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Revolução à francesa: cinco criadores a não perder de vista

Nos anos 90, Bernard Arnault, patrão do Grupo LVMH, agitou a Moda ao nomear dois jovens prodígios ingleses em casas de tradição francesa. Galliano, na Dior, e McQueen, na Givenchy, provaram que a irreverência é permitida se acompanhada de savoir faire. Hoje, as marcas históricas rivalizam com a abordagem mais democrática dos designers independentes. Uma liga de criadores extraordinários que tem em comum o empreendedorismo e Paris.
Por Carolina Carvalho, 30.09.2017

Simon Porte, Jacquemus

Quando Kim Kardashian, Rihanna e Selena Gomez usam roupa de um novo designer de moda, ele entra, de imediato, no radar das massas. Quem é então Simon Porte (Salon-de-Provence, França, 1990), fundador da marca Jacquemus? O Business of Fashion (BoF) define que o seu trabalho está entre o comercial e o conceptual. O site Net-a-Porter apresenta-o como um protegido de Rei Kawakubo (e o próprio aponta a Comme des Garçons como uma das suas principais referências). Foi, aliás, numa loja da marca japonesa que o criador começou a trabalhar, em 2011, para financiar o seu projeto profissional: a marca Jacquemus. O designer trocou o sul de França por Paris, aos 18 anos, e chegou a frequentar a École Supérieure des Arts et Techniques de la Mode, mas rapidamente partiu para o passo seguinte e fundou a sua própria marca, em 2009 (aos 19 anos), que batizou com o nome de solteira da mãe, um ano depois da sua morte. Estreou-se na apresentação de coleções na Semana da Moda de Paris, em 2012, e, em 2015, foi um dos vencedores do prestigiado prémio para jovens criadores de moda LVMH Prize (partilhado com a dupla de portugueses Marques’Almeida).

O The New York Times adianta que a relação de Simon Porte com a imprensa nem sempre foi boa, mas a coleção de primavera/verão de 2017 parece ter dissipado eventuais dúvidas sobre o seu talento, talvez por refletir na perfeição a identidade do criador: às peças de construção arquitetónica, com especial atenção às mangas das camisas, juntaram-se chapéus de palha típicos da Provence (Kendall Jenner postou uma fotografia posando com um destes chapéus, no Instagram, e o resultado foram mais de três milhões de likes), num mood campestre chique que conquistou fãs e imprensa. No verão deste ano, Jacquemus chegou à capa das revistas Vogue alemã, Marie Claire francesa e Porter (no corpo de Nicole Kidman). No próximo inverno apostou no classicismo repensado com novos volumes e assumiu a preferência pelo preto. Em entrevista à revista Interview, Simon Porte esclareceu que a maioria dos seus parceiros de comércio são plataformas online, prova de que é um designer do futuro. Se o quiser descobrir, poderá encontrar as suas peças em farfetch.com ou em net-a-porter.com. jacquemus.com

 

 

Christelle Kocher, Koché

O que aparenta ser um conceito arrojado, na marca de Christelle Kocher (Estrasburgo, 1978), talvez seja, afinal, a chave do sucesso num determinado sector da indústria da moda. A fundadora e diretora criativa da marca Koché, inaugurada em 2014, mistura nas suas coleções a cultura de rua com acessórios e elementos de luxo. "Este foi o ponto de partida e a essência da Koché. Estou a juntar trabalhos artesanais especiais com sportswear urbano e prático", disse ao Business of Fashion (BoF). No ano seguinte, já apresentava as suas coleções na Semana da Moda de Paris. Depois de se licenciar na Central Saint Martins School, em Londres, esteve uma década a trabalhar em marcas como Bottega Veneta, Dries van Noten, Chloé, Sonia Rykiel, Martine Sitbon e Emporio Armani, que tornam um currículo mais do que recheado e inspirador. Aproximou-se, ainda mais, do luxo quando foi trabalhar para a Maison D’art Lemarié, onde hoje assume o lugar de diretora artística. O ateliê, fundado em 1880, dedica-se ao trabalho de plumas e de flores e inclui-se num leque de prestigiados ateliês que produzem trabalhos artesanais para Alta-Costura (e que a casa Chanel adquiriu, de forma a permitir a sua continuidade). Nascida em Estrasburgo, a criadora vive em Paris e as coleções Koché refletem o modo como vive a cidade: entre um mood prático que se mantém fiel a um estilo de vida cosmopolita, mas estrategicamente complementado com acessórios e detalhes únicos encomendados àquele exclusivo ateliê. A perspetiva que tem sobre a moda valeu a Christelle Kocher um lugar entre os oito finalistas do LVMH Prize, em 2016, e entre os quatro finalistas do Prémio ANDAM (principal distinção de moda atribuída, em França, pela National Association for the Development of the Fashion Arts), de 2017. Hoje, é considerada pela imprensa especializada como um dos nomes a acompanhar na Moda e tem mais de 30 pontos de venda pelo mundo. Depois de o desfile de primavera/verão 2017 ter acontecido num espaço púbico (La Canopée), o desfile de inverno teve como cenário a icónica sala de espetáculos Folies Bergère. Estão lançados os dados para uma coleção de espetáculo. koche.fr

