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Entrevista Cíntia Gil, diretora do DocLisboa: “É preciso acabar com o mito do cinema de autor vs. cinema comercial”

Antecipamos a aguardada estreia da 15.ª edição do festival de cinema documental e do real com uma conversa com Cíntia Gil, diretora do DocLisboa. Uma pista inesperada? O filme que abre a programação, a 19 de outubro, é uma ficção nacional.
Por Carlota Morais Pires, 12.10.2017

Esta é a 15.ª edição do Festival Internacional de Cinema Doclisboa que, de 19 a 29 de outubro, traz a Lisboa 231 filmes de 44 países. Ainda que o certame tenha como ponto de partida o género documental e o cinema do real, a programação continua a experimentar o confronto de géneros e diferentes formatos (incluindo a ficção), alimentando novas discussões sobre as possibilidades do documentário.

Agora, a programação abraça duas retrospetivas. A primeira é dedicada a Vera Chytilova, cineasta checa que tem construído uma obra centrada nas relações humanas e na emancipação da mulher, mas também numa voz crítica que quer mostrar no grande ecrã a decadência moral da sociedade e do regime comunista. Depois, a mostra de cinema reúne um conjunto de filmes com uma peculiar perspetiva do cinema documental das décadas de 60 e 70.

 Conversámos com Cíntia Gil, diretora do festival, para saber o que podemos esperar da mostra e como podemos absorver (e digerir) ao máximo uma programação tão completa e diversificada.  

 

 

Como foi alinhada a programação desta 15.ª edição do Doclisboa? Qual é o fio condutor desta seleção de filmes?

Todas as edições do festival resultam do encontro entre os filmes produzidos em cada ano, os acontecimentos políticos, sociais, culturais em Portugal e no mundo, e as decisões por nós tomadas quanto a focos e retrospetivas. Os critérios mudam muito de secção para secção ? é completamente diferente programar uma competição ou uma secção como o Heartbeat. Mas há um critério que prevalece em todas as secções: todos os filmes que o Doclisboa mostra são considerados, pelos seus programadores, pelos seus temas, mas também pelas suas propostas cinematográficas. Por outro lado, tentamos simultaneamente mostrar filmes de realizadores em início de carreira e filmes de realizadores já conhecidos e com longo percurso ? de preferência não hierarquizando. Finalmente, para nós é muito importante a diversidade geográfica, cultural e de linguagens.


Uma das novidades deste ano é a criação de um prémio com a Fundação Inatel. Como e porque é que surgiu esta ligação?

A Apordoc - Associação Portuguesa pelo Documentário, responsável pelo Doclisboa, passou este ano a ser um centro Unesco. Por outro lado, o Doclisboa já há anos que colaborava com o Inatel, através do serviço educativo. O Prémio Inatel aparece numa altura em que o Inatel vê no Doclisboa o espaço certo para atribuir um prémio que se relaciona com o património imaterial, as práticas e tradições ? e o Doclisboa entendeu que tal prémio seria um elemento de prestígio para o festival e reforçava a pertinência da nossa colaboração com a Unesco.

 
Há uma exposição no Museu Berardo que também faz parte da programação. Sentiu a necessidade de expandir o festival a outros formatos além do audiovisual?

Essa necessidade (ou vontade) existe já há muitas edições. Em 2005, foram mostrados filmes do Ross McElwee nas galerias da Culturgest; em 2011, foram apresentadas instalações de Harun Farocki no Palácio Galveias; em 2012, criámos a Secção Passagens, com exposições de Chantal Akerman e Pedro Costa, e desde aí esta é uma secção fundamental no festival. Este ano é a primeira vez que o Doclisboa está no Museu Berardo, que nos acolheu de forma extraordinária, com uma exposição de Sharon Lockhart comissariada por Pedro Lapa. Sharon Lockhart, assim como uma série de outros artistas que já mostrámos ou viremos a mostrar, trabalha precisamente nas passagens entre os filmes para a sala de cinema e o espaço expositivo ? trabalhando não só com cinema mas também com fotografia e outros objetos. Esta é uma tradição artística que tem cada vez maior impacto na própria transformação do cinema a nível mundial.

 

Como surgiu e evoluiu o Doclisboa? Qual é a história do festival?

O Doclisboa tem um antepassado, que foram os Encontros da Malaposta, organizados pelo Manuel Costa e Silva e, depois da sua morte, pelo Luís Correia, com o apoio da Amascultura.

