Cultura

Memórias do Bangladesh: “É difícil acreditar que existam cenários assim”

Inês Pinheiro transformou a sua experiência de voluntária no Bangladesh num romance impossível de guardar só para si.
Por Carla Mendes, 09.08.2017

Maria Eduarda não é real. Não existe para além das páginas do livro A Última Viagem, de Inês Pinheiro, recentemente publicado pela Coolbooks. Não esteve em Daca, no Bangladesh, palco da ação, e nem tão-pouco viveu de perto o drama das crianças que enchem as ruas da que é a maior cidade daquele país asiático. Maria Eduarda não existe, mas ainda que seja ficcionada, é difícil separá-la de quem lhe deu corpo, voz e um propósito. Isto porque Maria Eduarda, a personagem, e Inês Pinheiro, a autora, se confundem na escrita. E é a própria que o admite, ao enumerar o que as une. "São parecidas nas incertezas e no querer ultrapassá-las. No sonho e na vontade de tudo querer fazer para ajudar aquelas pessoas. Na ligação forte à família e aos amigos. E nas pequenas coisas. Foi um trabalho árduo distanciar-me até um porto suficientemente seguro para a personagem não me roubar alguma coisa, e não estou certa de ter sido bem-sucedida", confirma à Máxima.

 

Maria Eduarda é a protagonista de uma história vivida por Inês Pinheiro, tornada romance, que narra a missão de uma mulher e da sua luta pela construção de um hospital pediátrico em Daca. E, aqui, a ficção mistura-se com a realidade que a autora testemunhou. "Tudo o que se passa com as crianças em Daca é real. Muitos dos acontecimentos que as envolvem foram verídicos e são quase uma transcrição daquilo que aconteceu, daquilo que eu vi e vivi. A parte do romance e do retrato familiar é ficção. Claro que nunca poderei afirmar com toda a certeza se o livro é ou não um pouco autobiográfico", conta Inês Pinheiro, que conhece bem as ruas que pintou com as palavras. "Estive duas vezes no Bangladesh", recorda. A primeira foi em trabalho; a segunda enquanto voluntária, em 2010, num projeto desenvolvido por uma portuguesa que conseguiu, "do nada, angariar fundos para criar uma escola para as crianças de um dos bairros de lata de Daca. Além da educação, também lhes proporciona cuidados médicos e alimentação".  

 

A experiência deixou-lhe marcas. "É difícil apontar o que mais impressiona, se a dor das crianças, se a miséria das condições em que vivem, a indiferença nos olhos de todos os que já se habituaram ao fatalismo da sua condição (des)humana. O que não esqueço? A visita ao hospital. Os pouco mais de vinte minutos que fiquei lá dentro causaram um estrago de vários dias de insónias e pesadelos. Ainda hoje é difícil acreditar que cenários assim sejam possíveis."

 

Foram estas ‘imagens’ que sentiu necessidade de partilhar. "Eu tinha de contar o que acontece no Bangladesh. O que se vive é demasiado poderoso para o conseguirmos manter cá dentro", confessa, admitindo que os desabafos com amigos e família não foram suficientes. "Para mim era importante que esse registo fosse perene. E que pudesse transpor os limites do meu círculo mais próximo. Um livro está lá, pode ser lido e relido. Pode essencialmente ser lido no silêncio e na solidão. É aqui que a verdadeira ligação com o que lá aconteceu pode existir." Ao leitor, além de o transformar em espectador de uma realidade que a distância nos faz ignorar, pede também esperança. "A verdade é que a Maria faz acontecer o bem todos os dias. Pode não ser o bem com que todos sonhamos, a pobreza não vai desaparecer de um dia para outro, o sofrimento vai lá continuar em grande escala, mas há coisas boas. Elas existem. E se conseguirmos fazer um paralelo com a nossa própria existência, então podemos ser felizes todos os dias."

 

Neste livro, somos transportados para as ruas de Daca, ruas "asfixiantes. Trânsito infernal, poluição no limite, crianças a pedir em todo o lado, muitas vezes carregam outras mais pequenas ao colo. Têm deficiências, cicatrizes provocadas por atropelamentos. Sujidade, pó. Vende-se carne carregada de insetos em cada esquina. Barulho ensurdecedor ? ninguém conduz sem tirar a mão da buzina. As ambulâncias em marcha de socorro não traduzem nenhuma aflição. Tudo é indiferente, ali. É o salve-se como e se puder". Crianças que, conta a autora, "não sabem o que é ser criança. São tristes, resistentes e vulneráveis".

 

É por tudo isto que pensa regressar, ainda que admita que "na vida tudo pode mudar". Certezas, tem apenas que é hoje diferente daquela que, há uns anos, partiu de mochila às costas para uma viagem inesquecível. "Quando regressei do Bangladesh, a ideia ruminante que trazia comigo era ‘sou mesmo uma sortuda’. Ninguém pode decidir onde vai nascer e não tenho certeza se aquelas pessoas alguma vez pensaram na grande injustiça com que a vida as presenteou. Mas nós, outsiders, nós sabemos. E se, depois disso, não nos sentirmos eternamente gratos, então já não sei nada acerca de pessoas."

 

 

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