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Al Berto, de Vicente Alves do Ó: “Quis filmar o amor entre dois homens e percebi que isso ainda provoca medo”

Num registo tão pessoal quanto as palavras de Al Berto, Vicente Alves do Ó filma a história de amor entre o seu irmão, João Maria, e o poeta, e regista a adrenalina de uma geração de 70 à procura do que fazer com a liberdade.
Por Rosário Mello e Castro, 06.10.2017

Vicente Alves do Ó está nervoso. São nervos bons, daqueles que só acontecem a quem se dedicou de tal forma a uma coisa que agora se sente a sair de uma espécie de transe. "Foram cinco anos da minha vida ligado a este projeto, este filme viveu dentro de mim e, agora que chega finalmente às salas, tenho imensas expectativas", conta.

Alves do Ó é um realizador que tem uma relação especial com a palavra ("aos 16 anos queria ser poeta", afirma) e isso ouve-se nos diálogos de todos os seus projetos, de Florbela, o filme de 2012 sobre Florbela Espanca, a Variações, de António, a peça que levou ao palco do São Luiz o ano passado. Neste Al Berto em forma de homenagem ao poeta que conheceu tão bem, está lá tudo isso e muito mais. Acrescenta-se a ligação que teve com o seu irmão João Maria e as emoções de uma geração com vontade de agarrar a liberdade numa terra pequena.

Nesta estória dos anos 70, Vicente quis conjugar vários aspetos – o pós-25 de Abril, o preconceito, a liberdade – e filmá-los em Sines, no momento em que Al Berto regressava de Bruxelas e fazia o caminho entre a pintura e a poesia. "Vemos um grupo de amigos completamente apanhado pela personalidade dele, é o Al Berto que os junta, que os provoca", descreve. "Tudo aquilo, todas aquelas pessoas, não seriam as mesmas sem ele."

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Al Berto trailer (2017)





Para que as cenas no palácio da família de Al Berto em Sines resultassem, Vicente e o grupo de atores passaram várias semanas juntos antes do início da rodagem. "Queria que eles tivessem empatia uns com os outros para podermos acreditar que aquele era mesmo um grupo de amigos, por isso almoçámos e jantámos juntos, ficámos na mesma casa." O realizador fez questão de juntar um grupo de atores "frescos", como Ricardo Teixeira, o protagonista, ou Gabriela Barros, escolhida pelo realizador quase por acaso. "Conheci-a no Porto numa peça de teatro em que ela fazia de cão, ficamos sentados em frente um ao outro, mas nem ela sabia quem eu era, nem eu quem ela era, tivemos uma conversa surreal e achei-a incrível." Depois, foi escolhendo atores do teatro alternativo com quem se cruzava e que sentia que podiam trazer qualquer coisa nova ao filme. O José Pimentão, por exemplo, foi um João Maria à primeira vista, "soube logo que seria perfeito."

Foi também em Sines que Vicente Alves do Ó trabalhou com Al Berto nos anos 90, no Centro Cultural Emmerico Nunes, dirigido pelo poeta. Para o realizador, que também assina o argumento, tudo começou nos livros, diários e cartas que João Maria, o seu irmão, deixou, registos de uma época, e também de uma história de amor (e de um Al Berto) que tinha ficado por contar e que depois deram origem ao filme. "Este é um momento transformador para ele porque é quando abandona a pintura e escreve o primeiro livro de poemas", explica. São os anos 70 da esperança, da juventude, da cor. "Trabalhei muito esse lado estético", diz o realizador. "Pensei muito nos tons no guarda-roupa, tive o cuidado de não saturar demasiado a imagem, escolher bem os figurinos, quis fazer um retrato daquela época sem cair na caricatura."

Nesta altura, Al Berto regressava de Bruxelas para um pós-25 de Abril que se esperava trazer uma segunda revolução (que acabou por não acontecer). O preconceito, o racismo, a dificuldade de entender a diferença mudaram muita coisa mas faltou mexer com o mais importante – as mentalidades. "Quarenta anos depois, ainda se acha que a homossexualidade é uma doença. Em ficção, continua a ser tratada de forma trágica ou profundamente promíscua." Aqui, pelo contrário, filma-se o amor entre dois homens e isso continua a provocar imenso medo. "O João Maria era um homem cheio de medos e continuou a ser assim até morrer. É curioso que o meu irmão tenha vivido assim e o Al Berto não, apesar do que se pensa, mas foi o Al Berto que escreveu um livro com esse título. Acredito que há aí uma ligação."

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