Clube de Leitura

A Vida num Degrau, um livro para reflectir

Entrevistámos o autor, o Prof. Dr. Diogo Telles Correia, psiquiatra e psicoterapeuta, e autor do um novo livro sobre a depressão.
Por Máxima, 21.07.2016
Um problema que afecta muitos portugueses e que é ainda difícil de ultrapassar e, por vezes, assumir, a depressão é o tema do novo livro dProf. Dr. Diogo Telles Correia"Neste livro quis trazer uma realidade específica: a depressão". Entrevistámos o autor de "A Vida num Degrau – Histórias reais de quem venceu a depressão" para perceber o conceito do livro e sobretudo saber como podem as pessoas que estão a lidar com a doença, ultrapassá-la.
 
Qual foi a grande inspiração para escrever este livro?
Este livro vem na sequência do último livro "Eu existo", onde tento passar para a literatura aquilo que se vive no íntimo dos pacientes que me procuram. São pacientes reais do dia-a-dia, com vidas que podiam perfeitamente ser as nossas e que lutam para combater os seus receios, os seus medos, as suas sombras... E vencem. Vencem sempre.
Os meus livros têm a particularidade, a meu ver, de serem escritos de forma literária, por vezes poética, apelativa ao leitor, numa linguagem simples e acessível e que ao mesmo tempo nunca deixa escapar aspetos menos rigorosos. Um problema dos livros que se ocupam deste tema é o facto de ou serem demasiado técnicos ou serem completamente afastados da realidade, dando uma visão superficial e incorreta do que se passa.
Neste livro quis trazer uma realidade específica: a depressão. A depressão que pode tomar aspetos completamente diferentes e com tratamentos completamente diferentes também. Foi isso que quis transmitir, que a depressão pode chegar a qualquer um de nós, que se apresenta com faces diferentes de pessoa para pessoa e que o percurso para a debelar também é diferente caso a caso.
 
Como médico, foi difícil entrar no papel de escritor?
Sempre gostei de escrever. Escrevo prosa e poesia. Por isso é um desafio maravilhoso para mim unir a minha formação técnica com a minha vocação para a escrita. Espero que isto possa ser uma mais-valia para que as pessoas ganhem mais vontade por ler sobre estas questões que não são tão simples como a maioria dos livros de autoajuda apregoam, mas que podem ser perfeitamente transmitidas de uma forma acessível, agradável, apelativa e ao mesmo tempo rigorosa.
 
Como foi chegar de perto a estas pessoas, a estas histórias?
Estas histórias são baseadas em casos reais. São por isso histórias que não se afastam da realidade do dia-a-dia. É sempre um desafio muito bonito entrar no mundo dos meus pacientes. Perceber como eles veem a realidade e entrar na sua rotina, de forma a ajudá-los a superar as suas questões.
Escolhi quatro casos de depressão completamente diferentes para este novo livro. Surgem em pessoas de idades e contextos diferentes e tem precipitantes também completamente diferentes. O tipo de luta e tratamento também é muito díspar. Uma única coisa em comum entre os quatro casos é o final feliz.
No caso do António estamos perante um rapaz jovem que sempre se conheceu triste e sem vontade. É um excelente aluno, um poeta, uma pessoa realmente admirável. Mas tem uma depressão que o consome e que o faz pensar que não vale a pena viver. Travamos os dois uma luta complexa mas admirável e que chega a um fim muito feliz. O Afonso é um rapaz que desenvolve uma depressão na sequência de uma rutura amorosa. Nunca tinha tido qualquer problema até esta fase. Começam no entanto a surgir uns fantasmas da sua personalidade que precipitam uns ciúmes patológicos da namorada com a qual acaba por romper. Apenas com psicoterapia e sem recorrer a fármacos conseguimos compreender que todos aqueles fantasmas se relacionavam com questões suas de autoestima. O final foi também muito feliz com uma reconciliação.
O caso do Pedro é um caso de mobbing, o chamado assédio moral no trabalho. Uma situação tão frequente hoje em dia. Esta situação precipitou o aparecimento de uma grave depressão (algo que se torna cada vez mais frequente no caso do mobbing) que podia ter tido consequências catastróficas se não tivesse sido pedida ajuda profissional atempada. Neste caso foi a esposa do Pedro que pediu ajuda. A luta foi difícil mas o fim foi muito bonito.
No último caso tento relatar de forma literária e muito suave uma situação limite em psiquiatria. Um caso muito grave de depressão que surge no contexto de uma perturbação bipolar - aquelas situações em que há fases de euforia intercaladas com depressão. Neste caso falo de tratamentos muito controversos mas que tento desmistificar. A Joana acaba muito bem e revela-se uma pessoa cheia de genialidade.
 
