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Entrevista Cláudia Caldeirinha: "se eu disser a 200 pessoas para pensarem na palavra líder quase 100% vão pensar no homem”

Conversámos com uma das mulheres portuguesas que está a mudar de forma prática a desigualdade de género, da Europa para o mundo.
Por Rita Silva Avelar, 31.10.2017
Chamar-lhe de ativista é como reduzi-la a uma parcela do mundo. Cláudia Caldeirinha é investigadora, professora, feminista, política e uma mulher de olhos postos no passado, no presente e no futuro. Nasceu em Timor Leste e desde pequena que a consciência da mudança atravessa toda a sua vida – e a vontade de a implementar em tudo o que faz, também. Ao longo dos 47 minutos de entrevista (eram 15, inicialmente) confessou-nos que no dia em que ouviu Emma Watson dizer "if not you, who? If not now, when?", num discurso como embaixadora das Nações Unidas, decidiu que a responsabilidade de escrever Women Leading The Way In Brussels – o livro que acaba de publicar sobre as histórias das mulheres que estão a mudar o mundo, cada uma à sua maneira, a partir do Parlamento Europeu, em Bruxelas – era sua. Escrito em conjunto com Corinna Hörst (diretora, em Bruxelas, do The German Marshall Fund of the United Statese ela própria uma líder e ativista), reúne retratos e histórias de 14 mulheres, da esfera política à social, com exemplos práticos de como o poder no feminino pode ser posto em prática em situações laborais, sempre numa linguagem em paralelo com a igualdade de género.

Começou a fazer voluntariado muito nova – já tinha uma pequena ativista dentro de si?
Nasci em Timor Leste e isso marcou-me para sempre. O facto de ter voltado [para Portugal] muito pequena e de ter visto e convivido com as comunidades timorenses de refugiados que vinham com histórias de torturas horríveis, todas elas com imenso sofrimento, mas ao mesmo tempo resiliência, sentido de honra e dignidade, marcou claramente a minha necessidade de fazer alguma coisa pelo mundo e foi numa altura da nossa História em que víamos imagens horríveis dos fogos em África na televisão, na hora do telejornal, à hora de jantar (algo muito típico em Portugal). Percebi cedo que existia algo de muito errado no mundo e aos 16 anos já estava a fazer abaixo-assinados sobre os direitos humanos.

É hoje ativista e investigadora dos Direitos da Mulheres. Porque decidiu dedicar-se em especial a este tema?
Eu tive muitos pontos de viragem. Na verdade, o ativismo veio de muitos lados e veio misturado na minha história, por isso hoje acabo por ter muitos ‘chapéus profissionais’. Neste momento, sou empreendedora, tenho uma empresa que faz consultoria a instituições europeias, às Nações Unidas e a algumas empresas grandes. Antes dirigia várias organizações, uma era a Club de Madrid, uma associação composta por presidentes e primeiros-ministros, numa altura em que me apaixonei pelas questões de liderança e percebi que para mudar o mundo não basta trabalhar com as bases (são fundamentais, mas é importante trabalhar também com as lideranças). Para mim, ser-se ativista não representa andar na rua a fazer manifestações, mas sim tentar ter valores de dignidade, direitos humanos e ética em tudo o que faço, seja como empreendedora, como investigadora, como autora, como professora universitária – é ter esse tipo de coerência.

Quando se apercebeu da desigualdade de género e dos seus efeitos? Em que situação foi?
As minhas primeiras memórias são todas ligadas ao drama de Timor. Era miúda, tinha uns seis anos e a minha mãe, juntamente com as outras mulheres adultas que falavam com as mulheres timorenses, conversavam sobre histórias horríveis, enquanto nos punham a nós, crianças, noutras salas a comer doces e a fazer atividades. No entanto, conseguíamos sentir a tensão e, pouco a pouco, comecei a tentar ouvir as conversas, e eram todas sobre como estas mulheres tinham sido ou violadas ou torturadas, como os seus maridos tinham sido mortos ou torturados à frente delas, ou sobre filhos que tinham sido massacrados – tanto mulheres como homens contavam estas histórias. A diferença, para mim, foi que enquanto nos homens, sim, havia tortura e morte, nas mulheres existiam doses adicionais de drama que tinham a ver com o seu próprio corpo. Eram esterilizadas em massa para que os indonésios pudessem ocupar o território e violadas como parte da política de ocupação para gerar uma nova geração de mestiços que fossem a favor da ocupação indonésia. O corpo da mulher, sexualmente, fisicamente, na sua integridade, estava na primeira linha da ocupação política. A partir daí, comecei a compreender o que tudo isto queria dizer.

Quem são as referências que a inspiram para fazer o que faz, todos os dias?
Há duas frases da Maya Angelou que tenho escritas na porta da minha casa. "I would like to be known as an intelligent woman, a courageous woman, a loving woman, a woman who teaches by being" e "Success is liking yourself, liking what you do and liking how you do it". Mesmo ao lado da Maya, tenho uma frase do Gandhi que diz: "Happiness is when what you think what you say and what you do are in harmony." Há muitas mais inspirações, como a Mary Robinson, com quem trabalhei, e agora as 14 mulheres do meu livro.