 

 

Glenn Martens, Y/Project

Contou Glenn Martens (Bruges, 1983) à Interview que "ao crescer numa pequena cidade provinciana, como Bruges, não sabia que ser ‘designer de moda’ era uma profissão". E, de facto, o jovem belga estudou línguas, formou-se em arquitetura de interiores e ainda se candidatou a um lugar no curso de moda da Royal Academy of Fine Arts, de Antuérpia, curso que terminou como o mais bem classificado da turma. Deu, assim, espaço a uma pequena paixão que nasceu, quando tinha sete anos, ao ver um vestido de Thierry Mugler todo executado em penas, numa revista da mãe. Ainda estudava quando foi recrutado para trabalhar com Jean Paul Gaultier (nas pré-coleções de mulher e na marca masculina G2), com quem diz ter aprendido a importância dos trabalhos artesanais que fazem com que as peças se aproximem mais da arte do que da moda. O caminho de Glenn Martens parecia desenhar-se no território da moda. Trabalhou como independente com as marcas Weekday (H&M) e Honest by Bruno Pieters, também ele belga. Em fevereiro de 2012, lançou-se com coleções de mulher em nome próprio, embora por apenas três estações. É logo de seguida que surge a oportunidade de se juntar à Y/Project. A marca de moda masculina nasceu, em 2010, de uma parceria entre o designer Yohan Serfaty e o empresário Gilles Elalouf, mas quando Serfaty faleceu, em 2013, o seu parceiro chamou o antigo assistente Glenn Martens para diretor criativo. Começaram então as grandes mudanças na marca, como a introdução de moda feminina e de parte da coleção dedicada a peças unissexo. "Herdei a marca, a sério", disse o criador ao The New York Times. Em 2016, foi um dos oito finalistas do LVMH Prize e, já este ano, venceu o Prémio ANDAM. No início da década de 1980, um grupo de seis criadores de moda formados na mesma instituição que Glenn Martens ficou conhecido como "Os Seis de Antuérpia" (onde se incluem nomes como Dries van Noten e Ann Demeulemeester) e pôs a cidade no mapa da moda. O criador de Y/Project mantém viva a tradição e, quem sabe, dará início a uma nova vaga.

 

 

Tuomas Merikoski, Aalto

Só o nome da marca já dá que pensar. Aalto significa onda ou fase, em Finlandês. Também traz à memória o arquiteto finlandês Alvar Aalto, nome incontornável da arquitetura orgânica do século XX, que até poderia ter influenciado a estrutura arquitetónica de que as peças desta marca são dotadas. Aalto é o nome da marca que o criador finlandês Tuomas Merikoski fundou em Paris, em 2014. "Quero partilhar a loucura do meu país", disse em entrevista à Numéro e ainda explicou que a marca é franco-finlandesa, ou seja, "combina o conhecimento francês com a cultura finlandesa", mas contudo reconhece que "não teria funcionado na Finlândia". O criador foi finalista do LVMH Prize, de 2016, e do Prémio ANDAM, de 2017. Quando se lançou numa marca própria, já tinha na bagagem a experiência de trabalhar na moda de luxo francesa quer na Givenchy quer na Louis Vuitton. A marca Aalto orgulha-se de colaborar com artistas escandinavos e de usar materiais provenientes da Europa e, para grande surpresa de muitos (ou talvez não), grande parte da produção é feita aqui, em Portugal. aaltointernational.com

 

 

Antonin Tron, Atlein

Nasceu em Paris, em 1984, mas partiu para a Bélgica para estudar na Royal Academy of Fine Arts, de Antuérpia. Antonin é também um surfista apaixonado pelo oceano e foi precisamente no Atlântico que se inspirou para dar nome à própria marca. Licenciou-se em 2008 e voltou à sua cidade natal, onde trabalhou na Louis Vuitton (coleções masculinas) e na Givenchy (coleções femininas). Fundou a Atlein em março de 2016 e apresentou a primeira coleção no seu próprio apartamento, localizado no Marais. A propósito, recordou ao site The CUT: "A minha mãe serviu os cafés e algumas das modelos eram minhas amigas", mas parece ter convencido de imediato a crítica. Nesse mesmo ano venceu o Prémio ANDAM e as suas criações chegaram aos gigantes Net-a-Porter, Bergdorf Goodman’s ou Neiman Marcus. Este ano é um dos finalistas do LVMH Prize. O jersey é a sua textura de eleição. atlein.com

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