Pornografia: de mulher para mulher
04/05/20120
Acha os filmes pornográficos grotescos, inestéticos e muito pouco excitantes? Não é a única! Mas este cenário está a mudar. Principalmente pelas mãos de jovens realizadoras. Prepare-se!
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Lolitas, enfermeiras e secretárias atrevidas ou, pura e simplesmente, exuberantes ninfomaníacas. Polícias, mafiosos e outros homens a tresandar a testosterona. Imagens cruas e explícitas dos órgãos sexuais e enredos pobres, quase infantis, a desenrolar-se em cenários inexistentes ou no mínimo de mau gosto. Isto excita-a? É provável que não. Estes são alguns dos estereótipos mais frequentes da produção pornográfica tradicional e pouco dizem a grande parte das mulheres. A verdade é que até aqui a pornografia sempre pertenceu ao universo masculino. Feita por homens e a pensar, sobretudo, nos homens.

A nossa herança cultural, de vergonha e de culpa, proibitiva do prazer, não dava espaço para que surgisse interesse por parte das mulheres neste tipo de material. Socializadas de forma mais repressiva, sempre impedidas de explorar a sua sexualidade e de trilhar um caminho de descoberta do prazer sexual, o recurso à pornografia esteve sempre fora de questão para o universo feminino.

Por outro lado, uma visão mais recente e puramente feminista sempre repudiou este tipo de produto. Considerava-o misógino, acusando-o de degradar a imagem das mulheres e de as explorar.

Ultrapassando qualquer destas barreiras, a atração à pornografia por parte das mulheres nunca foi grande. “O erotismo feminino não passa muito pelo visual. Os estímulos visuais são muito mais um padrão masculino”, comenta a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira, investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC). “A produção de pornografia como até agora conhecemos é pouco interessante para o erotismo das mulheres. A falta de uma narrativa consistente, a seleção de imagens explícitas, às vezes brutalmente explícitas, que não deixam nenhum espaço para a imaginação, e a força da imagem – pénis, órgãos sexuais sem pelo, para se ver o tamanho e todo o resto –, tudo isso é pouco interessante para o erotismo feminino. Este precisa da elaboração na forma da narrativa, da idealização, da idealização do outro, da cena”, explica a especialista.

Mas uma nova tendência está a surgir. As novas tecnologias têm representado uma verdadeira ponte a conduzir um número cada vez maior de mulheres aos conteúdos pornográficos. Um estudo realizado recentemente pela sexóloga Ana Alexandra Carvalheira e pela psicóloga Maria João Gaspar, intitulado O consumo de pornografia na Internet numa amostra de mulheres Portuguesas, revela um aumento crescente no consumo de pornografia pelas mulheres. Fazem-no através da Internet, um meio fácil, rápido, económico, descomprometido e que permite o anonimato total. “Elas não têm de ir ao clube de vídeo, àquela secção escondida, e pegar numa cassete. Basta um clique”, comenta a sexóloga.

De acordo com este estudo, provavelmente o único centrado no universo feminino português, 56,9 por cento das mulheres inquiridas já entrou em sites pornográficos e 7 por cento gasta mais de 6 horas por semana nesta atividade. Porque o fazem? 29,6 por cento responde ser por entretenimento; 38,3 por cento assume procurar algo que as excite sexualmente; e 47,8 por cento afirma fazê-lo apenas por curiosidade. “Ainda que refiram ser uma mera curiosidade, esta é uma curiosidade direcionada, um interesse pela excitação sexual. Um interesse que não é muito assumido pelas mulheres”, sublinha em entrevista Ana Alexandra Carvalheira.

A nível de conteúdo, 69,6 por cento procura imagens de relações entre homens e mulheres, enquanto 28,7 por cento procura encenações de fantasias; 22,6 filmes pornográficos hardcore; 21,7 imagens de homens; e 19,1 filmes pornográficos softcore, entre outros.

