Artes

Magia pelo ar: os 40 anos da Companhia Nacional de Bailado

No palco são seres etéreos. O fruto, ao longo do tempo, da genialidade de coreógrafos e de compositores e também de muito trabalho, de uma grande perseverança e de uma maior dedicação. Para celebrar os 40 anos de existência da Companhia Nacional de Bailado, captámos, em exclusivo, bailarinos e coreógrafos que são o testemunho de uma grande companhia e de uma arte maior. A CNB estreia O Lago dos Cisnes a 8 de dezembro.
Por Carolina Carvalho, 07.12.2017

O palco iluminou-se para uma plateia vazia. A coreografia pedia improviso perante uma câmara fotográfica que procurava captar, em imagens estáticas, a magia dos movimentos da dança. E os dez bailarinos da Companhia Nacional de Bailado (CNB), que assumiram o papel de protagonistas, não desiludiram. Pelos corredores do Teatro Camões (residência atual da Companhia), "desfilaram" uma mistura de roupa de bailado e de peças de moda de autor com sapatilhas de pontas, numa espécie de metáfora que mostra como a dança, com a graciosidade dos seus movimentos, é uma forma de arte inspiradora e incontornável. Em preparação, neste ano de aniversário da Companhia, estava O Lago dos Cisnes que subirá ao palco naquele teatro, em 8 de dezembro deste ano, numa reposição da versão coreografada por Fernando Duarte (fotografado neste artigo) e com filme de Edgar Pêra, estreada em 2013. Mas o clássico de Tchaikovsky esteve presente em outros momentos marcantes da história da Companhia. Um deles aconteceu na estreia da CNB, em dezembro de 1977, cujo programa era composto por diferentes peças, entre elas o segundo ato daquela obra. O Lago dos Cisnes voltou a estar em cena em 1986, no palco de São Carlos, com os bailarinos-estrela da Ópera de Paris, Sylvie Guillem e Manuel Legris. Foi a primeira vez que se realizou a versão integral da obra, na CNB, e teve autoria de Armando Jorge. O bailarino português tinha uma carreira internacional e já era mestre de baile no Canadá quando, em 1977, David Mourão-Ferreira, recém-nomeado Secretário de Estado da Cultura, assinou o despacho que dava início à Companhia Nacional de Bailado. Na origem do projeto esteve um quarteto magnífico composto por Luna Andermatt, Vera Varela Cid e Pedro Risques Pereira. A eles juntou-se Armando Jorge, à distância. Havia de voltar para Portugal, em 1978, como Mestre de Bailado e, no ano seguinte, assumiu o posto de Diretor Artístico da Companhia, durante 15 anos. Antes da CNB, foram dois os expoentes máximos da dança, em Portugal: a Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, formada durante o Estado Novo, em 1940, e que se prolongou até à década de 1970; e o Ballet Gulbenkian, fundado em 1965 e que seria abruptamente extinto, em 2005. Com a Companhia Nacional de Bailado, Armando Jorge recorda que "quis introduzir, em Portugal, uma nova forma de ser profissional, virada para dança clássica". Partiu, então, para Londres, onde fez audições para formar um corpo de baile (que o próprio considerava fundamental), estruturou a Companhia e criou uma escola de dança no Teatro de São Carlos, onde a Companhia esteve instalada nos anos iniciais. Armando Jorge garante que o essencial era ter o "carisma português", por isso sempre tentou "introduzir no repertório da Companhia um cunho de caráter poético". Depois de se ter estreado como coreógrafo na CNB com a peça Carmina Burana, em 1979, afirma que a década de 1980 foi o apogeu da Companhia: pela primeira vez, obras de Balanchine foram dançadas em Portugal; também estrearam obras essenciais do repertório clássico (como O Pássaro de Fogo, O Quebra-Nozes ou La Bayadère, entre outras); a Companhia promoveu inúmeros espetáculos, tanto nos teatros do Chiado (São Carlos, São Luiz e Trindade) como em cerca de 70 cidades e vilas espalhadas pelo país, tendo ainda partido em digressão por Macau, China e Brasil.

Para o sucesso da Companhia, muito contribuíram as obras de vários coreógrafos com as suas interpretações de histórias conhecidas e de obras reconhecidas (algumas internacionalizaram a Companhia). Por isso, era essencial nesse trabalho juntar aos bailarinos os mestres que os coordenam: os coreógrafos. Por diferentes motivos, não puderam aceder ao convite da Máxima para participar nesta celebração os veteranos Armando Jorge, Vasco Wellenkamp e Rui Horta e, ainda, São Castro, António Cabrita e Paulo Ribeiro, este último o Diretor Artístico da CNB, desde o ano passado, o qual garante que os desafios são os mesmos de outras instituições nacionais: "Criar futuro, tornar-se mais especial e crescer. Ser um parceiro importante dos parceiros europeus e mundiais. E estabelecer relações dentro e fora do país." Nesta conformidade, Paulo Ribeiro conta-nos que as celebrações deste 40.º aniversário da Companhia incluíram uma tournée por todo o país, entre março e julho, recheada de iniciativas. Já em 1977, Armando Jorge sugeriu que o primeiro espetáculo da CNB tivesse lugar na cidade do Porto, o que aconteceu no Teatro Rivoli, em 5 de dezembro daquele ano, de modo a mostrar que se tratava de um projeto nacional. Doze dias volvidos sobre esse espetáculo, consumou-se a estreia oficial, no Teatro de São Carlos, em Lisboa. Não obstante alguns percalços no seu historial, a Companhia conseguiu manter, estoicamente, a sua existência e acumular conquistas ao longo destas quatro décadas, bem como a dedicação de todos os que da sua história fazem parte, comprovando que, mais do que trabalho, a dança é uma paixão. Até ao cair do pano.


