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Ivan Jablonka: "Quis contar a história de uma rapariga que foi vítima de demasiadas formas de abuso e de violência"

A morte de Laëtitia Perrais foi um dos acontecimentos mais mediáticos em França nos últimos anos e Ivan Jablonka quis investigar o caso. Em entrevista à Máxima, o sociólogo francês diz como é contar a história de vida de uma rapariga que nunca conheceu.
Por Carlota Morais Pires, 30.11.2017

"Laëtitia Perrais foi raptada na noite de 18 para 19 de janeiro de 2011. Era uma empregada de mesa de 18 anos que vivia em Pornic (na Costa Francesa). Levava uma vida aparentemente normal na família de acolhimento onde foi posta com a sua irmã gémea. O assassino foi detido ao fim de dois dias, mas foram precisas duas semanas para encontrar o corpo de Laëtitia." Estas são as primeiras frases de Laëtitia ou o Fim dos Homens, o livro do sociólogo e historiador francês Ivan Jablonka, publicado e distinguido com o prémio literário Le Mondeem 2016, traduzido agora para português pela Bertrand.

A história é verdadeira e conta o desaparecimento de Laëtitia Perrais, explorando os contornos de um dos casos mais mediáticos de sempre em França, que se tornou ainda maior à medida que a polícia descobria novas pistas, não só sobre o violento assassinato de Laëtitia mas também sobre os abusos de que foi vítima em vida.

Ivan Jablonka interessou-se pelo caso, avançou com a sua própria investigação e escreveu-a em homenagem à rapariga de 18 anos que nunca chegou a conhecer. "Quando ouvi falar da Laëtitia pela primeira vez foi depois da sua morte. Fiquei muito impressionado e comovido por sentir que a morte desta rapariga, por ser tão mediática, ganhou mais importância do que a sua vida. Quis escrever sobre a vida de Laëtitia e lembrar a sua existência antes de falar sobre o seu desaparecimento."

O autor está em Lisboa a propósito do lançamento da versão do livro em língua portuguesa e encontra-se com a Máxima num hotel na Rua Castilho. Fala pausadamente e escolhe cada palavra com cuidado, mergulhado na sua narrativa. Diz que não quer deixar nenhum detalhe ao acaso. "Contei a história de uma rapariga que foi vítima de demasiadas formas de abuso e de violência. Não quero culpar ninguém – sou historiador e o meu trabalho passa apenas por compreender os acontecimentos, perceber a ordem e a razão das coisas." Volta a referir que sempre quis contar a história com sensibilidade, que queria respeitar a família de Laëtitia, repor os fatos, tantas vezes distorcidos em reportagens, investigações e publicações mais superficiais – afinal, falamos de um acontecimento que esteve no centro de todas as atenções em França e na Europa em 2011. "Este caso tornou-se um assunto de Estado quando o Presidente Sarkozy falou publicamente duas vezes sobre o desaparecimento de Laëtitia, o que acabou por alimentar a curiosidade da imprensa, que não largava a história, constantemente à procura de mais informação."

Para escrever o livro, Jablonka conversou durante horas a fio com Jessica Perrais, irmã gémea de Laëtitia. Diz que também encontrou Laëtitia em "pessoas que a amaram – familiares, amigos, colegas – ou que reconstituíram os seus últimos instantes – magistrados, polícias, médicos-legistas, advogados, jornalistas". Investigou a fundo a sua existência, desde a infância à altura da sua morte com 18 anos. Depois, quis compreender o ambiente em que vivia e com quem conversava, com o que sonhava. "A parte mais difícil foi recolher os testemunhos da família. Queria ser muito rigoroso, tinha medo de os interpretar de forma errada, de escrever um texto que não traduzisse exatamente a essência de Laëtitia, que era exatamente o que eu mais queria mostrar."

Ao longo da narrativa, o autor interrompe a ordem cronológica real dos acontecimentos com histórias do passado e faz uma analepse: um capítulo fala sobre a noite do rapto, outro sobre a infância, e assim sucessivamente, seguindo esta ordem temporal. "A morte de Laëtitia explica-se pela sua vida, pelos abusos de que foi vítima. Ela não teve medo do agressor porque sempre assistiu a comportamentos violentos desde bebé. Senti que o passado tinha de ser contado desta forma, para que o futuro fosse compreendido."

No título, Jablonka fala sobre o fim dos homens. Que homens são estes? "Os agressores, os homens que agrediram Laëtitia durante a sua vida, os que acabaram por a matar, os que continuamos a ver na televisão nas estatísticas de violência doméstica. Estes atos estão enraizados em ideias antiquadas que separam os homens das mulheres, a um qualquer conceito de masculinidade apoiado pela violência. A morte de Laëtitia não pode ter sido em vão – tem de marcar o início de um novo tempo, mais seguro para as mulheres. É por isso que o meu título anuncia o fim destes homens. Vou ser sempre um feminista."  

 

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