O estudo foi feito a partir de uma amostra de pouco mais de 200 mulheres em Portugal. E refira-se que o universo aqui focado é o do consumo online – provavelmente o principal, ou mesmo único meio de consumo de pornografia pelas mulheres portuguesas – e isso limita o grupo de estudo a mulheres com uma média de idades baixa, em que a maior frequência de acesso se verifica na faixa entre os 21 e os 30 anos. É a população mais jovem que usufrui do acesso à Internet para atividades não laborais e são os indivíduos com um maior nível de educação que têm maior facilidade em usar novas tecnologias. Mesmo não sendo uma amostragem representativa do total das mulheres em Portugal, esta investigação permite-nos levantar o véu sobre o tema tão pouco falado e estudado.


E o que este estudo deixa claro é que há um interesse feminino pelos conteúdos dirigidos ao público adulto. E, apesar das barreiras e da inadequação de forma e conteúdo da grande maioria dos produtos, é verdade que há alguma apetência por parte das mulheres pela pornografia. E é neste cenário que surge a pornografia feita por mulheres e dirigida às mulheres. São filmes que recebem a denominação de Feminist Porn e que vão de encontro ao que estimula as mulheres, mas que também agrada a casais e mesmo a um público mais alargado. Estes filmes “fazem com que mulheres e casais se sintam bem em relação a si próprios e em relação ao sexo”, comentou em certa ocasião Chanelle Gallant, organizadora do Feminist Porn Awards, que já vai na sua sexta edição.

Vemos, assim, uma nova geração de realizadoras a entrar no mercado: Courtney Trouble, Shine Louise Houston, Bren Ryder. E neste grupo Erika Lust é um nome de destaque. Tem 34 anos, é sueca de origem, licenciada em Ciências Políticas e especializada em Feminismo. Vive em Espanha, é a cofundora da Lust Films of Barcelona e produz filmes dirigidos ao público adulto com conteúdos muito distintos dos habituais clichés pornográficos. Longe das produções de aspeto barato e grosseiro, recheadas com personagens estereotipados, a realizadora aproxima cenários, ambientes e personagens do mundo real com o qual qualquer mulher pode facilmente identificar-se.

Erika Lust estreou-se em 2004 com a curta-metragem The Good Girl e deu nas vistas. Desde então tem conquistado inúmeros prémios internacionais e faz parte de um movimento verdadeiramente revolucionário na matéria.

“A minha primeira longa-metragem – Five Hot Stories for Her – mostrou aos críticos e céticos que era possível criar um novo tipo de filme para adultos, muito distinto da pornografia a nível da ética e dos valores”, comentou a realizadora por ocasião da divulgação de um dos seus trabalhos. Erika Lust explica que nas suas produções, onde a pornografia tradicional mostra cenas de sexo oral e ejaculações, prefere exibir sentimentos e emoção. Onde costumam pôr um homem como figura central, prefere pôr o prazer feminino. Onde a pornografia é violenta e muitas vezes ofensiva, prefere mostrar o sexo de uma forma natural, realista e sensual.

“A nossa sociedade tem a tendência a considerar a pornografia como uma coisa marginal e insignificante e a acreditar que não afeta outros aspetos da vida. Mas afeta. Pornografia não é apenas pornografia. É um discurso, uma forma de falar sobre sexo. Uma forma de ver e compreender masculinidade e feminilidade”, escreveu a realizadora no seu primeiro livro, Good Porn – a Woman’s Guide, lançado em 2009 e já publicado em oito línguas. A autora defende que as mulheres têm “o direito de gostar e desfrutar dos filmes para adultos”. E a melhor maneira de defender este direito é gerando produtos que deem voz aos desejos e anseios femininos. “Temos de exigir a nossa parte no conteúdo deste discurso [até agora machista e sexista]. Temos de ser criadoras: guionistas, produtoras e realizadoras”, remata.

