Artes

Mãos de obra: quem são os novos artesãos?

Valorizam matérias-primas locais, têm consciência ecológica, trabalham com a criatividade e produzem a sua arte com as mãos. Da iluminação à escultura, destacamos alguns artesãos cujo trabalho vale a pena seguir.
Por Petra Alves, 26.09.2017

Só Sabão

Vítor Rodrigues é designer de equipamento. Criou a Só Sabão, em Viseu, e é através desta marca de sabonetes naturais que materializa o princípio do artesanato tradicional: "O uso de recursos locais e a criação de sinergias em todos os processos." A pequena equipa de três pessoas da Só Sabão produz sabonetes naturais de modo artesanal, através do método tradicional de saponificação a frio e não incorporando produtos artificiais como perfumes, conservantes ou corantes. Vítor explica que o "sabonete natural é aquele que decorre de forma simples da reação ácido/base, sem aquecimento nem indutores de reação; o seu resultado final mantém-se com os constituintes que inicialmente foram introduzidos na massa de sabonete. A sua base são óleos vegetais naturais como o azeite de origem controlada, óleos essenciais e algumas matérias-primas como mel, cera de abelha, argila, vinho, etc." Outro dos atrativos da marca prende-se com as embalagens que, no caso dos sabonetes, têm ilustrações alusivas a uma temática específica. E para que todos fiquem naturalmente limpos, a Só Sabão tem também sabonetes para animais.

Preço: entre €5 e €6. 

Orikomi

"Desenvolvemos os candeeiros Orikomi para se distinguirem pela simplicidade com que geometria, origami e luz se combinam numa peça acessível e versátil." Quem o diz é Carmo Caldeira que, juntamente com Ana Morgado, lidera este projeto nascido em 2014. São ambas arquitetas – cofundadoras do ateliê de blaanc – e terá sido este métier a aproximá-las ao design, já que acabam muitas vezes por desenhar peças para integrar os projetos que assinam. "O design deve ser económico e acessível, mas igualmente perfecionista e ambicioso, sobretudo num campo tão importante para a qualidade dos espaços interiores como a iluminação. A ideia de criar os candeeiros Orikomi vem no sentido de satisfazer estas necessidades." Às quais se junta a premissa do respeito pelo ambiente: "Foi uma preocupação que tivemos em todo o processo que envolve os candeeiros, desde o material à produção, utilização e fim de vida. Ao serem feitos manualmente evitam processos poluentes e o papel de alta qualidade com que são feitos possibilita a reciclagem. Ao fomentarem a utilização de lâmpadas de baixo consumo pretendem afirmar-se como uma alternativa de baixo impacto para o meio ambiente, mas não menos impactantes esteticamente."

Preço: a partir de €49. 

uNi Ouriço

Era uma vez um designer gráfico que surfava as ondas do mar da Ericeira quando pisou um ouriço-do-mar. Assim poderia começar a história do uNi, ‘escrita’ por Paulo Reis quando foi picado por uma das 950 espécies de ouriços. A experiência foi tão poderosa – algures entre a dor e o prazer – que Paulo decidiu construir um ouriço cheio de simbologia. "O processo de criação demorou cerca de um ano. A parte mais divertida foi quanto percebi a forma de construir a peça." Mas a questão que se impunha era: "Quantos espinhos tem um ouriço-do-mar? Quantos poderiam garantir que a reprodução, em madeira, se aproximava da imagem real?" No primeiro teste, usou 100 picos de madeira; no segundo teste, 200; no terceiro, espetou 300 espinhos e percebeu que estava próximo da peça que imaginara. "E onde cabem 300 espinhos, cabem 365, um por cada dia do ano."

O uNi, não só pelo nome mas também pelo conceito, é singular: "É preciso compreender a peça e ter um olhar e um sentimento para cada uma, só assim consigo passar uma mensagem com emoção. Não há dois uNi iguais."

Preço: €56. 

Vanessa Barragão

Talvez por ter nascido numa cidade costeira, Vanessa diz-se apaixonada pelo mar e é a ele que vai buscar a inspiração para criar as suas tapeçarias de parede: "Os corais são seres muito sensíveis e o aquecimento global causado pela poluição que produzimos está a contribuir para o seu branqueamento, ou seja, a sua morte. Esta é a principal mensagem que pretendo passar, alertando para que todos possam colaborar para um planeta melhor e menos poluído." Licenciada e Mestre em Design de Moda, pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, começou por trabalhar com um tear vertical, construído por si. Hoje recorre à técnica de esmirne, que, como explica, "consiste em inserir os fios numa base quadriculada de juta". Utiliza também croché, feltro, macramé e fiação de lã artesanal. Uma peça pode demorar desde três dias a largos meses a ficar pronta. O que não varia é a proveniência da matéria-prima: "Criei uma rede de pastores de ovelhas que me fornecem anualmente lã natural e, a partir daqui, inicio o processo. As tapeçarias usam parte desta lã e todos os restantes fios de lã, algodão e seda botânica são matérias-primas recicladas."

Preço: €450 a €900 (peça com 100 cm x 75 cm). 

Círculo Ceramics

Após seis meses de aulas na Caulino Ceramics, Margarida Almeida decidiu aventurar-se por conta e risco e continuar a sua aprendizagem em versão autodidata. Lançou a Círculo Ceramics e sob esta marca cria peças inspiradas nas necessidades do dia a dia, mas também em elementos orgânicos, sejam flores ou pedras: "Procuro criar aquilo que eu própria gostaria de ter na minha casa." Margarida, a quem a cerâmica tem ensinado que a paciência é coisa que se trabalha e aprimora, é responsável por todo o processo, desde a ideia à produção. Constrói a peça, aplica a cor, coze a primeira vez (chacota), aplica o vidrado (que vai tornar a peça impermeável e mais resistente) e coze uma segunda vez. Produz artigos decorativos e utilitários, que podem ser lavados na máquina da loiça e ir ao microondas.

Preço: a partir de €7,5 (tigela pequena). 

Beija-flor

Susana Gomes tinha uma paixão antiga pelo mundo do papel, a que se aliava a necessidade de fazer algo que a distanciasse do trabalho digital. Em 2011, quando decide lançar, com uma amiga, o beija-flor, trabalhava como designer gráfica num ateliê, de onde saiu poucos anos mais tarde. Dedicou-se a tempo inteiro a este projeto, que hoje tem uma gama diversa de produtos, dos quais se destacam os cadernos. Sobre as coleções que cria, diz haver uma linguagem simples, mas não simplista. Encontra "inspiração no imaginário português e, até certo ponto, no imaginário vintage. Depois há a paixão pela ilustração" que, de resto, é visível nas últimas coleções. E porquê este nome, beija-flor? "Agora era o momento em que teria uma resposta poética a esta pergunta...", diz Susana Gomes, mas a verdade é que não tem. E não precisa, porque a poesia está toda lá.

Preço: a partir de €2,5 (caderno de capa mole). 

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