de prometer. A experiência mudou-nos e ensinou-nos a não viver tão virados para dentro, tão focados em nós próprios e nas realidades que construímos à nossa medida. Se um dia nos voltarmos a esquecer, só pode ser altura de partir outra vez. 

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