Quatro perguntas a Erika Lust, realizadora de filmes pornográficos para mulheres e cofundora da Lust Films of Barcelona.

  1. Com formação em Ciências Políticas, o que a levou ao universo dos filmes para adultos?

Foi um caminho curioso. Ao não encontrar trabalho em Barcelona no campo das instituições ou da política, entrei para a área do cinema e da publicidade. Aí vi que as mulheres praticamente não realizam filmes e muito menos filmes para adultos. Então pensei que este era um terreno interessante para explorar e expressar as minhas ideias feministas. Fiz então a curta-metragem The Good Girl e graças ao êxito que alcançou acabei por fundar uma produtora, a Lust Films.

 

2. O que é que distingue os seus filmes dos tradicionais filmes pornográficos realizados por homens?

A estética (vestuário, fisionomia de atrizes e atores). É a estética real do filme porno para mulheres (se uma mulher é executiva, vai vestida como tal, tem um look de executiva e comporta-se como uma) versus a estética ‘vulgarizada’ do filme porno convencional (a mesma executiva iria com uma saia que mostra tudo, com um decote impossível, meias de rede e uns óculos de comédia barata, para além de estar sempre a chupar a sua caneta de uma forma convidativa).

O registo verbal (conteúdo, tom dos guiões).

No filme pornográfico convencional, uma mulher entra num quarto onde o seu marido está com a sua melhor amiga e une-se à festa sem hesitar. Isso resume tudo. Evito as situações que surgem do imaginário masculino e penso conteúdo e histórias que apelem à nossa forma de pensar e aos nossos sentimentos.

As situações (papel protagonista, ponto de vista e empatia, tratamento das tramas: tempo, localizações).

Os meus protagonistas são mulheres. Esse é o ponto de vista que foco, as tramas são inteligentes, o sexo não surge no primeiro segundo, as localizações são reais, não idealizadas.

O registo sexual (modalidades, posturas, tratamento audiovisual dos momentos antes e depois do acto sexual).

Radicalmente diferente: o porno atual baseia-se em cenas de 20 minutos onde 18 são de mete e tira. Nos meus filmes há sexo, mas não é o único que há nem pouco mais ou menos. E a minha câmara não faz planos genitais ou ginecológicos, ao contrário, mostra a beleza e a intimidade do sexo.

Outros recursos cinematográficos (técnicos: qualidade da produção, fotografia, iluminação, som; e artísticos: música, interpretação, criatividade na realização, qualidade e veracidade das interpretações).

Dou importância a todos estes fatores que o cinema adulto despreza por considerar que não trazem nada ao negócio de mostrar sexo. Parece-lhes caro e desnecessário.

Outras diferenças: classe, inteligência, emoções, sensualidade, sentimentos, beleza, erotismo, cultura, paixão, amor… São apenas algumas coisas que se pode encontrar nos filmes adultos para mulheres e casais que proponho e que não estão na indústria pornográfica convencional.

3. O seu percurso, creio que pioneiro, é um percurso solitário ou simplesmente o início de uma nova vaga neste universo do entretenimento para adultos?

Não sou pioneira. Candida Royalle foi pioneira em finais dos anos 80, mas o que é certo é que não somos mais do que 10 mulheres em todo o mundo, o que é muito pouco se se comparar com a quantidade de homens que fazem cinema porno, e que, portanto, expressam as suas ideias sobre a sexualidade de maneira totalitária. A voz feminina praticamente não é ouvida, mas isso mudará pouco a pouco...

4. Acredita que com produções como as que faz levará mais mulheres a interessarem-se por este tipo de filmes?

Cada vez mais, a privacidade da Internet favorece e põe ao alcance de um clique o consumo de pornografia para todos: mulheres, homens e adolescentes… Mas para além disso, nós, mulheres, vemos mais do que antes porque somos mais curiosas do que antes e estamos mais libertas sexualmente.

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