Especiais

O que é que a Victoria's Secret tem?

Porque é que um desfile de lingerie continua a mover multidões e a gerar lucros de milhões? Porque é que continuamos agarrados a uma marca que alimenta estereótipos de género, recusa a diversidade e perpetua um conceito redutor da mulher? Fomos investigar o fenómeno.
Por Carlota Morais Pires, 20.11.2017

Nos Estados Unidos o conservadorismo censurou a produção cinematográfica até meados da década de 60, altura em que os filmes que reproduziam (ou sugeriam) cenas eróticas ou sexuais deixaram de ser cortados ou banidos. A partir daí, Hollywood passou a ser uma espécie de estudo de caso para outras indústrias, como a televisão, a publicidade, a música e a moda, que rapidamente compreenderam que o sexo é o melhor rastilho para causar polémica e atrair audiências. Claro que nem sempre é assim – às vezes a nudez é explorada pela sua beleza e na sua simplicidade absoluta, captada de forma subtil ou crua, sob um ponto de vista artístico. E não é difícil perceber a diferença entre despir uma mulher para criar uma determinada estética (mesmo que o objetivo final do artista ou cineasta seja apenas a provocação) ou fazer do corpo um objeto que só existe para alimentar um imaginário de desejo sexual masculino.

Nos últimos anos, e à medida que nos esforçamos para que o fosso entre géneros seja menos acentuado, muito se tem discutido sobre a sexualização e objetificação da imagem da mulher pelas marcas de moda e pelos mass media. Mas não é exatamente isso que a Victoria’s Secret nos traz todos os anos? Talvez não gostemos da ideia, mas é importante desconstruí-la, nem que seja porque os números nos dizem que há 500 milhões de pessoas no mundo a ligar a televisão para assistir ao desfile, principalmente quando muitas delas não estão particularmente atentas a tendências ou às semanas de moda. Afinal, o que é que as atrai?

"Bem, para começar mulheres em lingerie dá sempre buzz, como se sabe. Basta olhar para as noites da Fashion Tv, que de moda têm cada vez menos, mas devem ter uma audiência gigantesca porque são horas e horas de miúdas semidespidas. É do bicho humano: homens e mulheres adoram ver raparigas despidas", explica a jornalista Patrícia Barnabé, chefe de redação da Vogue portuguesa durante mais de uma década. "Tornou-se um fenómeno porque é de massas e porque é uma ideia de glamour misturada com uma ideia de moda. Cultura pop a ser cultura pop. E tudo o que as miúdas (e os rapazes) projetam num ideal de perfeição está lá. Por ser inatingível é que tão fascinante – ninguém tem aquela beleza e aquele corpo. Mesmo as modelos têm um regime rigorosíssimo para chegarem àquela imagem. Pena que não seja admirada a inteligência e a bondade extremas, que também não é para todos – mas é outro patamar de evolução. Aqui falamos de corpo, que é o mais básico, o instinto."

Mais do que uma apresentação de peças exóticas, coloridas e forradas a diamantes (como o já icónico soutien de 3 milhões de euros), o espetáculo anual organizado pela Victoria’s Secret é um investimento de mais de 12 milhões de euros. Há toda uma preparação que é anunciada nas redes sociais e na imprensa e que quer mostrar tudo (com uma edição, claro), desde os treinos das modelos (nos vídeos praticam como atletas e, claro, vestem a linha de desporto da VS) à viagem dos anjos num jato privado para a cidade onde vai acontecer o desfile. Todos os anos, em novembro, já sabemos exatamente o que esperar, antes, durante e depois da apresentação, desde a atuação de alguns dos cantores pop que se ouvem na rádio agora ao exército de supermodelos altíssimas, atléticas e bronzeadas que desfilam um ideal empoeirado de perfeição.

