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O novo guarda-roupa da princesa Bela

O filme A Bela e o Monstro chega finalmente às salas de cinema portuguesas esta quinta-feira. Com um elenco de luxo já conhecido, falta ver outro dos protagonistas do filme: o guarda-roupa. Em entrevista, a figurinista Jacqueline Durran satisfaz algumas curiosidades.
Por Carolina Carvalho, 16.03.2017
Quando a Disney lançou o filme de animação A Bela e o Monstro em 1991 (em plena época áurea dos filmes de animação e contos de fadas, sucedendo A Pequena Sereia e precedendo Aladino), tornou-se claro que seria um dos clássicos mais memoráveis dos estúdios. Nos Óscares do ano seguinte foi o primeiro filme de animação a concorrer na categoria de Melhor Filme e ganhou os prémios de Melhor Banda Sonora e Melhor Canção com o tema A Bela e o Monstro, interpretada por Celine Dion e Peabo Bryson.
 
Em 2017, a história de encantar A Bela e o Monstro salta da prateleira dos clássicos Disney para ganhar uma versão com pessoas interpretada pelo realizador Bill Condon. Emma Watson é a encantadora Bela, Dan Stevens o assustador Monstro, Luke Evans dá vida ao vaidoso Gaston e os atores Ewan McGregor, Ian McKellen e Emma Thompson interpretam as famosas personagens do castelo encantado. E nem a mítica música podia faltar, agora com as vozes de Ariana Grande e John Legend. Então e o guarda-roupa? Ficou a cargo de Jacqueline Durran, uma experiente figurinista de Hollywood que já conta com um Óscar no currículo (pelo filme Anna Karenina). Muito mais do que roupa com inspiração de época, os figurinos ajudam-nos a identificar as personagens que já conhecemos e revelam-nos algo da sua história e personalidade. Jacqueline Durran, a figurinista do filme, desvenda os segredos do guarda-roupa de A Bela e o Monstro.
 
Quando começou a trabalhar neste filme?
Cerca de 18 semanas antes do início das filmagens, pois precisávamos de começar a preparar os fatos físicos do Monstro. Naquela altura, não estava claro se o Monstro ia ser feito através de próteses ou de computação gráfica. Decidiu-se que seria feito através de computação gráfica, para o qual o nosso departamento fez fatos reais em três dimensões, para cada fase da sua história. O departamento de efeitos visuais examinou os nossos trajes e usou-os como base para o seu trabalho.
 
Como foi desenhar os figurinos de um universo de conto de fadas?
Trabalhar num conto de fadas foi interessante porque nos permite interpretar um período antigo sem nos limitar a um ano específico. Bill Condon, o realizador, foi bastante claro que queria que a história fosse passada nos meados do século XVIII, o que foi ótimo para nós, porque nos dá o melhor dos dois mundos: temos a base do período histórico, mas não se está vinculado à precisão histórica ? podemos interpretar o período para que se possa adequar à história. Um dos aspetos únicos da produção foi ter a animação e o guião original como ponto de partida. Os atores, o realizador e cada um dos departamentos de design tentaram reunir ambos, para que o resultado final fosse uma referência ao filme de animação, mas também uma melhoria do mesmo. Por exemplo, com o vestido amarelo que Bela usa na cena do baile, passámos por um longo processo de desenho para descobrir exatamente qual seria a nossa interpretação da versão do filme de animação.
 
Pode-nos falar dos fatos de Bela? Usou alguns temas ou paletas de cores?
Os fatos de Bela são baseados nos do filme de animação, por isso, de certa forma, reinterpretámos o filme de animação. A primeira vez que o público vê Bela está na aldeia a usar um vestido azul, que é uma homenagem ao que usa no filme de animação, mas agora tem umas calças justas, um avental, bolsos e um corpete (não um espartilho). Não queríamos que fosse uma princesa delicada, mas sim uma heroína ativa, por isso o seu fato foi desenhado com bolsos onde poderia colocar os livros e tudo o que possa precisar e está a usar botas, não sapatos delicados, para que pudesse correr pela vila. Esta Bela é muito prática... é uma inventora. Está sempre a pensar em formas de melhorar a aldeia. Focamo-nos na ideia de uma França regional, mas num contexto de conto de fadas do século XVIII. Historicamente, os trajes regionais franceses são bastante excêntricos, com chapéus de formas incomuns e detalhes regionais peculiares, como casacos com várias camadas e vestidos com aventais. Encontrámos um conjunto de padrões brilhantes e coloridos no LACMA, em Los Angeles, que nos deu uma visão dos trajes regionais da França do século XVIII. Eram lindos e tornaram-se uma das nossas grandes referências para a população e para os seus figurinos, que nos indicam a localização geográfica e a vida que criámos na França central. Foi divertido ver a aparência evoluir e esta cena acabou por ser a minha referência favorita a uma das cenas mais emblemáticas do filme de animação.
 
O vestido amarelo iria sempre ser amarelo neste filme... O meu objetivo foi reinterpretar sempre os fatos originais, torná-los mais reais e dar-lhes textura, mas em específico para Bela, o ponto de partida foi sempre o filme de animação. Acabámos por criar um vestido simples porque o mais importante era o movimento do mesmo. Foi feito numa estrutura muito macia, construída com muitos metros de organza de seda tingida de amarelo e cortada de forma ampla e circular, de modo a enfatizar o seu movimento. E como há um ponto na história em que Madame Garderobe borrifa o vestido de Bela com o ouro do teto do seu quarto no castelo, imprimimos a folha de ouro no vestido.
 