Women Leading The Way In Brussels revela as histórias das mulheres que mais contribuíram para a União Europeia. Como surgiu esta ideia?
A ideia nasceu há muitos anos, para mim foi um processo que levou mais de dez anos a germinar e saiu da minha própria necessidade. Quando cheguei a Bruxelas, há 15 anos (estava a fazer um doutoramento em Florença e ia fazer uma fase do estágio na Comissão Europeia), percebi que todo o poder do mundo está em Bruxelas, é como Washington ou Genebra. Por um lado, é extremamente óbvio e complexo, e começando a olhar à volta vemos que todas as pessoas que tomam decisões são homens. Começas a pensar: eu sou mulher, sou jovem, what’s the way out? Como é que eu mudo o que eu quero mudar neste contexto? Durante vários anos esperei que alguém escrevesse este livro, falei dele a jornalistas, ninguém queria escrever. Depois a certa altura apareceu esta jovem Emma Watson que na campanha HeForShedas Nações Unidas disse "if not you, who? If not now, when?" e nessa altura eu pensei: "Ok, eu não vou receber lições de uma miúda!" Convidei a Corinna Horst, que é a minha coautora, e começámos a reunir pessoas com quem lidamos e trabalhamos no nosso quotidiano e cujas histórias podem ser extremamente inspiradoras para outras mulheres, (…) que dão conselhos, ideias e recomendações para quem toma decisões nas próprias empresas e instituições, para fazerem as mudanças que têm que ser feitas, não só a nível individual como sistémico e institucional.

Como foi feita a seleção das mulheres que participaram no livro?
Primeiro tentámos representar a diversidade de Bruxelas – as instituições europeias, a NATO, grupos de interesses organizados, os media, as fundações, as ONGs, o mundo do sector privado. A partir daí, fizemos listas e selecionámos as que achávamos que estavam a ter um papel de role models.

Também coordena o Programa Executivo para Mulheres Líderes. Porque é que as pessoas ainda continuam a desconfiar de mulheres assertivas, sobretudo em contextos laborais?
Nós vivemos durante milénios numa sociedade patriarcal, somos ainda parte dos pioneiros. Não somos as sufragistas que andaram a partir vidros para terem direito a votar na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas ainda fazemos parte das gerações que vieram depois e foram pioneiras em modificar uma mentalidade velha, de milénios, em que pensar em líder é pensar num homem. Se eu disser a um público de 200 pessoas à minha frente "pensem na palavra líder" provavelmente quase 100% vão pensar no homem e no homem branco. Isto é formatação, são estereótipos de género, é o unconscious bias, que todos nós temos, porque o nosso cérebro ainda funciona desta maneira. Para podermos processar de forma rápida os milhões de informações que recebemos todos os dias e a cada momento, o nosso cérebro tem de ter atalhos. E esses atalhos são feitos por generalizações que nos são dadas e que reproduzimos, consciente ou inconscientemente, desde sempre. Vêm dos nossos pais, da escola, da sociedade, dos livros que lemos. Ainda hoje, se virmos nos desenhos animados, ainda temos a mulher que limpa os pratos e o homem que é o presidente ou o chefe. Continuamos ainda a reproduzir estes modelos – todos nós. O cérebro humano pode ser modificado, estas coisas podem ser mudadas. Felizmente há alguns sistemas que permitem eliminar, pouco a pouco, esta discriminação. Por exemplo, há alguns anos uma orquestra filarmónica de Nova Iorque tinha uma enorme maioria de músicos homens brancos até que decidiu-se fazer uma experiência. Quando faziam as audições metiam uma cortina e não podiam ver o candidato, só podiam ouvir. O júri era composto por boas pessoas, estavam todos convencidos que não tinham nenhum bias, a partir do momento em que começaram a instalar cortinas e só se concentravam na música. O aumento de mulheres e pessoas de diferentes etnias aumentou 70%.

Se pudesse mudar apenas uma coisa no mundo, o que seria?
Criaria em todos os sectores – político, social, económico – diversidade e diversidade não são só de homens e mulheres mas também de etnias, religiões, grupos. Ter representatividade ao nível das lideranças. Depois, de uma maneira mais holística, gostava que existisse consciência coletiva de que estamos a começar a entrar na quarta revolução industrial, a maior de sempre, com a inteligência artificial, com as mudanças climáticas, com o aumento demográfico, com a redução de recursos básicos como a água, a alimentação, etc. Estamos a entrar numa fase da nossa história humana em que estamos em risco. Precisamos, cada um de nós, de ser responsáveis para tentar mudar e liderar na nossa pequena ou grande esfera de influência (…) e sermos atores para uma consciencialização e mudança positivas que nos permita sobreviver. Para que daqui a 200 anos não sejamos uma espécie em vias de extinção.

Women Leading the Way in Brussels só chega a Portugal em 2018, mas pode adquiri-lo já aqui.
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