Depois disso passou para o CCB e posteriormente para a Culturgest, em 2004, com direção de Ana Isabel Strindberg, Sérgio Tréfaut e Nuno Sena. Desde aí cresceu tanto em termos de público como de visibilidade nacional e internacional, porque as equipas que o fizeram souberam sempre acompanhar as transformações no cinema e estar atentas ao mundo, fazendo do Doclisboa um espaço realmente interventivo e vivo, tanto na formação dos públicos como no diálogo político e institucional com o meio. Este ano é a 15.ª edição do Doclisboa e sairá no catálogo uma interessante conversa sobre este tema com os seus primeiros diretores.

 

No festival vai ser feita uma retrospetiva do trabalho da checa Vera Chytilova. Porque é que é relevante falar da realizadora agora?

Quando um realizador é relevante, é sempre relevante falar dele. Vera Chytilova é uma realizadora fundamental na história do cinema da Europa de Leste e em particular do cinema checo, e muito pouco conhecida em Portugal, à parte Daisies (As Pequenas Margaridas), que teve estreia cá. Chytilova experimentou inúmeras formas e temas e fez um cinema que entra de modo profundo nas questões existenciais dos humanos, nos pequenos gestos, com especial interesse pelo mundo das mulheres. Fez um cinema que reflete, de modo muito contemporâneo, os paradoxos existenciais que vivemos. E viveu em dois países, Eslováquia e República Checa, numa transição por vezes difícil em termos pessoais ? chegou a ser impedida de filmar, embora nunca tenha abandonado o país. Teve um envolvimento político a certa altura, foi aluna e depois professora na FAMU (uma das mais importantes escolas de cinema da Europa). Na sua obra vemos uma vida plena de acontecimentos, individuais e coletivos, que Chytilova soube traduzir para o cinema.

 
Quais são os filmes portugueses em cartaz?

Não vou nomear todos, porque são dezenas! Mas é importante destacar que a Competição Portuguesa é bastante grande e de enorme qualidade, com realizadores de diferentes gerações, com formas e temas muito diversos. E também estamos muito felizes por tanto o filme de abertura ser português (Ramiro, de Manuel Mozos) como o filme de encerramento ser uma coprodução portuguesa (Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós). Destaco também os Verdes Anos, onde uma série de novos realizadores apresentam os seus primeiros filmes, e de onde já saíram vários realizadores que vieram a mostrar filmes noutros contextos (como Cristina Hanes, que ganhou o Leopardo de Ouro na Competição de Curtas Metragens em Locarno).

 

O que está a faltar ao cinema português agora?

Ao cinema português tem faltado sobretudo estratégia: as produtoras são, na maioria, estruturas que com enorme esforço conseguem internacionalizar os filmes, as agências e associações também, mas falta uma estratégia nacional para isso. O ICA tem responsabilidades nesse sentido: não basta criar incentivos para coproduções ou para rodagens em território nacional, é preciso ter estratégias diversificadas para divulgar os filmes. Se os filmes portugueses têm tido tanto sucesso internacionalmente, não tenho sombra de dúvida de que se houvesse esta articulação, seriam mais os filmes a circular.

Além disso, falta uma política de exibição consistente: o hiato entre Lisboa, Porto e o resto do país é inaceitável, sobretudo numa época em que o digital permite uma circulação facilitada de cópias. As entidades privadas estão a fazer um esforço necessário, mas que devia ser mais apoiado e articulado com o Instituto do Cinema e Audiovisual. É preciso acabar com o mito do cinema de autor vs. cinema comercial, é preciso acabar com a ideia de que os números de público são o dado mais importante para avaliar, apoiar ou exibir um filme. Não são. O mais importante é compreender que há filmes que terão público enquanto as suas cópias existirem, mesmo daqui a 100 ou 200 anos. Isso não se contabiliza, mas é aquilo que fica e servirá para que os públicos do futuro tenham uma filmografia a descobrir.

 

Que impacto é que iniciativas como o Doclisboa têm no cinema português? Será que é uma forma de despertar as novas gerações para filmes com uma perspetiva diferente (fora do contexto dos blockbusters de Hollywood) e para o cinema de autor? 

 Claro que sim, como todos os outros festivais de cinema, como as salas de cinema que não exibem (só) os blockbusterse, sobretudo, como a Cinemateca. É importante dizer que quando o Doclisboa surgiu, o cinema documental era visto como um género minoritário, televisivo, sem relevância. Isso mudou, tanto na perspectiva do público como dos realizadores, como dos produtores. Não tenho qualquer dúvida de que o contributo da Apordoc e do Doclisboa para tal foi decisivo.

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