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Tendência: Sapatos impossíveis de calçar

Porque é que os criadores insistem em desenhar plataformas demasiado altas, saltos impossivelmente finos e objetos artísticos não identificáveis que só conseguimos imaginar nos pés de supermodelos alienígenas? Fomos investigar.
Por Carlota Morais Pires, 03.10.2017

Começa a Semana de Moda de Paris e atiramos apostas para a mesa, numa difícil tentativa de antecipar o que vamos ver na coleção de Anthony Vaccarello para o verão de 2018 da Saint Laurent. Provavelmente, minivestidos em pele, ombros exagerados e stilettos, claro. Mais difícil era adivinhar que os pontiagudos saltos em pele preta (símbolo do conceito visual que associamos à ideia do que é ser chic e parisiense) eram exatamente como os imaginávamos à exceção do… salto! Os passos da modelo eram firmes, mas nada parecia sustentar o calcanhar do pé, em suspensão. Não sabemos como conseguiu fazê-lo, só suspeitamos que as suas capacidades sobrenaturais conseguiram estar à altura da vontade de Vaccarello em desafiar as leis da Física.

Esta subversão não é uma novidade de agora. Em 1993, Vivienne Westwood calçou Naomi Campbell com os saltos mais altos que conseguiu imaginar – que acabou por provocar uma das fotografias (ou quedas no meio da passerelle) mais icónicas da história da moda. E Alexander McQueen sempre gostou de confundir a moda com a arte nas coleções de ready-to-wear, mas também nos sapatos com saltos arquitetónicos, em formas que pareciam impossíveis de concretizar fora de um palco, sem a impressionante habilidade de acrobatas experientes e focados, isto é, de modelos que os conseguiram calçar sem perder o equilíbrio.

No nosso tempo temos outros designers tão geniais como megalómanos, como Iris van Herpen, que não só gosta de mergulhar no universo estético de McQueen como mostra o mesmo fascínio pela criação de obras de arte vestíveis e calçáveis– incrivelmente bonitas, mas perturbadoramente impossíveis de usar. São figurinos para a vida real.

Alessandro Michelle também imprimiu as cores do arco-íris numas plataformas com mais de 10 centímetros de sola e deu-lhes a assinatura Gucci – queremos usá-las, mas será que conseguimos? Depois, Demna Gvasalia agitou a Internet quando decidiu colaborar com asCrocs na coleção de verão da Balenciaga (no que pareceu, aos olhos do mundo, uma jogada controversa a la Christopher Kane) e apresentar uma versão altíssima que não é impossível de calçar, mas talvez seja impossível de coordenar. Ou seja, não exige qualquer equilíbrio físico, mas obriga a uma enorme perspicácia, agilidade e poder de estilo para ser possível sair ileso do caos visual. São Balenciaga, mas são socas de enfermagem. O debate interior não pode ter fim. Impossibilidades reais e emocionais à parte, como pode o designer preferido da indústria (nesta estação e nas duas passadas) unir-se à marca mais ostracizada pela moda?

A resposta é tão difícil de encontrar como os sapatos utópicos são de usar. Afinal, quem é que os compra? Talvez fiquem reservados para os pedidos mais excêntricos dastylist de Lady Gaga ou saiam diretamente do arquivo do site para enfeitar o guarda-roupa de uma it girl russa. As opiniões nas redes sociais continuam divididas – só no próximo verão vamos saber com certeza se vão sair à rua ou se só foram feitos para nos alimentar a curiosidade e a imaginação.  

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