Música

“Mão-verde”, o novo disco-livro de Capicua e Pedro Geraldes

Começou por ser um concerto, depois pensou-se num disco e, no final, alcançou o melhor dos dois mundos ao tornar-se num disco-livro com música, ilustrações, notas educativas. Tornou-se numa “Mão Verde” que promete chegar a todos. Saiba aqui do que falamos.
Por Máxima, 23.01.2017
Aquilo que começou por ser um convite para uma temporada de concertos no Teatro Municipal São Luiz em Dezembro de 2015, cresceu para um projeto bem maior que a ideia original. E Ana Matos Fernandes, a artista Capicua, não esconde o espanto de como tudo se foi passando. "Metade dessa temporada seriam concertos para crianças e eu não tinha nenhum reportório próprio para crianças, então aceitei o desafio já sabendo que teria de fazer um concerto de raiz, e convidei o Pedro para fazer a música e as letras. Acabou por correr muito bem, as crianças gostaram e os pais também. Achámos que estava muito coeso e que podia dar um disco, e acabámos por acrescentar mais duas canções feitas depois já dessa temporada, gravámos e decidimos que o disco só era pouco, por isso quisemos fazer um livro para acompanhar o disco", conta à Máxima.
 
Além das músicas e das letras, o disco-livro conta com ilustrações da espanhola Maria Herreros, inclui notas informativas que ajudam a aprofundar os temas das canções, e abraça também uma consciência verde. A escolha do nome do disco-livro foi, por isso, intuitiva. "Ter a mão verde significa ter jeito para as plantas e para a jardinagem, e nós quisemos celebrar esse cuidado, esse talento para fazer crescer e cuidar do verde, que resume bem a ideia por detrás das canções e a motivação ecologista" explica Ana.
 
Com a ajuda de um agricultor, Luís Alves, que tem uma produção que se chama Cantinho das Aromáticas, no Porto, e produz ervas aromáticas para infusões, foi possível dar o cunho ecológico ao projeto, justificado também pelo próprio interesse pessoal de Capicua pelo tema. "Tenho algum interesse pela educação ecológica, tenho uma horta, é um dos meus hobbies. As questões da alimentação também têm alguma importância no meu quotidiano, penso e falo sobre isso e tento ter uma alimentação o mais ecológica possível, porque acredito também que a indústria alimentar é uma das que tem mais impacto na questão das alterações climáticas (…) e portanto achei que eram questões importantes que, interessando também ao Pedro, ainda não tinham tido grande expressão no meu trabalho e poderiam caber aqui, até porque as crianças têm um interesse muito intuitivo com tudo o que tem a ver com a Natureza, com a terra, com os animais, com os insectos, com as plantas" revela. E foi isso que a dupla acabou por fazer: falar a sério, de forma divertida e recorrendo também a um imaginário infantil.
 
Outro aspecto central foi o da interação com o público – as crianças. "Eu não estou habituada a comunicar para o público infantil, por isso também era um desafio. E depois acabei por achar que se eu me divertisse ao escrever as canções, se eu resgatasse um bocadinho o meu imaginário, o Peter Pan interior, e se eu conseguisse ter uma escrita mais intuitiva e o mais livre possível, iria sempre correr bem. Quer na música quer na escrita, não quisemos fazer uma coisa pateta ou básica, quisemos fazer uma coisa que tivesse qualidade, que fosse séria - até porque o assunto é sério e o público é. Falar com as crianças de igual para igual já é um bom princípio e depois resgatando esse imaginário, divertir-me no processo e sendo o mais espontânea possível, acabou por resultar" explica Ana.
 
E Pedro complementa, ao explicar que o projeto sempre visou ser "um equilíbrio entre esse descomplicar e fazer as coisas de uma forma intuitiva e ao mesmo tempo uma seriedade que se cria, que não queríamos que fosse uma coisa silly, que fosse muito gratuito". O que não deixa de ser desafiante, não só para quem escreve e canta, como para quem compõe. "O maior desafio foi conseguir fazer música alegre (…) e que me sentisse representado por ela e, depois, à medida que ia libertando essa forma mais descomplexada e alegre, as músicas foram cada uma delas tomando um rumo que se ia aproximando de géneros com que me identifico, e a Ana também" revela Pedro.
 
Apesar de Ana estar mais ligada ao rap, e Pedro ao punk, o espírito aventureiro na música, o ‘bichinho’ experimental, e o estilo alternativo são comuns aos dois, e tornaram o processo criativo mais natural. "Tentei que com poucos instrumentos - baixo, bateria, guitarra, um sintetizador – conseguisse, de uma forma muito simples, criar alguma coisa que servisse de base para as letras da Ana" confessa o compositor. E Ana concorda. "O que eu mais gostei na abordagem do Pedro foi o facto de pegar em quatro ou cinco ferramentas e brincar aos estilos musicais. Os sons são os mesmos mas os estilos musicais são vários (…) música mais rock, mais hip hop, mais afrobeat, mais calipso, mais estilo Ace of Base dos anos 90, e foi muito engraçado" brinca.
 
Pensado para falar em voz dupla, para pais e filhos, "Mão Verde" arranca gargalhadas às crianças e sorrisos de orelha a orelha aos pais. Nas palavras de Ana, "os pais também gostam porque - nas letras e nos estilos de música que o Pedro explorou – acabamos por fazer música também para eles, porque são eles que vão ouvir a música no carro em repeat, até enjoar, e acompanhar as crianças aos concertos e se puderem também gostar do que ouvem é óptimo".
 
«Desconfia de alguém que não gosta de chocolates, desconfia de alguém que não gosta do Chico Buarque» são algumas das letras das músicas que "Mão Verde" contempla, e que mostram o tal jogo de palavras que são quase como private jokes, referências e piadas que só os pais entendem, e que as crianças, à medida que vão crescendo, vão percebendo mais tarde qual era aquela ironia. Há, por isso, há várias camadas de entendimento que elevam o trabalho de Ana e Pedro a uma sonoridade mais alta.
 
Depois de passar por vários auditórios em todo o país, o projeto chega a 5 de Fevereiro à Casa da Música no Porto, em forma de quarteto. A Ana e Pedro juntam-se Francisca Cortesão no baixo e nas teclas, e António Serginho nas percussões, para um concerto que convida a bater o pé do princípio ao fim.
 

Por Rita Silva Avelar

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