A depressão ainda é vista como tema tabu em Portugal?
Portugal é um dos países europeus onde a depressão é mais frequente. E infelizmente, a depressão em Portugal é muito mal abordada, na minha perspetiva. No contexto da superficialidade e hipersimplificação da vida mental que a maioria dos livros de autoajuda e dos programas televisivos apresentam, pode ter-se uma ideia que a mente é simples e que os seus problemas se resolvem com um ou dois conselhos e força de vontade, mas não é assim. Esses livros de autoajuda e programas, que a priori podem parecer facilitadores, acabam por levar as pessoas a um estado bem pior do que estavam, porque elas acabam por achar que, se não conseguem mudar seguindo aqueles conselhos simplistas, são casos sem resolução... Casos de anormalidade... Mas não são. Todos nós temos vidas muito complexas e os problemas de saúde mental são muito complexos. Nos meus livros tento abordá-los de uma forma literária, agradável ao leitor, mas realista... Não fugindo da verdade que há dentro de nós. Para mim, só assim se consegue debelar os problemas de saúde mental. Problemas esses que qualquer um de nós pode ter porque a depressão é muitíssimo frequente.
É fundamental não simplificar estas questões, mas abordá-las sempre por técnicos muito experientes e com boa formação e de forma adequada, tentar explicar o que realmente é a depressão e quais os tratamentos mais eficazes. Que não é uma questão de força de vontade nem é uma dúzia de conselhos de autoajuda que vão debelar a depressão. É necessário ir ao psiquiatra.
 
Qual o melhor conselho para quem está a passar por esta doença?
O mais importante é recorrer a um médico psiquiatra experiente. Ele poderá fazer o seu diagnóstico e despistar outros problemas médicos, como problemas de tiroide ou de anemia, por exemplo, que podem simular uma depressão. Depois ele vai explicar quais os tratamentos mais adequados: psicoterapia e/ou psicofármacos. É importante que não se diabolize a medicação psiquiátrica. Quando prescrita por um médico psiquiatra experiente, a medicação psiquiátrica pode ter resultados realmente milagrosos e sem efeitos secundários relevantes. Os produtos naturais que muitas vezes são vendidos para tratar situações psiquiátricas como a depressão podem ter consequências muito mais graves! Estes produtos, ao contrário dos medicamentos, não foram sujeitos, na maioria dos casos, a testes rigorosos de segurança. Já vi vários doentes nas urgências que abusaram de "produtos naturais" comprados fora das farmácias, com consequências dramáticas.
Por isso, é essencial ir a um psiquiatra experiente que determinará se é ou não necessário tomar medicação. Depois comunica esta ideia ao paciente e é em diálogo com o paciente que se planeia qual o melhor tratamento para ele. Se for necessário tomar medicação, hoje em dia há escolhas muitíssimo seguras, com resultados fantásticos, sem efeitos secundários relevantes e que são tomadas geralmente por um período limitado de tempo. A medicação psiquiátrica pode salvar vidas. Só quem não vê pacientes com gravidade pode negar esta situação. As pessoas que denigrem a imagem da medicação psiquiátrica não têm experiência em prescrevê-la e não conhecem os seus resultados.
Em relação à psicoterapia esta pode ser desenvolvida pelo próprio médico psiquiatra ou este pode recomendar outro técnico como por exemplo, um psicólogo.
Deixo também uma mensagem muito importante: a maioria dos livros de autoajuda não só podem não ajudar como podem agravar a depressão. 

Por Rita Silva Avelar
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