Enquanto alguns podem considerar o cenário inspirador, um olhar mais aprofundado mostra-nos um fenómeno altamente redutor e superficial. Não há rasgo de criatividade, como na passerelle de uma Gucci ou de uma Prada, nem vontade de inovar, como mostram a maior parte das marcas de moda. A verdadeira pergunta é: se não sabemos o que estas mulheres fazem, o que pensam e no que acreditam, porque é que nos sentimos tão inspirados por elas? Como podemos identificar-nos com uma ideia tão inatingível e que não faz mais do que sexualizar a figura feminina?  

"O que a Victoria’s Secret faz é tornar a estética da indústria pornográfica mainstream e legitimá-la ao chamar as modelos de anjos. Cria um equilíbrio impossível, mas que não deixa de ser interessante: há uma hipersexualização da mulher que é contrabalançada com a ideia de pureza. Se trocarmos as asas por orelhas de coelho as modelos não vão ser diferentes (em nada) das raparigas que víamos nos anos 70 nas páginas da Playboy", avança o sociólogo Bernardo Coelho. "Há a normalização do que era transgressivo e reproduz estereótipos associados ao género: a mulher feminina e sexual mas angelical."

"Infelizmente, a imagem do ideal é aquela que, se formos a ver, não é nada distante da Barbie. É uma ideia abonecada, elas têm asas de anjo, como se não fossem reais. A diversidade da passerelle é daquelas coisas que está a mudar, mas leva o seu tempo, como o próprio racismo e outras questões do foro do preconceito. Mas, a seu tempo, chegará", acrescenta Patrícia Barnabé.

Mas além da cor da pele, há mais questões a explorar. Ontem, a modelo plus size Ashley Graham publicou no Instagram uma fotografia sua num desfile para a marca Addition Elle, onde veste lingerie e asas de anjo. "Ganhei as minhas asas… As asas da #AdditionElle", escreveu na legenda, com a hashtag ‘#ticktighssavelives’, numa crítica pouco subtil à falta de modelos com diferentes tipos de corpos no casting da Victoria’s Secret.

A questão que se coloca é se, acima de tudo, o desfile da Victoria’s Secret não será uma concretização milionária de um fetiche que é simultaneamente masculino e feminino – isto é, a personificação do ideal estético do que os homens sonham ter e do que as mulheres querem ser? "Escolher um grupo de mulheres atraentes para um desfile – mesmo que o casting esteja agora mais aberto à diversidade racial do que nos últimos anos – e usá-las como representações sexuais para vender soutiens está longe de ser uma manifestação do sonho feminista. Ainda mais perturbador é ler que o espetáculo é considerado um momento de empoderamento feminino em contextos que fazem muito pouco sentido", escreve a jornalista Jill Filipovic para a edição norte-americana da Cosmopolitan.

A marca defende-se, explicando que o que conta aqui é o allure das modelos. "Sim, são lindas, mas a personalidade e a capacidade de se projetarem naquela que é a maior passerelle do mundo é o que realmente conta. São estas características que distinguem estas modelos de todas as outras", avança John Pfeiffer, diretor de casting da Victoria’s Secret em entrevista à Another Magazine. "Existem muitas definições de beleza e vão mais longe do que a aparência física. A beleza tem a ver com caráter, personalidade e individualidade", continua o scouter que já trabalhou diretamente com Alexandre de Betak e esteve à frente de castings para os desfiles de dezenas de casas de moda, desde a Bottega Veneta à DVF e Donna Karan.

Qualquer que seja o critério, e mesmo que o desfile seja previsível do início ao fim, continua a ser falado pela imprensa e as audiências do fenómeno continuam a ser comparáveis ao Super Bowl norte-americano. Em relação ao conteúdo, são formatos que não se distanciam assim tanto – é puro entretenimento.  

A jornalista Patrícia Barnabé remata: "Não mata ninguém, mas é uma forma de tornar as mulheres numas bonecas e, de certa forma, um objeto decorativo. Por outro lado, também é divertido, e as próprias raparigas contribuem para isso: os estereótipos são alimentados por ambos os sexos, infelizmente. Não há mensagem nenhuma, nem de moda nem de nada: é como a feira popular, só luzes a piscar."

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
Vídeos recomendados
Outras notícias Cofina
0 Comentários
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!