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Tati Bernardi: “Hoje em dia é até chique você ser meio louco”

Depois a louca sou eu é o novo livro da argumentista e humorista brasileira Tati Bernardi e acaba de chegar a Portugal. Acima de tudo, a autora prova que é possível falar sobre ansiedade de forma risível, liberal e até sexy.
Por Rita Silva Avelar, 08.09.2017
Aos 38 anos, Tati Bernardi (1979, São Paulo) é guionista do Globo, cronista semanal na Folha de São Paulo e um dos nomes mais elogiados do humor não só Brasil mas também além-fronteiras cariocas. O seu humor, pautado por uma visão feminina, chega agora a Portugal através de Depois a louca sou eu (2016), um livro autobiográfico que fala sobre a sua experiência em lidar diariamente com a ansiedade e as crises de pânico, que sempre fizeram parte da sua vida. No dia em que achou que ia morrer em pleno voo até ao Rio de Janeiro, prometeu que escreveria um livro. Em Depois a louca sou eu aborda também temas fraturantes como sexo, medicação ou discriminação, num tom humorístico que anda lado a lado com uma abordagem leve e despojada de preconceito, com que facilmente nos identificamos.

Como é que o humor entrou na sua vida?
Desde criança que entendi que a minha família tem ansiedade, mais a família da minha mãe, todos eles são muito neuróticos e sensíveis e sempre muito engraçados, exatamente para tentar lidar. Eu nasci um pouco com essa genética, mas também fui criada no meio de pessoas que todo o tempo estavam "a tirar sarro uns dos outros" e de si mesmos. A família da minha mãe é uma família italiana e portuguesa: o meu avô é italiano, a minha avó portuguesa e são os dois muito exagerados (com medo de doenças e manias). Vem tudo daí, desde pequenina.

A sociedade ainda insiste em negar que a ansiedade é de facto um problema grave e continua a associá-la à loucura ou já há um conhecimento mais humano do tema?
Eu tinha muita vergonha, quando estava numa reunião e começava a ficar fóbica, porque achava que era uma coisa muito esquisita e que as pessoas não iam entender e ver com preconceito, que não teria emprego, que ninguém quereria namorar comigo. Quando comecei a escrever sobre ansiedade a quantidade de gente que falava "nossa, eu já senti isso, eu sei o que é isso, eu te entendo", gente que tinha ansiedade num grau menor, foi muito maior que a quantidade de gente que disse "nossa, que louca, que livro é esse? Nunca senti nada disso, que coisa bizarra". E isso foi bem interessante porque eu achava que ia lançar este livro e as pessoas iam pensar: "Deus do céu, internem essa mulher!" Vi que eu era bem mais normal do que eu achava. Diferente da esquizofrenia, a depressão e a ansiedade é algo que todo o mundo já sentiu uma vez na vida pelo menos. É uma loucura popular.

Já não estamos, portanto, a esconder que podemos ser pessoas normais e ir ao psicólogo?
Hoje em dia é até chique você ser meio louco, as pessoas gostam de falar isso. Antigamente era um tabu ir ao psiquiatra, hoje em dia é chique – virou uma coisa de status, não é mais vergonhoso. Não pode é tornar-se legal de mais, para a pessoa não pensar que está doida, e na verdade não está.

É um livro sobre ansiedade escrito sob uma perspetiva muito mais humana do que a médica. Quão importante é esta abordagem na primeira pessoa ao tema, para o leitor?
Eu tinha medo de escrever um livro que pudesse parecer autoajuda ou que pudesse parecer muito egocêntrico, então li vários livros de psiquiatras a falar sobre ansiedade e fui entendendo que não precisava de ser um livro cheio de dados científicos. Ia fazer o quê, um relato da minha taquicardia? Seria uma coisa muito chata.

Qual foi a situação mais insólita em que já se viu a tentar resolver a sua ansiedade?
Uma vez fui parar a um psiquiatra espírita. Fui lá quando tinha crises de pânico horríveis principalmente antes de fazer uma viagem de avião e o psiquiatra fez um estudo da minha alma e decidiu que eu era assim porque na encarnação passada eu tinha sofrido um abuso sexual. Então em vez de me dar um remédio ou me indicar terapia, deu-me dez sessões de paz espírita para a minha alma se libertar desse trauma do abuso sexual no século XIX! Eu ia entrar no avião no dia seguinte, não resolveu nada e ainda piorou minha vida.

