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Entrevista Barbara Massaad: “Precisamos de aprender a tolerar a diferença e aceitá-la”

A autora de Sopa para a Síria fotografou os rostos das crianças daquele país e recolheu 200 receitas de chefs de todo o mundo num livro para apoiar a comunidade de refugiados.
Por Rita Silva Avelar, 24.10.2017
Nasceu na capital do Líbano, Beirut, mas cedo se mudou para a Florida, onde ganhou experiência como cozinheira a ajudar no restaurante libanês do pai e da família, Kebabs & Things. Talvez por isso Barbara Abdeni Massaad tem uma vocação nata para ajudar os outros, uma vocação que vai além-fronteiras e nacionalidades. Cozinheira e fotógrafa de profissão, a libanesa veio a Portugal para apresentar o livro Sopa para a Síria, uma compilação de fotografias (da sua própria autoria) e de receitas à base de sopas ? conseguidas com a ajuda de vários chefs, conhecidos e desconhecidos da autora, mas todos com uma ambição comum: ajudar a comunidade síria a sobreviver à nuvem negra que paira sobre o país e as suas pessoas há mais de seis anos.

Cerca de 10% dos lucros das vendas de Sopa para a Síria (€17,91, Casa das Letras) reverte para as organizações não lucrativas que apoiam a comunidade síria. Por ocasião do lançamento do livro em Portugal, conversámos com a autora no restaurante Muito BEY, em Lisboa.

Recorda-se do momento em que decidiu agir e criar este projeto humanitário em forma de livro?
Estávamos em dezembro, mesmo antes do Natal, e, como sou mãe de três crianças, estava nesse momento a ver as notícias sobre refugiados a viver em tendas e havia muitas crianças a morrer. Aquilo tocou-me. Não consegui dormir durante a noite e decidi que queria ir e ver com os meus próprios olhos. Não podia continuar a ignorar e viver na minha pequena bolha. Tinha amigos na Síria que trabalhavam para as Nações Unidas e disse-lhes que queria ir e ver o que se estava a passar – decidi ir todas as semanas. Eles reuniram algumas roupas, comecei a tirar fotografias das pessoas e a falar com elas sobre alimentação. Não tinha intenção nenhuma de criar um livro, inicialmente.

Quais foram as convicções mais fortes nesse momento?
Que somos todos iguais. Não há diferença entre nós e eles, ou outras pessoas. Eles têm famílias e nós temos famílias – é essa a verdadeira mensagem do livro. É mostrar que os refugiados sírios não são alienígenas saídos do espaço, são pessoas como tu e eu, e as pessoas precisam de acordar e ver que isto é uma grande crise.

Como foram escolhidos os chefs que colaboraram com o livro?
Faço parte de uma associação mundial de alimentação e tenho muitos amigos que adoram cozinhar, por isso criei uma página no Facebook chamada Sopa para a Síria, para perguntar a pessoas que conhecia (e que não conhecia) se podiam doar as suas melhores receitas. Juntei 200 receitas e perguntei a essas mesmas pessoas se queriam fazer um workshop em minha casa para cozinhar todas as receitas e escolhermos as melhores. Os chefs famosos que concordaram em doar as suas receitas ficaram muito felizes por fazê-lo para esta causa.

Enquanto fotógrafa tirar estas fotografias deve ter sido um misto de emoções. Como é que se lida com momentos como estes?
Foi incrível, porque sempre que fotografava estas crianças e as suas famílias, isso tirava-os um pouco da realidade miserável por que estavam a passar e era como um jogo. Ao fim do dia era muito difícil, e podendo ir para casa, tomar um banho, e estar na minha intimidade, era bom, mas difícil.

Qual é a situação que mais a sensibiliza a respeito da realidade da Síria nestes últimos seis anos?
Muitas destas crianças estavam doentes e muitas das suas famílias não podiam pagar o tratamento. Felizmente, há associações mundiais de saúde que ajudam em casos de emergência, mas só pagam cerca de 75% do valor, por isso quase sempre têm de encontrar financiamento para os outros 25%. Essa, para mim, é a situação mais difícil de todas.
Porque é que grande parte dos países do mundo ainda insiste em voltar as costas a estas pessoas, a estas crianças que poderiam perfeitamente ser as nossas?
Porque é sempre mais fácil virar as costas e não pensar sequer nisso. Eu sei que há muitos problemas neste mundo, temos os nossos problemas locais, os nossos problemas pessoais e até os nossos problemas familiares e é difícil sair dessa esfera e pensar nos refugiados sírios. Eu não acho que devemos ignorar e, apesar de ter sido criticada por alguns amigos que achavam que devia zelar pela comunidade libanesa, e não a síria, mas para mim não existem nacionalidades, só pessoas. 

Quais são os países que mais ajudam?
Alemanha. Consigo perceber isso, por exemplo, através das vendas do livro e a forma como as pessoas reagiram à causa. Do Líbano também chegou muita ajuda para as famílias sírias (recebeu ajuda um quarto da população – que são mais de dois milhões de sírios).

O que é preciso mudar já no que respeita aos direitos humanos?
Tolerância. Isso é a coisa mais importante: se alguém é diferente de ti, isso não significa que a pessoa é tua inimiga. Precisamos de aprender a tolerar a diferença e aceitá-la.

Quando em 2015 chegaram refugiados sírios a Portugal, os portugueses foram considerados dos mais recetivos e predispostos a ajudar. No entanto, nestes últimos dois anos, muitos deles partiram. Estaremos a fazer tudo para ajudar esta comunidade ou ainda há um longo caminho a percorrer no que respeita a vencer o preconceito?
Penso que a comunidade síria tem receio de vir para Portugal porque não conhecem a língua e essa é a primeira barreira. A Alemanha não é mais fácil, já lá estive junto da comunidade síria, mas na verdade não é fácil em lado nenhum. Eles preferiam voltar ao seu país, em vez de irem para a Europa.

O que se pode fazer para ajudar a mudar esta realidade?
Quando costumava ir ao campo de refugiados sírio, no início eles não percebiam o que eu estava a fazer. Então costumava dizer-lhes que se eu fosse cabeleireira, e cortasse cabelos, o que eu faria ali era precisamente isso. Por isso, no que quer que seja que sejamos bons a fazer, devemos usar isso para fazer bem aos outros. Seja o que for. Não precisamos de ter superpoderes, apenas de ser nós próprios e fazer o bem pelas razões certas: porque estamos felizes por ajudar.
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