O desenho do vestido que Bela usa no final do filme, quando o feitiço é quebrado, é inspirado num avental original do século XVIII, com um padrão entrançado num tecido de seda, que comprei quando estava a estudar. Encontrámos um artista em Inglaterra, que através do motivo floral desse padrão o transformou num desenho. O desenho foi pintado à mão no tecido, ampliado e impresso digitalmente. As expectativas para todos os fatos de Bela eram bastante altas e no fim conseguimos fatos bonitos que fazem referência ao filme de animação, mas que são únicos para este filme.
 
A sustentabilidade foi uma preocupação…
A Bela não tem muitos figurinos no filme, mas há uma cena no meio do filme em que muda de roupa algumas vezes e quisemos desafiar-nos a fazer figurinos completamente éticos e de fontes sustentáveis, de forma a sermos rigorosamente sustentáveis nos métodos que usámos nos nossos departamentos de construção e tingimento. No início, não sabíamos nada sobre o assunto, por isso entrámos em contacto com a Eco Age para conhecermos uma série de critérios a que poderíamos aderir. Aprendemos a tingir com corantes naturais e que corte e tipo de fios usar quando costurássemos. Os sapatos foram refeitos em couro sustentável.Toda a gente tinha de observar como é que faziam e verificar o material que estávamos a usar, para encontrar uma forma de tornar cada passo o mais ético e sustentável possível.
 
Pode-nos falar dos figurinos de Dan Stevens como Príncipe?
Para o prólogo, quando ainda é um príncipe, Dan veste um fato ousado do século XVIII, cheio de bordados e cristais Swarovski. A ideia foi retirada de um fato histórico, em que era comum os casacos dos aristocratas ricos serem cobertos de joias. A Swarovski forneceu-nos milhares de cristais e quando se vê de perto percebe-se que o casaco tem um javali, um dragão e um leão que pertencem ao emblema da família do príncipe e que foi incorporado no bordado. Para a celebração no final do filme, há muita alegria, movimento e ação. Passa-se num castelo em França e tem-se a sensação de que é verão, por isso pareceu-nos bem o Príncipe estar vestido de azul para equilibrar com o vestido floral de Bela. Sempre foi esse o plano, mesmo antes de decidirmos que toda a multidão se iria vestir de preto e branco, o que realça ainda mais a Bela e o Monstro/Príncipe.
 
E os figurinos de outras personagens como Gaston (Luke Evans), Maurice (Kevin Kline), os empregados do castelo e as debutantes?
Coloridos, os fatos de Gaston são baseados no filme de animação e a sua cor é o vermelho. Vestimo-lo como se fosse uma figura militar ou alguém com aspirações para estar nas forças armadas. Jogámos com as diferentes interpretações do seu aspeto, mas a base é o estilo militar do século XVIII. O seu casaco de couro que usa quando vai para o castelo, para atacar e lutar com o Monstro, é uma interpretação de um casaco do século XVIII, mas não é historicamente exato.
Quando Kevin Kline se juntou ao elenco e lhe começámos a falar sobre a sua personagem, Maurice, decidiu-se que seria um artista. Acabou, por alguma razão, a morar numa pequena aldeia com um ar boémio no centro de França, pelo que é uma das principais razões para a sua maneira de vestir. Usa uma bata de trabalho azul-escura e um colete floral. Nos empregados do castelo, o departamento de arte colocou em cada um deles os objetos em que foram transformados e puseram elementos daquilo que são nos seus fatos. Em alguns casos, foi só uma inspiração, mas noutros casos foi um empréstimo literal.
Com a Sr.ª Samovar, usamos a base creme do bule para a cor do seu vestido e a impressão da folha no vestido é retirada da folha impressa no bule. Foi uma espécie de relação de dar e receber e foi uma das melhores relações de trabalho que já tive com uma equipa de design de produção. Na cena em que os objetos se transformam de novo em seres humanos, também há elementos nesses figurinos dos objetos, como por exemplo os sapatos da Madame Garderobe que têm um painel de ouro ornamentado, que são também os pés do guarda-roupa.
 
Logisticamente, o baile do Príncipe foi um grande desafio porque Bill Condon queria um elevado número de debutantes para a cena. Tivemos de procurar vários vestidos brancos do século XVIII, em várias casas de fatos da Europa. Percebemos que não existiam muitos ou que não eram bons o suficiente e por isso assumimos a confeção de 60 vestidos brancos para as debutantes. O estilo dos vestidos do século XVIII não diferiu estruturalmente, mas precisavam de ser diferentes na forma como eram cortados, sendo o verdadeiro trabalho inventar acabamentos diferentes para os 60 vestidos. Tudo isto porque a cena de abertura do filme estabelece imediatamente uma energia e uma vitalidade do século XVIII e deixou claro que este era um príncipe vaidoso e sem moral.
 
Como foi trabalhar com o realizador Bill Condon e com o departamento de arte?
Foi ótimo. Comecei a trabalhar com Bill e com a produtora Sarah Greenwood na pré-produção. Bill esteve sempre connosco durante todo o processo e envolvido em todas as decisões que fizemos desde o início. Isso nem sempre acontece, mas é muito útil.
*Saiba mais sobre a estreia do filme.
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