E a melhor coisa que já lhe disseram (neste caso, a que mais a ajudou) num momento crítico?
Eu costumo dizer que a melhor religião para mim é a farmácia. Eu já fiz yoga, já fiz meditação, já levei o ritual espírita do psiquiatra  espírita, fiz acupuntura, faço terapia há 15 anos, mas a melhor coisa que já fiz na minha vida foi experimentar o Rivotril, é um ansiolíto, um calmante. Ele resolve mais do que Freud ou qualquer religião. Não significa que não continue a ir às sessões de psicanálise, claro.

Num relato muito autobiográfico, no final do livro frisa a importância de ponderar acerca da medicação. Acredita que existam muitas pessoas hipermedicadas e com adição à medicação?
Com certeza. Por exemplo, vai deitar-se para dormir e teve um dia cheio, montes de reuniões, brigou com as pessoas – é assim a vida de adulto. E depois deita para dormir, e demora para adormecer, o que é normal. Demora meia hora, uma hora, para conseguir – mais vai conseguir. O que acontece muito é que as pessoas não têm paciência para esperar e pegar no sono e já tomam o ansiolíto antes de conseguir dormir e acabam por ficar viciadas. Eu fui diagnosticada com crises de pânico, então precisei de tomar, mas hoje em dia não tomo mais. "Tenho um almoço com o meu namorado, estou muito nervosa – vou tomar." Ou seja, as pessoas acabam tomando para lidar com coisas da vida que são normais e que vão só dar uma palpitaçãozinha extra, não é uma crise de pânico. Mas as pessoas não querem sentir nada (…) está todo o mundo a virar super-herói, só que os remédios destroem a vida sexual, e fica-se mais apático para a vida, o que é muito perigoso.

O sexo é um tema muito abordado no livro. Ainda há alguma dificuldade, por parte das mulheres, em falar abertamente sobre a sexualidade?
As minhas amigas solteiras têm todas Tinder, e tudo bem: ninguém vai julgar uma mulher com 30 anos, mora sozinha, que sabe o que está a fazer da vida, e tem uma vida sexual ativa. Pode ter um ou outro amigo machista, mas neste grupo de mulheres ninguém vai julgar. Por outro lado, a mulher vive – e eu acompanho isso com as minhas amigas e já passei por isso também – uma vida sexual ativa sem grandes neuroses mas ao mesmo tempo pensa 24 horas por dia nesse comportamento e pensa, ao mesmo tempo, "ninguém me vai levar a sério, eu quero casar e ter filhos". Por um lado, "eu sou livre e feminista mas se precisar engravidar, algum homem me vai levar a sério?" Está-se eternamente nesta luta, e se a pessoa toma ansiolíticos, perde toda a libido. São três conflitos: vadia, pudica e medicada (risos).

Sente-se de alguma forma discriminada enquanto mulher a fazer humor?
Muito preconceito. Porque vários amigos homens – e até alguns namorados – diziam que mulher engraçada não é sexy, mas sim aquela mulher que ri da piada do homem. Ter a capacidade de fazer humor e ter ironia é significado de uma inteligência muito sofisticada, mas a maioria dos homens  prefere a que faz a sopa, a princesa. Porque para que se possam fazer piadas é preciso ter um olhar muito crítico perante o mundo e o homem tem muito medo que tenha esse olhar crítico para ele. Hoje em dia, sou casada com um homem que acha que é legal ser engraçada e vive bem com isso. Mas eu já tive um namorado que quando fazíamos piadas sobre mim ambos ríamos, mas quando fazia uma piada sobre ele, acabava a noite. O que eu costumo dizer é que a maioria dos meus namorados me trocaram por aquela menina muito solar, muito fofa, muito de bem com a vida, que não o vai criticar em nada, nem contestar. Também não deve ser fácil namorar com uma pessoa que vive olhando para o mundo à procura de um furo – mas é como eu ganho o meu salário, eu não vou parar de fazer isso.

O que acha do humor em Portugal? Tem algum humorista português preferido?
Eu amo o Ricardo Araújo Pereira, eu estou agora a ler A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar e já tinha lido também Se Não Entenderes Eu Conto De Novo, Pá. Eu acho-o muito inteligente e engraçado, vi alguns sketches dos Gato Fedorentoe acho genial. E eu amo o Bruno Aleixo. Ele é brilhante, eu decorei todos aqueles diálogos, tenho até um amigo que é obcecado pelo Bruno Aleixo. Às vezes estou quieta e ele diz "Eu não gosto do Ramiro, que ele é repetente" e rimos durante meia hora.

Depois a louca sou eu já, da editora Tinta da China, está à venda em Portugal por €14,90
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