Coreógrafos (Fotografia na galeria)

Clara Andermatt (Lisboa, 1963)

A sua mãe, Luna Andermatt, foi fundadora da Companhia Nacional de Bailado e foi com ela que Clara começou a dançar. "Com a Luísa Taveira [que foi diretora artística da CNB], a Companhia tem um novo fôlego e é com ela que eu sou convidada para coreografar. A Luísa convidou nove coreógrafos para fazer o espetáculo Uma Coisa em Forma de Assim (2011), com o Bernardo Sassetti a tocar ao vivo." Na sua própria companhia, ACCCA - Companhia Clara Andermatt, fundada em 1991, desenvolve um trabalho diversificado, nomeadamente, e por exemplo, com pessoas deficientes.

 

Fernando Duarte (Lisboa, 1979)

Ingressou, aos dez anos, na Academia de Dança Contemporânea, em Setúbal, porque os pais estavam muito ligados ao ensino da arte. "Quando terminei o curso entrei na Companhia Nacional de Bailado, onde dancei até 2011. Comecei a acumular funções de professor ensaiador na Companhia, depois fui mestre de bailado e, como tal, pude apresentar quatro versões dos grandes clássicos: O Lago dos Cisnes, em 2013 [de novo em cena, em dezembro], O Quebra-Nozes, em 2014, O Pássaro de Fogo, em 2015, e La Bayadère, em 2016." Neste momento trabalha como freelancer, dedica-se ao ensino em pequenas escolas e a projetos independentes e coreográficos.

 

Olga Roriz (Viana do Castelo, 1955)

Começou a dançar aos três anos e estudou no Teatro de São Carlos, até aos 18 anos de idade. "Na [Companhia] Nacional fui convidada pelo Armando Jorge para fazer uma criação, na década de 1980. E pensei em fazer as Troianas, de Jean Paul Sartre. Foi uma experiência incrível… Eram 26 mulheres. Foi a primeira vez que dançavam descalças, que se atiravam para o chão e que dançavam com os cabelos soltos. Depois, voltei para fazer uma peça sobre Pedro e Inês, em 2003. Teve imenso sucesso e foi para Banguecoque e para Moscovo. Fico muito feliz que as peças que fizeram o acesso da Companhia ao exterior sejam as minhas. Neste momento, estou a preparar a candidatura, de quatro anos, à Direção-Geral das Artes."

Rui Lopes Graça (Torres Novas, 1964)

No Porto, aos 19 anos, assistiu a um espetáculo de dança, pela primeira vez, e decidiu dançar. Conquistou uma bolsa no Ballet Gulbenkian e, de seguida, outra na escola da Companhia Nacional de Bailado. "Dancei durante muitos anos. Em 1998 comecei com as primeiras peças coreográficas, na Companhia. Fiz muitas até que tive necessidade de trabalhar fora – gosto de sentir que tenho liberdade – e comecei o meu percurso como coreógrafo independente. Continuo a pertencer à Companhia, pediram-me para fazer um projeto e, neste momento, sou coordenador do espaço, na Rua Victor Córdon, que é a antiga residência da Companhia."

Victor Hugo Pontes (Guimarães, 1978)

"Não comecei na dança, pois comecei nas artes plásticas e no teatro. Fui parar à dança, por acaso." Para a CNB fez uma criação. "Foi um projeto gigantesco (2016) que tinha 36 bailarinos e chamava-se Carnaval, a partir do Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, que só tem a duração de 24 minutos. Por isso, convidámos doze compositores contemporâneos para comporem uma peça, cada um, para acrescentar ao espetáculo." O seu próximo projeto chama-se Margem e parte dos Capitães de Areia, de Jorge Amado, com estreia em 27 de janeiro, no Centro Cultural de Belém.

 

Fotografia de Pedro Ferreira. Styling de Xana Guerra 

Assistente de fotografia: João Tainha. Assistentes de styling: Lúcia Valdevino e Catarina Chimeno. Maquilhagem: Cristina Gomes, assistida por Catarina Pacheco. Cabelos: Helena Vaz Pereira, assistida por Alexandre Soares e Madalena Costa 

 

A Máxima apresenta os mais sinceros agradecimentos à Companhia Nacional de Bailado pela disponibilidade e pelas condições concedidas para a realização deste artigo, nomeadamente através de Pedro Mascarenhas.

A carregar o vídeo ...
Making of: magia pelo ar

 

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
Vídeos recomendados
Outras notícias Cofina
0 Comentários
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!