Gourmet

Mulheres com tomates? Sim, todas estas

Como é que durante a Lisbon Food Week, uma semana dedicada à gastronomia, surge uma conversa com o nome Mulheres com Tomates? Quisemos saber e fomos assistir.
Por Rita Silva Avelar, 10.11.2017

A iniciativa de sentar à mesa sete mulheres inspiradoras foi da NUTS Branding, uma agência dedicada ao mundo da gastronomia, mas quem acolheu a primeira edição de Mulheres com Tomates foi a programação da Lisbon Food Week. Assim, de sala cheia e com um diálogo moderado pela jornalista Mónica Franco, reuniram-se, no espaço Second Home do Mercado da Ribeira, Alexandra Prado Coelho, jornalista gastronómica do Público; Ana Carrilho, responsável pelo azeite Esporão; Constança Raposo Cordeiro, barmaid; Graça Saraiva, consultora em biodiversidade e fundadora da Ervas Finas; Maria Canabal, jornalista internacional e presidente do Parabere Forum; a chef Marlene Vieira; e Rita Nabeiro, a CEO dos Vinhos Adega Mayor.

Ao longo de cerca de uma hora foram partilhadas ideias e discutidos temas relacionados com a igualdade de género no mundo da gastronomia, seja da perspetiva de quem lidera empresas ou organizações como Rita Nabeiro ou Ana Carrilho, de quem está à frente de uma cozinha ou de um bar, como a chef Marlene Vieira ou a barmaid Constança Cordeiro, respetivamente, ou de quem escreve sobre o tema, como a jornalista Alexandra Prado Coelho.

Com um percurso assinalável, que teve um ponto de viragem decisivo quando entrou no concurso Chef do Ano, Marlene Vieira partilha na primeira pessoa alguns dos episódios em que se sentiu tanto empurrada para o caminho certo como discriminada. "Quando participei no concurso, a Maria de Lourdes Modesto, disse-me: ‘Se queres estar no meio deles, atira-te.’ Já trabalhava há 15 anos na área", descreve. "O chef Luís Baena empurrou-me do [restaurante] Manifesto e deu-me coragem para ir à minha vida no Avenue. Chamei a atenção pela minha irreverência, tenho alguns tomates, sou do Norte e estou habituada a dizer tudo o que acho… Houve uma altura em que fazia fine dining e dois cozinheiros decidiram ir-se embora porque não queriam ter uma mulher chefe. Nesse dia passei a noite a chorar. Esse embate fez-me dar tudo de mim. Já era forte, passei a ser mais ainda." Questionada por Mónica Franco sobre o peso da decisão de ser mãe no seu percurso profissional, admite que tudo mudou. "Eu escolhi ser mãe aos 35 anos e sempre disse que os filhos não me tiravam a minha primeira paixão, mas a Isabel é hoje, sem dúvida, a primeira. No entanto, nesse ano estive mais afastada e senti-me como se tudo se tivesse apagado.  Saíram nesse ano notícias e artigos sobre outras mulheres na cozinha. Eu tenho o meu espaço no Mercado, onde servimos de 800 a 1000 pessoas por dia, e parece que há uma desvalorização na mesma. Aliás, já me disseram que esta não é a melhor montra para ter o meu espaço", explica com uma garra que lhe é inata.

De outra perspetiva, e com uma experiência de liderança que começa no avô, o fundador do grupo Vinhos Adega Mayor, Rita Nabeiro confessa que viver num mundo de homens pode não ser fácil, mas é preciso ter-se uma voz assertiva. "Há uma expressão que explica o lado das mulheres e o dos homens: men are warriors, and women are worriers.Por vezes é mesmo isso que acaba por acontecer, nós estamos preocupadas com todos os detalhes, e temos é de começar a ser as warriors e as worriers, continuarmos a ser preocupadas mas ao mesmo tempo acrescentar valor e a nossa visão, continuando a ser nós próprias."

Na mesma posição, encontramos Ana Carrilho, responsável pelo azeite Esporão, e a única mulher na liderança deste sector. "Temos apenas de nos focar em ser mulheres a gerir equipas de sucesso, equipas que são felizes porque uma equipa feliz é uma equipa que trabalha muito bem. Não faço a mínima discriminação entre um homem e uma mulher." E, falando em felicidade, podemos vê-la estampada no rosto de Constança Cordeiro ao assumir a palavra. Constança é a bartender que está a mudar as regras do mundo da mixologia (ao escolher primeiro as ervanárias naturais para as suas infusões antes de conceber os seus cocktails) e está prestes a abrir o bar Toca da Raposa. "Trabalho há nove anos em hotelaria, só há três em bar e nunca tive problema nenhum em arranjar trabalho. Cheguei a sentir e a pensar em relação ao trabalho e às competições: ‘Será que consegui isto por ser mulher?’ É um trunfo ser mulher? Se sim, acho extremamente negativo." Mas quando se fala em ganhar estatuto no meio, não hesita: "Para manter uma posição e ganhar respeito, as mulheres continuam a ter de trabalhar mais para provar que realmente merecem estar ali."

Consulte o programa completo da Lisbon Food Week, aqui.

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