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Ver no escuro

Cláudia R. Sampaio já foi guionista de telenovelas, gosta de desenhar e pintar, tem um romance começado que não sabe se conseguirá regressar a ele. É uma das novas poetas a ler.
Por Máxima, 21.03.2017
Escreve e lê muito ali. Cláudia R. Sampaio escolheu o Miradouro do Monte Agudo, à Penha de França, Lisboa, como local para a entrevista e o sol de inverno do final da tarde tornava o seu cabelo ruivo ainda mais brilhante, a pele da cara mais branca. Aos 35 anos, é uma das poetas com trabalho mais pulsante no panorama atual da poesia portuguesa.

Tragam-me um homem que me levante com/ os olhos/ que em mim deposite o fim da tragédia/ com a graça de um balão acabado de encher/ tragam-me um homem que venha em baldes,/ solto e líquido para se misturar em mim/ com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se/ leve, leve, um principiante de pássaro/ tragam-me um homem que me ame em círculos/ que me ame em medos, que me ame em risos/ que me ame em autocarros de roda no precipício/ e me devolva as olheiras em gratidão de/ estarmos vivos (…) in Ver no Escuro, Tinta da China.

"Há vezes em que começo a ficar nervosa, se já não escrevo há algum tempo. Tenho andado assim nos últimos dias." E acrescenta, ao sabor de uma gargalhada: "Começo a sentir-me inútil." Admite poder não ser a palavra mais apropriada, "inútil", e esclarece tratar-se de uma sensação de vazio. Tem andado a pintar, reflexo de uma fase em que diz ser-lhe mais difícil encontrar palavras para se exprimir. "Pintar é-me mais automático e necessitava desse lado físico." Voltou entretanto à escrita, "com um bocado de fúria", como pode constatar-se no seu feed no Facebook, onde vai colocando alguns dos seus inéditos.

Já os bombeiros preparavam a rua para mais uma/ Catástrofe/ e a noite era a voz da minha casa fechada numa/ ponte de álamos/ Deste três voltas à vida sem saberes onde/ largar o espaço/ mas não entrámos juntos no poço onde te/ falei do meu corpo ao acaso/ Há lugares que são os lugares mais inteiros// Eras uma forma de homem acabado de silêncio/ subindo pelo espaço todo com uma música nos dentes/ e outra, presa à minha ideia vertebral de/ mulher (…)

Não tenciona fazer carreira de pintora, serve para "deitar imagens para fora". Com o poema é parecido, mas tem mais a ver com sentimentos do que com imagens. "Por isso é que os momentos de escrita são mais sagrados", refere. "Eu consigo pintar a conversar com alguém. E, com a escrita, não."

Não pensa ainda em termos de carreira, no que diz respeito à poesia. "Eu acho que nunca pensei em nada como carreira porque sempre gostei de fazer várias coisas ao mesmo tempo. E foi um problema que eu tive desde adolescente, gostava de várias formas de arte." Foi bailarina, era a avó quem a levava às aulas – e também a passear pelos museus. Moravam nos Olivais, em Lisboa. O corpo esguio e as pernas altas são as de uma bailarina, começou a fazer ballet tinha três anos. "Era a minha mãe presente, porque a minha mãe trabalhava até tarde. No fundo, era ela quem me acompanhava no dia a dia e me levava ao ballet. Ligo sempre o ballet à minha avó", conta. "Faleceu há um mês. Quando ela morreu, escrevi-lhe um poema acompanhado da morte do cisne, d’O Lago dos Cisnes."

Na faculdade, tirou a variante de Cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e no último ano foi convidada pelo professor e realizador Joaquim Sapinho a escrever um guião a meias com um colega, para ser realizado por Manuel Mozos. Escreveu também para televisão: fez parte do grupo de guionistas que escreveram a série juvenil Morangos Com Açúcar, escreveu telenovelas e telefilmes. "Fazia-me ser talvez ainda mais uma coisa que eu sempre fui: atenta às pequenas coisas à minha volta. Ouvir por exemplo diálogos no autocarro, no metro, numa esplanada. Tomar atenção à maneira como as pessoas falam ou de como tentam dizer coisas sem dizer." Diz não conseguir imaginar-se a voltar a escrever para televisão, agora que tem dedicado mais tempo à poesia.

Desde os cinco anos que as coisas lhe saem em jeito de poema. "Às vezes fico na dúvida se o poema se escreveu sozinho e a minha mão é uma forma de fazê-lo aparecer", explica. Relativamente aos inéditos que vai partilhando nas redes sociais, "se calhar há uns que são uma espécie de vómito que me fazem sentido partilhar naquele dia. Posso passar uma semana em casa sem comunicar com ninguém e, ao mesmo tempo, estou a comunicar, dessa forma".

Tem três livros publicados, Os Dias da Corja, pela editora Do Lado Esquerdo, A Primeira Urina da Manhã, pela Douda Correria, e, mais recentemente, Ver no Escuro, parte da coleção de livros de poesia da Tinta da China coordenada pelo escritor e cronista Pedro Mexia. "Agora, comecei um projeto novo em que vou escrever sobre o meu internamento no hospital." Esteve há pouco tempo hospitalizada e, a partir de um convite para participar na próxima edição do Festival Jardins Efémeros, em Viseu, criou o projeto 24A, juntamente com o músico Mário Fonseca. "A ideia evoluiu para escrever uma história em forma de poema, apresentado ao vivo, acompanhado por uma banda sonora, como se fosse um filme." Um poema-concerto, que poderá incluir a projeção de alguns dos seus desenhos.

Se te esqueceres de mim/ criarei a dança das sibilas cintilantes/ usarei um cinto de amargura e uma/ camisolinha de gelo/ e gravarei nos pés o contrário do/ teu caminho.// Abrirei uma caverna em peito onde/ possa gritar a tua imagem como o/ nosso sangue extinto/ e iremos desta vida à outra com o/ desamor em braços,/ desmaiados em insucesso. (…) in Ver no Escuro, Tinta da China.

Começou a escrever um romance, há vários anos, confessa que está amaldiçoado. Nunca mais lhe pegou. "Porque entretanto vou sempre fazendo outras coisas. E a poesia passa sempre à frente. Mas talvez seja uma desculpa, porque é muito mais difícil escrever um romance. Ou talvez eu não tenha essa veia." Tem 100 páginas escritas e, quando voltou a lê-lo, há pouco tempo, achou que vai querer reescrever tudo. A história é a de uma mulher que está farta de pessoas, que deseja fervorosamente que as pessoas desapareçam todas do mundo. Um dia ela acorda e isso aconteceu. "É a minha experiência enquanto escritora a tentar imaginar-me num mundo sem uma única alma e a tentar imaginar o que seria sentir isso." Ir à cave. Cláudia R. Sampaio diz que escrever é ir à cave.
 

Por Cláudia Marques Santos

* Originalmente publicado na edição nº 342 da Máxima (março 2017)

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