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Será que a moda e a política podem juntar-se para fazer a diferença? As Fast Talks da ModaLisboa quiseram responder

O painel debateu questões ambientais, o futuro da indústria e o papel dos criadores de moda em tempos de protesto.
Por Marta Carvalho, 06.10.2017
"Quem decide o que vestimos também decide quem somos", dizia Danilo Venturi, na tarde da última quinta-feira, à audiência atenta de mais uma edição das Fast Talks. O evento abriu a 49.ª edição da ModaLisboa e teve lugar na Estufa Fria que, inundada pela luz de um céu limpo, foi o cenário perfeito para uma conversa que abordaria, entre outros assuntos, a poluição e a sustentabilidade.

Moderada por Joana Barrios e com o objetivo principal de debater a relação entre a moda e a política, a conversa arrancou com a primeira intervenção de Venturi. O diretor do instituto de moda italiano Polimoda começou por salientar que esta é uma das indústrias mais poluidoras da atualidade, o que se deve, em parte, à quantidade astronómica de roupa que é queimada constantemente. Partilhou também as suas dúvidas quanto às vantagens de um mundo globalizado: "Será a globalização, realmente, uma revolução positiva? Afinal, a globalização estandardizou o gosto pessoal."

Como tudo o resto, a moda deixou de ter limitações geográficas e qualquer marca pode, agora, chegar aos cantos mais remotos do planeta. O mundo cada vez mais homogéneo em que vivemos dá de beber as mesmas referências a quase todos os seus habitantes, o que resulta numa mistura (desleixada) de influências culturais e, claro, num gosto global. Mas quando Venturi afirma, uns minutos depois, que "existe alguém que decide o que vestimos", a quem estará ele a referir-se? A meia dúzia de designers de marcas de luxo? A quem prevê as tendências? A líderes políticos? Se formos procurar os responsáveis pela globalização, a política tem um papel importante em todo o processo.

Para falar das vantagens de um mundo globalizado, Alexandra Bondi de Antoni, fotógrafa e editora da versão alemã da revista I-D, quis destacar a sua capacidade de trazer novas formas de pensar para a moda. Salientando a importância de um novo grupo de fotógrafas que retratam o corpo feminino como um meio para contar histórias ? em vez de, pelas palavras de Alexandra, "ser utilizado para vender um produto" ?, a editora sente-se otimista em relação ao futuro da indústria. Imagina-a cada vez mais inclusiva, mais honesta e mais aberta a assuntos como a saúde mental, os distúrbios alimentares e, claro, a política ? e em parte deve-o às redes sociais e ao poder que estas têm de iniciar uma conversa.

Aurélia Vigouroux, fundadora da agência de marketing digital AmuseD, está envolvida em vários projetos que apoiam jovens talentos do design e explicou a enorme importância que a indústria tem para a economia francesa. "A moda é um negócio que emprega 1 milhão de pessoas em França. É a indústria que proporciona mais oportunidades de emprego – está à frente do sector dos automóveis, por exemplo ? e por isso é extremamente importante para o país que continue a desenvolver-se e a acolher novos talentos." Para apoiar jovens designers, a organização a que Vigouroux pertence (a Maison Méditerranéenne des Métiers de la Mode) conta com o apoio do governo francês que, segundo a diretora de marketing, é indispensável.

Na opinião de Misha Pinkhasov, jornalista, a roupa é frequentemente utilizada como forma de protesto, mas a indústria tem sempre as suas reservas quando chega a altura de intervir em questões políticas. Desde os tempos em que Coco Chanel oficializou a despedida do espartilho que a moda tem servido como plataforma de expressão de ideias, mas os designers de hoje em dia são mais cautelosos com o que transmitem. Maria Grazia Chiuri criou a T-shirt que seria uma das peças mais icónicas da estação, mas estarão as feministas dispostas a gastar 700 euros numa peça que, além do slogan ‘we should all be feminists’, não parece partilhar os mesmos valores? Venturi comenta que a Dior apresentou uma peça cool que toda a gente quis comprar e consequentemente lucrou à custa de ideais que não chegaram a ser transmitidos, de outra forma, pela marca. É, portanto, necessário perguntar: será a compra de uma peça de roupa trendy uma verdadeira forma de protesto? E estarão as marcas a tirar partido de questões sociais e políticas para gerarem vendas sem chegaram, realmente, a estabelecer uma posição?

Gonçalo Castel-Branco, produtor executivo e o último orador a ser apresentado, trabalhou nas campanhas de Barack Obama e Hillary Clinton. Melhor que ninguém, sabe a importância que a moda tem nas campanhas políticas e que peças de roupa bem escolhidas são indispensáveis para contarem a história certa. Se nos lembrarmos do que Aurélia Vigouroux disse nesta mesma conferência, é fácil ver a moda e a política como dois sectores que se ajudam e complementam: a moda é uma ferramenta importante para a política e a política é um apoio indispensável da indústria.

Mas como Misha Pinkhasov defendeu, a moda é também um canal que pode e deve ser usado para expressar ideais num mundo cada vez mais afetado por decisões políticas. Porque já não basta lançar a T-shirt ou desfilar um grupo de modelos em protesto como a Chanel fez em 2015, é importante que as marcas assumam uma posição e um grupo de valores que possam defender sempre. O consumidor, uma entidade cada vez mais poderosa neste mundo conectado, quer saber que comprou um vestido a uma marca que não vai contra aquilo em que acredita. Mas como Venturi disse, "só se vai criar uma relação entre o consumismo e a cidadania quando isso for pertinente a quem compra". E enquanto as decisões criativas estão nas mãos dos designers, a responsabilidade de exigir uma indústria mais ativa e mais reativa a questões políticas e sociais continua do nosso lado.
 
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